Como um leão que se prepara para o bote de forma silenciosa e articulada, a Clash Lion, nova gravadora do duo brasileiro Digitaria em parceria com Shall Ocin, lançou seu primeiro EP. O artista em questão? Maetrik, projeto “lado B” de ninguém menos que Maceo Plex, que com o EP Return encerrou um hiato de 5 anos sem lançamentos e foi direto para o topo das paradas do Beatport.

Resultado de imagem para return EP maetrik

Ninex 7-c e Cortex 11-b, são faixas com excelente potencial de pista e donas de uma identidade que representa o direcionamento que o selo terá em seus próprios releases. Mesmo com poucos meses de vida, é possível dizer que o Clash Lion merece um olhar atento, principalmente devido a experiência que seus label managers possui. Daniela Caldellas e Daniel Albinati são artistas consagrados dentro do contexto internacional e Shall Ocin traz consigo a vivência de todo um trabalho desenvolvido junto a Ellum. Logo, fica fácil entender a razão pela qual todo material apresentado até aqui (não somente musical) é bastante coerente.

// Inscreva-se em nossa newsletter

Nesse bate-papo exclusivo sobre o Clash Lion, Daniel Albinati falam sobre o processo de concepção do selo, parceria com Shall, direcionamento da carreira do Digitaria, oportunidade de lançar o Maetrik e mais. Confira na sequência:

1 – Olá, pessoal! Tudo bem? O lançamento da Clash Lion pegou muita gente de surpresa. Como foi o processo de concepção do selo? Qual foi a razão da escolha do nome?

A gente sempre pensou em ter um selo, em diferentes épocas da vida, juntos e separados. Quando começamos a trabalhar juntos em alguns projetos, resolvemos amadurecer um pouco a idéia – era tanta música boa sem lançar que chegava nas nossas mãos que um dia falamos “bem, se ninguém vai lançar isso, nós vamos”. E assim nasceu “oficialmente” o selo.

Sobre o nome, é um anagrama de Shall Ocin. Uma noite fizemos um brainstorm com vários nomes e achamos esse o mais bonito. É forte e direto.

2 – E essa parceria com o Shall Ocin para o quadro societário do selo? Como surgiu? Podemos esperar uma collab entre vocês e ele no futuro?

Somos muito amigos, vivemos em Barcelona e nos encontramos praticamente todos os dias, dentro e fora do estúdio. Ele tem uma vivência e experiências muito diferentes das nossas, mas ao mesmo tempo complementares. É um grande amigo e um excelente produtor. Sobre parcerias, sem dúvida acontecerão no futuro. Na verdade ele é co-autor de uma da faixas do álbum do Digitaria pela Hot Creations, Control. Queríamos algumas collabs no disco e ele foi o primeiro nome que pensamos. Sem dúvida vem mais pela frente, seja com o Digitaria, com o Terr ou com o Daniel Watts.

3 – O Digitaria é um projeto que se desenvolveu dentro e fora do Brasil, mas especialmente nos últimos anos a carreira de vocês está mais focada no exterior, certo? Ao que se deve essa escolha?

Bom, a gente como Digitaria já tinha tido diversos lançamentos, diversas fases… chegou uma hora que achamos que poderíamos buscar novos ares, novos rumos. Foi mais ou menos na época que assinamos com a Hot Creations, fizemos collabs com o Jamie Jones, abrimos pro Hot Natured no Brixton Academy. Era tanta coisa boa acontecendo por lá que pensamos “é agora”. Foi muito bom em termos de contatos, de estrutura, e principalmente para aprendermos como a coisa funciona “de verdade”. É um aprendizado por dia.

Mas nunca ficamos mais que quatro meses sem voltar para tours. Nossas famílias e amigos estão no Brasil, nascemos e crescemos no país, o Digitaria nasceu e cresceu no Brasil. É nosso país.

A imagem pode conter: 3 pessoas, pessoas em pé e atividades ao ar livre

4 – O primeiro EP do label chegou com tudo e acabou com um hiato de 5 anos sem lançamentos do Maetrik. Qual foi o ponto chave que convenceu Maceo Plex a topar esse desafio?

O Nicolas (Shall Ocin) é muito amigo dele. Já trabalharam juntos em muita coisa, já tocaram juntos para todo lado. Nós sempre fomos grandes fãs do Maetrik, e mais tarde do Maceo Plex. É muito legal estar sempre esbarrando com ele por lá, seja vendo ele tocar, ou no estúdio ou simplesmente nos divertindo juntos em algum lugar. Quando ele ficou sabendo que queríamos abrir o selo ele falou que tinha várias músicas ainda não lançadas e que estava pensando em lançar como Maetrik. Formalizamos a proposta, discutimos os detalhes e deu tudo certo. Hoje, menos de uma semana depois do lançamento, as duas faixas estão no top 10 de techno. Não poderíamos ter começado de forma melhor.

5 – Após o EP 001, quais são os próximos lançamentos já programados pelo selo?

Quando começamos queríamos lançar um EP a cada dois meses. Na primeira semana que divulgamos o selo recebemos tanta música boa que decidimos que vamos ter que lançar mais rápido para dar conta de tudo. O próximo EP, que sai em Novembro, é o novo do Shall Ocin, que está maravilhoso. Para Janeiro ainda estamos decidindo, mas o de Março já está fechado e é de uma artista que admiramos muito e ficamos extremamente orgulhosos em podermos lança-la (mas por enquanto é segredo). Essa é a melhor parte de ter um selo, poder trabalhar e lançar gente que faz música boa, artistas de verdade.

6 – Quais estilos e artistas brasileiros estão no radar da gravadora atualmente?

Estamos abertos para artistas de todos o mundo. Curiosamente recebemos mais de 100 demos na semana passada e nenhuma do Brasil. Estamos com o calendário de lançamentos fechado até metade de 2018, mas temos total interesse em ouvir boa música nova, feita com paixão. Quanto ao estilo também somos muito flexíveis. Techno, electro, eletrônica experimental… se a música for realmente boa, é suficiente pra gente.

7 – Hoje em dia, é muito difícil você monetizar uma gravadora independente. Quais são as estratégias adotadas por vocês para não operar no vermelho daqui pra frente?

Boa pergunta. Na verdade, começamos o selo pelo menos motivo que começamos a tocar ou produzir: paixão pela música. Sabemos como as coisas são, sabemos que as pessoas pirateiam música, não esperamos ficar ricos com o selo. Talvez as vendas do vinil (que ainda tem um grande mercado na Europa) cubram os custos do lançamentos, que são muitos: assessoria de imprensa, label manager, designer e mais um monte de coisa. Escolhemos profissionais excelentes para trabalhar conosco, exigimos que o vinil e a capa fossem da melhor qualidade, etc. Se conseguirmos não ter prejuízo, já sentimos que ganhamos o jogo. Se der algum lucro, é consequência do trabalho, mas esse não é o foco.

8 – Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa na vida de vocês?

Bom, hoje eu estou no Brasil, o Nicolas na Argentina e a Daniela na Espanha, os três pelo mesmo motivo: fazendo algo relativo à música. Pra mim a música é provavelmente a coisa mais importante da minha vida. Pouca coisa me dá tanto prazer como descobrir novas estéticas, novas formas de arte, de sonoridade. Aquela sensação de encontrar uma música, um álbum ou um set que te deixa louco e que você escuta no repeat por dias, não tem nada melhor que isso. Nós tivemos muita sorte (além de uma dedicação incondicional e 12 horas de trabalho por dia) de podermos trabalhar com isso e viver disso. No final das contas, a música e a vida se misturam de uma forma tão poderosa que acho impossível de separar e saber o que é o que. Pode parecer brega, mas a música é nossa vida.

A música conecta as pessoas!