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Papo de Estúdio | Como posso abrir e melhorar o arranjo das minhas músicas?

Por Marcelo Oriano

Circulando no meio de produtores e estudantes de música eletrônica, percebi que a dificuldade mais comum é praticamente consenso: abrir o arranjo. Eu mesmo contribuo pra essa estatística e considero o arranjo a parte mais desafiadora dos meus processos criativos. Porém, durante o último ano de trabalho, desenvolvi alguns métodos que vêm se demonstrando muito eficazes e gostaria de compartilha-los com vocês!

A primeira dica, e talvez a mais óbvia, é: estude o arranjo de outras tracks!

Claro que a maioria dos produtores e aspirantes analisa em maior ou menor grau as tracks de seus ídolos, mas você já tentou estudar os arranjos NA PRÁTICA?

Pratique o seguinte exercício:
-Carregue uma track que você admira em um pista de áudio da sua DAW e iguale o BPM com o grid.
-Componha um loop com os mesmos elementos que a track de seu ídolo, porém use outros timbres, notas e patterns.

Na pratica: Se a track que você está usando de referencia tem um arpeggio, coloque um arpeggio do seu jeito! Se tem um pad, faça seu pad… se tem 4 pratos diferentes, crie 4 pratos diferentes!

Agora experimente igualar o seu arranjo com a referência! Observe em qual compasso cada novo elemento entra ou sai, como ele entra (cuttof abrindo? automação de volume?), as principais automações que criam as tensões, os breaks e mini-breaks. Se algo não combinar sinta-se livre pra modificar, mas é provável que a evolução da sua música fique coerente durante o processo. Na imagem, você pode ver o exemplo de estudo de arranjo da track Racidence, do holandês Keith Carnal

Ok! Agora que você já estudou diversas tracks e já conhece algumas das principais formas de evoluir uma música. É hora de criar seus próprios arranjos.

Muitos são os “workflows” que podem levar você a ser eficiente e criativo nesse processo, vou compartilhar com vocês o que vêm dando certo comigo no último ano. Depois de abandonar muitos projetos pelo caminho, observei que eu perdia o entusiasmo pela construção da track nos momentos em que eu passava tempo demais “quebrando a cabeça” pra escolher as entradas e saídas dos elementos. Em especial os breaks.

Fazer música é pra ser um algo divertido, um prazer! Então algo estava errado. Na grande maioria dos tutoriais e vídeo-aulas que eu via pela internet, o artista abre seu arranjo já compondo em detalhes tudo que acontece na track em tempo real. Esse processo simplesmente não vinha funcionando para mim por ser minucioso e estressante.

Refletindo sobre meus maiores sucessos, relembrei que me senti mais estimulado em finalizar as músicas nas quais a progressão me soava óbvia, ou seja: naquelas em que eu de antemão já conseguia sentir onde cada elemento deveria entrar.

E se eu forçasse a progressão a ser óbvia?

Fiz alguns testes e logo percebi que eu me sentia MUITO mais empolgado pra fazer os detalhes, Fx, fillers, transições e automações das músicas se eu já tivesse passado rapidamente pela entediante construção métrica das tracks.

Ver o arranjo quase pronto, já com seus 6 a 8 minutos, e só faltando “detalhes” foi muito estimulante!

Então experimente você também fazer o seguinte processo:

a) Componha seu loop livremente! Se quiser já pode pensar nos Fx também, ou não!

b) Agora, coloque todos os loops no arrangement view e estique todos os que forem menores que 1 compasso pra que fiquem com este tamanho. Isso vai te ajudar a ter uma noção melhor da métrica musical do que se você simplesmente expandisse os loops arrastando. Eu chamo isso de: construir com tijolinhos.

c) “Tijolinhos” prontos, agora é hora de abrir seu arranjo INTEIRO. Nesse momento eu não me preocupo com as transições, entradas, automações, FX… NADA! Apenas decido onde entra e sai cada coisa sem me preocupar. Escolho um tamanho de break baseado no estilo da música e alguns drops.
Não se preocupe se não ficar perfeito. Você pode perfeitamente inserir silêncios ou fazer cortes depois.

Essa etapa exige uma boa capacidade de “abstração musical”, ou seja: você já deve conseguir imaginar as automações que você vai querer, o estilo de drop (cheio ou seco), etc…

Feito isso, eu costumo ter a sensação de que “o pior já passou”! Agora me parece mais tranquilo e prazeroso apenas trabalhar nas automações, FX e fillers pra que todo elemento que entra “de repente” soe interessante e agregado ao conjunto. Além disso, me sinto mais interessado e criativo para desenvolver as micro-tensões quando já sei os pontos em que devo introduzi-las!

d) Meu próximo passo agora, geralmente é “arredondar” as entradas. Alguns elementos entram com automação de volume, outros de cuttof e alguns simplesmente entram de repente – pode ser ao som de algum FX ou virada de bateria também. Os elementos mais marcantes como Leads, Arps e alguns Pads, eu costumo introduzir em mini-breaks! Assim eles ganham a devida atenção.

e) Agora é hora de trabalhar no (por vezes temido) break!

A primeira coisa que decido a respeito dos breaks é se a bateria vai sumindo, ou então se ela some de repente e vai voltando.

DICA: Evite breaks longos 100% sem elementos de bateria. Quando não há elementos rítmicos tocando, a pista de dança fica parada durante o break. Ao passo que mantendo apenas um único prato ou shaker, você já garante que as pessoas dançando continuem pelo menos “se balançando” no BPM da track. Observe!

O segundo passo é decidir como vai ser elaborada a tensão do break. Eu não sou um grande fã de “uplifters” tradicionais, mas aqui pode ser um bom ponto pra colocar um. Costumo optar por subir uma ou duas oitavas de alguns dos elementos ao longo do break (em especial arpeggios e pads, caso existam na track), junto com cuttoffs abrindo e reverbs crescendo.

Por vezes, sinto necessidade de compôr um pad extra especialmente para o break. Experimente! Outra boa ideia é, caso tenha um lead em sua track, testar brincar com algumas notas dele no break, fazendo uma espécie de “chamada”.

Criada a tensão do break, que pode ser crescente (ir ficando mais barulhento) ou decrescente (ir silenciando), é hora de pensar no drop!

DICA: Observe em suas tracks preferidas que muitas delas “tensionam”o break duas vezes, ou seja: elas crescem mas não caem no drop no momento esperado. Então elas crescem novamente uma segunda vez mais rápida, ou ainda permanecem quase em silêncio com poucos elementos para chamar o drop repentinamente.

Caso sinta que precisa inserir um “silêncio” no final de seu break, coloque o cursor no ponto imediatamente antes do drop e vá no menu: Create – Insert Silence (ctrl + I, no Windows).

No exemplo: inseri um lifter e um silêncio. Fiz a bateria “morrendo” ao longo do Break

f) Break feito é hora de pensar as micro-tensões:

Assim como no break, ao longo da track precisamos fazer automações de cuttoff (ou envelopes), reverbs e uma que eu particularmente gosto muito, decays, para criar pequenas tensões que nos ajudam a manter o interesse e tornam mais coerente a entrada/saída dos elementos e mini-breaks.

Eu, particularmente, gosto muito de usar o “tail” de um reverb longo (decay de 6 a 9 segundos) em um Return Channel para deixar um “rastro” na saída de todos os elementos de percussão e também para chamar os mini-breaks

Pequenas aberturas e retornos de cuttoff e decay (em especial de pratos e shakers) tornam interessantes os espaços sem kick e tensionam a entrada de novos elementos

DICA: Em alguns casos, em especial os que antecedem os “silêncios”, pode ser interessante usar delay no lugar de reverbs.

A última forma que também gosto de usar para “tensionar” as transições, são os fillers de bateria. Eles podem ser feitos com delays em elementos já existentes, mas eu prefiro desenhá-los ao meu gosto no “piano roll”

No exemplo:
– No canal “offbeat” fiz uma “virada” de shaker no final dos compassos (marcado em roxo)
– No canal engrenagens, joguei o send pra um delay no final de certos compassos
– Criei um canal com fillers de clap

g) Estamos quase! Eu deixo para o final os FX.

Com 2 ou 3 synths carregados com um preset de FX já escolhido, dou play na track e vou tocando algumas notas dentro da escala “aqui e ali”. Toda vez que uma encaixa legal, eu aperto na função “Capture Midi” (o quadradinho nos controles de gravação) e assim vou preenchendo os momentos adequados!

Arranjo pronto! Escute sua track inteira e certifique-se dos detalhes!

Tocar live!

Pode parecer óbvio, mas uma das formas que tenho achado mais interessantes de abrir o arranjo de minhas música é simplesmente mapear a minha APC40 e tocar os loops no estilo “jam session”. Após tocar por alguns minutos, apenas faço recortes e automações necessárias pra aperfeiçoar a coerência e acrescendo fillers se necessário.

Experimente!

A MÚSICA CONECTA.


Equipe de reação do portal Alataj, focada em levar conteúdo cultural ao público antenado na música eletrônica.

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