Quando a inspiração vem de casa, fica muito mais fácil deixar a criatividade florescer. Esse é o caso de Juan Rodrigues, um artista que cumpriu papel fundamental para o crescimento e popularização da música eletrônica no Rio Grande do Sul. Filho de pai publicitário e mãe professora de comunicação social, Juan cresceu em uma casa que sempre ofereceu forte estímulo a criatividade.

Já na década de 90 ele organizava algumas festas caseiras com seu irmão Franco Rodrigues (fotógrafo). Nesses eventos, mesmo sem saber – e sem gostar muito – ele já fazia o papel de um DJ. Essa relação com a música se intensificou mesmo depois de uma viagem da família a São Paulo. Lá ele e seu irmão ganharam o direito de escolher um presente para cada na Livraria Saraiva. Juan escolheu um CD da Mixmag, compilado por Richie Hawtin (um chute certeiro) e seu irmão o ajudou com uma escolha muito importante: uma fita vídeo cassete do DJ Iraí Campos que ensinava a mixar.

Depois de infinitas horas explorando esses dois materiais, Juan teve seu primeiro contato com a cena raver no final da década de 90. Em 2001 ele fez um curso intensivo de DJs em Porto Alegre com Fabrício Peçanha. Era o começo de uma história de muita dedicação a música.

Não demorou muito para que Juan Rodrigues se envolvesse de fato com a cena local. Em parceria com Cézar Aru (produtor de eventos) ele começou a organizar alguns eventos em um bar alternativo chamado S.A. Depois de algum tempo nasceu a Sonora Creative Music (primeira produtora do Juan), a Nitro e a Flash que eram espécies de raves em lugares inusitados.

Antes de conhecer Roberto Hotto – personagem fundamental dessa história – Juan tocou algumas noites no La Lunna, um club que tinha pista para mil pessoas mas que teve um fim muito precoce na cidade. Com Hotto, Juan desenvolveu o “After da Casa Branca”. A festa bombou e começou a incomodar os vizinhos. Com a chegada do sócio Luciano Castanho, uma evolução para a casa, veio o sistema D.A.S (o mesmo utilizado pela D-EDGE). O club se profissionalizou e ficou com uma estrutura de ponta. Em meados de 2002, 2003 eles já organizam paralelamente ao club edições da Flash em galpões abandonados e cinemas desativados. A cena começava a dar os primeiros passos de fato.

Três anos depois do nascimento e sucesso do Casa Branca veio um convite importante para que Juan se tornasse residente e curador de um novo projeto em Carazinho, cidade vizinha a Passo Fundo. Nessa época ele já contava com o apoio de seu irmão, que havia criado uma revista sobre tendências onde nela falava sobre música eletrônica e outros assuntos culturais.

O projeto em Carazinho foi idealizado pela família De Carli e batizado de Skytronic. Ele recebeu o mesmo cuidado e planejamento dos eventos em Passo Fundo. Novamente a festa não demorou para se tornar um sucesso. Algumas edições da Sky tiveram público de mais de 3 mil pessoas. O sucesso era tamanho que as festas de Carazinho vendiam cerca de 500 ingressos antecipados em Passo Fundo. O rolé estava caindo no gosto da galera, virando febre entre os jovens e notícia entre os mais entendidos.

Com o reposicionamento da Rádio Atlântida a Passo Fundo, Juan voltou a dar atenção para cena da cidade, que havia esfriado um pouco. Junto com Tiago Trevisol ele desenvolveu o “Drops Okay”, que eram pequenas inserções no meio da programação da rádio falando sobre a cultura eletrônica em geral. A aceitação da galera foi grande e a Atlântida ofereceu um espaço para programa na emissora, nascia assim o START. Paralelamente ao programa veio o StartMix, que marcou a retomada dos eventos da equipe de Juan Rodrigues a Passo Fundo.

Um pouco depois desse renascimento, em meados de 2006, o empresário Paulo de Tarso procurou Juan o informou sobre um local alugado com 4 meses de contrato. Ele propôs eventos mensais por lá para garantir o valor do aluguel no período restante. Foi dessa forma que nasceu uma das marcas mais expoentes do Brasil, a Beehive. As edições da Beehive foram sinistras e ao final do ano, Paulo procurou Juan para uma renovação do vínculo. Era hora da colméia se tornar um club, de verdade.

Depois de algumas reformulações no quadro societário com o passar dos anos, Paulo voltou ao negócio em 2011 com o investimento da Hija (filha em espanhol, co-relacionando o nome à filha da Beehive). Até 2013, Juan dedicou gigantesca parte de seu tempo para o crescimento consolidação da colméia como um dos clubs referências do Brasil. Passo Fundo estava de fato na rota dos principais artistas do globo. Pós Beehive, vieram alguns eventos em parceria com Fran Bortolossi na Colours, festa itinerante do Rio Grande do Sul.

Toda essa história enfrentou uma série de dificuldades e preconceitos na época. Homens não dançavam, as pessoas não tinham acesso a tendências e todo conceito é mais difícil de se consolidar no interior do que nos grandes centros. Juan não foi um dono de festa que virou DJ, mas sim um artista que conseguiu emplacar novidades junto a um público que o acompanhava e acreditava na proposta dos eventos.

Como DJ ele fez parte da extinta Sold Out, agência que tinha Rodrigo Moita na comando (atualmenta na Entourage) e Diego Moita e Gabi Lorensatto (atualmente na Plus Talent) nos bookings. De 2008 a 2012 Juan esteve na Plus Talent. De lá pra cá ele faz parte do seleto time da artistas da D AGENCY, comandada por Renato Ratier.

Importante lembrar que logo aos 17 anos Juan deu sua primeira palestra em Colégio. De 2006 a 2013 tocava nos intervalos com o projeto Intervalo Atlântida, que levava música eletrônica aos jovens da cidade.

“Hoje as festas funcionam com mais facilidade. A música eletrônica já é um gênero comum como os outros. Embora seja mais presente e intensa na vida de algumas pessoas, para muitas outras, é mais uma opção de entretenimento.”

O que Juan Rodrigues fez em cidades como Passo Fundo e Carazinho foi um trabalho verdadeiro e de base, acima de interesses pessoais. Os projetos contribuíram para o nascimento de uma unificação de tribos no interior, que se reunia pela música e não por status ou outros motivos. Esse foi o maior legado dessa época. O público passou a frequentar ambientes em que as diferenças eram respeitadas e a música ocupava papel de protagonista.

Não há forma melhor de terminar de contar essa jornada do que deixar Juan Rodrigues no comando.

“Me sinto honrado e sempre é legal dividir isso e espero que possa incentivar outras pessoas de outros lugares. Todas essas pessoas que fiz questão de citar os nomes, foram grandes heróis nessa história. Existe um respeito muito forte por tudo que vivemos e construímos juntos, antes de qualquer coisa. Sem respeito não há essência. Sem essência não haverá história e sensibilidade para admirar a mesma.”