Cada vez mais os DJs da nova geração do Rio Grande do Sul tem conquistado um lugar de destaque no cenário nacional. Além de uma ótima entrega artística, eles também estão preocupados em projetar a cena do estado para um next level, através de ações diversas. Mau Maioli por exemplo, é um dos criadores da Beat on Me, festa que tem como casa o Muinho, club que Mau também está diretamente envolvido.

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Os highlights de Mau não param por aí. Se engana quem pensa que com tantos compromissos, dentro e fora dos palcos, falta tempo para o estúdio. A produção musical tem sido um dos principais focos da carreira desse jovem artista e desde o ano passado ele tem colhido alguns frutos importantes. Parallax, seu EP de estreia pela Prisma Techno, alcançou um considerável destaque no Beatport e mostrou ao mundo a faceta que Mau pretende seguir no estúdio. Esse ano novos lançamentos devem ganhar a luz do dia. The Force of Will, por exemplo, foi lançado semana passada pela Egotherm e conta com 3 faixas originais que dão o start de 2018 com bastante otimismo para Maioli.

Às vésperas de um pequeno período de férias e contato com a natureza, Mau encontrou uma brechaa para responder as perguntas do Alataj sobre o atual momento de sua carreira. De quebra, selecionou 52 (!!!) músicas para o nosso primeiro Alataj Invites de 2018. Confira:

1 – Olá, Mau! Tudo bem? 2017 representou um ano de bastante crescimento pra você. Quais foram os principais ensinamentos captados e em quais pontos você está visando evoluir esse ano?

Olá, primeiramente muito obrigado pelo espaço e pelo convite! 2017 Foi o ano que amadureci musicalmente, que tracei um real plano para os próximos 5 anos, que pude conhecer mais cidades, mais estados, que viajei mais, que senti na pele a vida de viagens semanais, misturadas com horas de estúdio e também com faculdade, e sinceramente eu amei isso. Estar conectado com as pessoas, criar novas amizades, abrir a cabeça para a diversidade, ter essa percepção que cada lugar sempre vai ter sua peculiaridade e conseguir extrair o aprendizado de cada noite/dia, é sem dúvidas um grande desafio – foi um ano de muito amadurecimento profissional e pessoal. Percebi que mesmo me dedicando quase que inteiramente a pesquisa musical e produção, posso dedicar mais tempo para isso (a faculdade ainda tira um pouco do meu tempo, mas está no fim). Respiro música diariamente, mas sei que posso me esforçar ainda mais. A pretensão é de estudar mais mixagem e formas de criação. Cada jam session que tenho com amigos, ou até colaborações que faço via Splice, são formas de aprendizado que me fazem criar de jeitos diferentes e isso é realmente inspirador, pois eu vejo o mundo infinito que podemos fazer na música.

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2 – Seu EP pela Prisma Techno alcançou ótimos resultados ano passado. É possível dizer que aquela linha sonora é a que te representa mais fielmente suas preferências no estúdio?

Então o EP da Prisma resultou uma posição inesperada no Beatport (TOP #48 no gênero de Techno) e ainda esse ano está tendo um ótimo feedback! Em relação a linha de sonora do EP, eu posso dizer que ele aconteceu exatamente nessa minha fase de amadurecimento. A Parallax tende a ser uma música um pouco mais experimental, onde utilizei vozes “esticadas” no paulstretch pra dar novas sensações durante a música e usei e abusei da variação de tons junto com o kick (procurando novas formas de criar groove na música). Já a Binocular Vision é uma das músicas que tendem a ser mais melódicas mas que, ainda assim acabam traduzindo no que produzo hoje. Esse EP foi o marco onde eu disse para mim mesmo que lançaria apenas o que eu realmente gostasse e que não tornaria minha música descartável – passei por um processo de pressão interna, tentando entender se eu deveria lançar musicas com mais frequência ou deveria lançar o que realmente gostava.

3 – Percebo que, pouco a pouco, os DJs gaúchos da nova geração estão conquistando seu espaço no cenário nacional. Na sua visão, o que pode ser feito para acelerar esse processo?

Ao meu ver existem DJs/produtores, tanto da nova geração como os que criaram boa parte dessa cultura no RS, que já alcançaram projeção internacional (Fran Bortolossi e Sonic Future como exemplos), mas eu percebo ao mesmo tempo que no caso de alguns a projeção nacional já está acontecendo e pela troca de informação quem está se destacando aqui no estado acaba criando suas próprias oportunidades. Vejo isso como um processo orgânico e que deve ser respeitado, pois eu mesmo vivi isso e percebi que meu crescimento vem acontecendo e as oportunidades aparecem conforme o tempo. As vezes o que sinto falta é de maior comunicação entre os diferentes núcleos dentro do próprio Rio Grande do Sul (afinal em todas partes do estado existe algum movimento de música eletrônica underground acontecendo), essa seria uma maneira de primeiramente os artistas daqui se valorizarem mais e gradativamente se apresentarem em mais lugares do Brasil.

4 – Planos, gigs, lançamentos… o que podemos esperar do Mau Maioli para 2018?

Para este ano tenho 8 gigs programadas nos próximos 2 meses, sendo que algumas delas fazem parte da nova etapa da Beat On Me que sairá do seu local de origem (Muinho Club) e tem a pretensão de viajar o Brasil inteiro. Em relação ao Muinho, teremos menos noites no club, mas com mais tempo para planejar cada uma, onde já temos um line up para o aniversário da Beat On Me (Maio) e já estamos pensando no aniversário do Muinho (em Agosto) que serão as principais datas do ano. Falando um pouco sobre lançamentos, no último dia 11 de janeiro tive meu primeiro EP do ano pela Egothermia Records de Amsterdam, com três músicas originais. Aém desse EP, tem um que eu estou muito ansioso e dando os ajustes finais que sai em meados de Abril pela Urban Soul com 4 músicas originais minhas mais alguns remixers, e além disso tem uma track em parceria com o VÂntonio que resultara em um outro EP com mais uma interpretação minha e dele. Para finalizar os lançamentos e trabalhos já engatilhados, tenho mais duas músicas pela nova gravadora do Fran Bortolossi, a Disc Wars.

5 – Em algumas gigs seus sets são mais direcionados para a house music, certo? Você se sente confortável discotecando fora do techno? Ser reconhecido apenas por um estilo musical está fora de suas prioridades?

Então, meus DJ sets tendem a ser 90% de techno e os outros 10% de breakbeat, house (gosto de experimentar diferentes sons durante o set). Porém em algumas ocasiões (por exemplo no Minifestival da Levels) eu me senti a vontade e queria criar uma nova história. Nesse set em especial acabei começando a primeira hora de techno e fui intercalando com breakbeat até chegar em house e passar por disco. Ao meu ver como DJ, já que temos essa liberdade, podemos fazer o que nos sentimos bem durante a nossa apresentação. Porém é claro que com o amadurecimento das minhas produções, com mais releases e com o tempo eu vou criar meu próprio estilo que vai tender a ser um set quase que de sua totalidade techno.

6 – Sabemos que você também possui um relacionamento bem legal com a fotografia e design gráfico. Mas, especificamente a paixão pela música eletrônica, como ela despertou? Foi através de um amigo, uma viagem, um filme? Conta pra gente!

Sim, a imagem em si sempre foi muito presente e de certa forma me inspira a criar, mas falando sobre a música eletrônica surgiu através de eventos da escola. Os alunos eram delegados a fazer determinadas funções em um evento de teatro e eu era aquele aluno introvertido, que JAMAIS aparecia em um palco interpretando algum personagem. Então eu comecei a cuidar da trilha sonora desse evento e desde então comecei a pesquisar mais música. Nessa mesma época, através do Orkut conheci o Cris D (que é com ele que tenho meu projeto Geekbass e criei a Beat On Me) e foi com ele que aprendi a tocar com um par de CDJ 200. O Cris me passou uma rede social super inovadora, “feita para djs” chamada Soundcloud (sim na época eu achei algo de outro mundo) onde ouvi minha primeira música eletrônica underground: Pleasurekraft – Tarantula. Desde então minha pesquisa voltada a música eletrônica aumentou, comecei ouvindo/tocando Eletro House (na fase do Deadmau5) e lembro de ouvir muito Daft Punk. Aos poucos fui conhecendo principalmente deep house, que era o que rolava aqui na região, e acabei tendo primeiro contato dessa maneira.

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7 – Referências relacionadas a natureza e as relações humanas são parte do seu processo criativo? De que forma isso faz sentido pra você?

Sobre a natureza eu sempre procuro observar os ruídos que ela nos traz. Animais, plantas, chuva, vento. As vezes “bato a cabeça”, pego o gravador e tento extrair algum ruído dando uma volta pela cidade. Já a relação humana tem sido uma forma até de homenagem as pessoas que eu tenho um grande carinho. Sou uma pessoa um tanto quanto tímida e a música é uma válvula de escape pra poder me expressar e eternizar alguns sentimentos que acabo tendo em determinados momentos. Normalmente esses sentimentos são relacionados as pessoas que acabam de uma forma boa ou ruim me inspirando.

8 – Quão importante tem sido o Muinho na sua formação como um profissional da música eletrônica?

O Muinho foi o segundo club ao qual fui residente. Minha primeira residência foi em 2013/2014 no Elvis Café que era um bar/club, onde criei minha primeira festa, chamada Hi Friend (também junto com o Cris D). Lá tive um grande aprendizado, que logo aos meus 16 anos me esclareceu bastante a ideia de como funcionava a noite. O Muinho acabou vindo com um convite em 2015 para participar do club e logo após as ideias começaram a surgir. A Beat On Me nasceu e com ela os principais artistas do Brasil acabaram passando por aqui. Estar dentro de todo processo de criar uma noite, me mostrou que administrar um club, é uma das tarefas mais difíceis aqui no Brasil. Quem não trabalha com isso, talvez não faça ideia de quão difícil é fazer uma festa e o Muinho acabou me abrindo os olhos para ter esse amadurecimento. Além dessas questões, o Gustavo e a Natália sempre foram abertos as ideias novas e sempre nos motivaram a trazer o novo para Farroupilha. Isso me inspirou não só a buscar novos artistas, mas pra mim como DJ buscar o novo. Sou muito grato em poder fazer parte desse club.

9 – Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

A música sempre esteve presente na minha vida, desde pequeno, mas de uma forma indireta. Ela completava os momentos especiais e agora faz parte 100% da minha vida. Ela é minha válvula de escape para liberar as boas e as más energias. Graças a isso eu já conheci MUITOS lugares, já fiz muitos amigos, já tive casos de amor, já dei muita risada e guardo muitas histórias.

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A música conecta as pessoas!