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O amor dos entusiastas pela cultura do vinil tem feito o mercado crescer no mundo todo

Texto originalmente publicado no Anuário RMC (agora BRMC) 2017
No dia 3 de Janeiro do ano passado, uma matéria na capa do G1 informava que as vendas de discos em vinil haviam batido a sua melhor marca em 25 anos. Até mesmo dentro de uma plataforma voltada para assuntos gerais foi possível observar a empolgação da redação com os dados. O título trazia a palavra ressurreição e informações como o protagonismo de David Bowie nas vendas do Reino Unido, que ultrapassaram a barreira das três milhões de cópias em 2016, um número que representou crescimento de 53% quando comparado ao ano anterior.
Tem mais! Estudos revelados pela International Federation of the Phonographic Industry informam que realmente o número de pessoas consumindo música nos meios digitais é maior, mas a receita obtida através das vendas em vinil são superiores em relação as obtidas em plataformas mundiais como o YouTube. Nos Estados Unidos, por exemplo, os discos renderam US$ 416 milhões, enquanto o streaming fechou em US$ 385 milhões. Além disso, as lojas de discos estão se multiplicando por toda a Europa e a valorização de DJs que discotecam em turntables tem crescido junto ao público nos últimos anos.
A cultura do vinil teve seu start em 1948, após um lançamento da Columbia Records, mas o auge de popularidade da mídia foi na década de 90, quando todos os principais artistas do mundo lançavam seus trabalhos em LPs disputadíssimos. Com o crescimento quase que desenfreado das novas mídias, muita gente apostou que os discos virariam peças de museu. Mas de fato, isso está longe de acontecer e muito disso por conta da música eletrônica e seus representantes.

Se hoje alguns dos principais artistas do mundo são reconhecidos por conta de uma pesquisa musical apurada, principalmente no que diz respeito a discos, o público também tem sua parcela de responsabilidade nessa valorização. Além de exigir uma técnica mais avançada, a discotecagem no vinil é capaz de oferecer algumas pérolas exclusivas para o dance floor. Gravadoras conceituadas da dance music global lançam somente no formato dos LPs e raridades de produtores talentosos, mas não tão conhecidos, estão escondidas em record shops de cidades como Berlim, Amsterdam, Londres e São Paulo.

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No Brasil, a busca das gravadoras nacionais por lançamentos em vinil é cada vez mais representativa. Labels renomados como Playperview, Not For Us e Allnite Music já colocaram suas bolachas no mercado, comprovando que o bom momento não é exclusividade dos gringos, tem interesse verdadeiro dos brasileiros na jogada também. O país é o único da América do Sul com uma fábrica de grande tiragem – a Polysom. Ainda assim, há muito o que fazer para que a produção e tiragem se tornem mais acessíveis.

Além de todo aspecto cultural e histórico, o crescimento da cultura do vinil também possui um apelo diferente por se tratar de uma mídia física, que pode ser tocada, colecionada e guardada com muito carinho. Selecionamos quatro DJs brasileiros conhecidos por seus sets em vinil para falar um pouco sobre as particularidades do relacionamento de cada um com a mídia. De quebra, eles indicaram seus 5 discos preferidos. Papel e caneta na mão que vem dica das boas por aí:

Kaká Franco

Minha relação com o vinil é como qualquer outra que seja longa e duradoura, vou explicar melhor: uma relação permanente é aquela que possui afeto, ódio, admiração, prestígio, confiança e muitas vezes ela se torna única pois tem suas peculiaridades e música que só será encontrada desta forma para ser tocada. Detalhando mais, afeto por eles, é o cuidado que os tenho em guarda-los, lavá-los e manuseá-los. Ódio é quando algumas versões raras, ou algum lançamento de meu interesse está próximo do sold out nas lojas e ai me pego com raiva pelo rombo financeiro que me causam ou também quando eles fazem a agulha dar um pulinho no meio de uma mixagem. Admiração é a qualidade sonora e musical que encontro nessa mídia, prestígio de ter “aquele” vinil muito quisto ou até raro em minha coleção. Confiança é por me garantir a fidelidade de anos, discos de 30 anos atrás ainda me garantem sobrevivência e me dão a certeza de estar investindo na longevidade da minha carreira musical e contribuindo com a cadeia industrial da música eletrônica. E a palavra única define-se por si só por conta de lançamentos desejados na categoria “vinyl only release” onde a única forma de poder tocar em um set essa faixa é adquirindo este disco. Meu ranking é este apesar da dificuldade que é escolher apenas cinco dentre tantos da minha coleção, mas vamos lá:

Giorgio Moroder – Chase

The K-Scope Project Part 2

Classic Man – No Mind Games

Rhythm Controll ‎– My House

Roger S. – Get hi

Ale Reis

Minha relaçãoo com o vinil é a de um antigo e eterno amor. Comecei tocando com discos nos anos 80, vi surgirem as diversas mídias digitais, mas nada me encanta e me empolga mais do que colecionar e tocar vinil. O sagrado momento da pesquisa e a descoberta de novos discos e labels. As idas infinitas as records shops. O digging. O design das capas. O cheiro. O contato físico. Tudo isso faz com que eu ainda sinta prazer em ser DJ e tocar. Falo com certeza, se não fosse o vinil, já teria parado de tocar e estaria apenas produzindo. Difícil escolher apenas 5 discos, mas segue a lista de alguns dos que tenho muito carinho :

Basic Channel – Quadrant Dub

Herbert – See You on Monday

Moodymann – Black Mahogany

Pepe Bradock – Burnin

Ron Trent & Chez Damier – Morning Factory

Tati Pimont

Aprendi a tocar com CDJ e toquei um bom tempo apenas com essa mídia. Sempre admirei o analógico, dos discos as fotos e toda magia que isso me proporcionava. No final de 2012 comecei a me apresentar com vinil timecode + traktor para estar mais próxima do vinil, até que resolvi vender tudo e investir nos meus primeiros discos analógicos, já que muito da minha pesquisa da época estava me levando para gravadoras que lançavam apenas em vinil. Depois que fiz a primeira compra, não parei mais e até hoje me dedico a essa pesquisa, junto com as digitais. Mesmo devagar e com as dificuldades de conseguir manter esse amor morando no Brasil, vale a pena quando a agulha encosta no disco ou abre um pacote e sente o cheiro do vinil. Ainda estou em uma eterna evolução pois mixar nas turntables é bem diferente, mas com certeza vale o esforço e os anos de evolução. Hoje me dedico ao digital e analógico e é assim meu jeito favorito de tocar. Deixo para comprar os discos que lançam apenas em disco e as digitais que lançam nesse formato. Assim tenho 100% de liberdade da construção do set e qual faixa tocar, independente se está no pendrive ou no case.

Ricardo Villalobos – Achso

Margert Dygas – Invisible Circles

Binh – Ship Of Imagination Album

Ricardo Villalobos – 808 The Bassqueen

Steve O’Sullivan – Bluetrain Retrospective

Allen Rosa

Comecei a comprar discos de vinil pela internet por volta de 1998, uma das primeiras aquisições foi o Innerground 001, primeiro disco do selo do DJ Marky. A relação que tenho com os discos desde essa época é de uma paixão indescritível e em alguns momentos até incondicional. Já teve momentos que abri mão de coisas básicas pra poder comprar discos. O processo de adquirir um vinil cria um laço muito forte entre o DJ e a música. Onde  se dedica outro tempo, esforço e atenção a pesquisa, seleção e compra. Tendo a música nesse formato físico acabo tendo mais intimidade com o case e tenho mais facilidade pra me organizar e encontrar o que preciso encaixar no set. Também gosto da dinâmica simples que ele proporciona, me sinto mais livre ao usar apenas o toque da agulha e das mãos. Aqui estão os meus preferidos:

Cyantific – Ghetto Blaster (Sparfunk)

Hideto Omura – Love Like This

VA – The Roundup Part 2

Frits Wentink – Rising Sun, Falling Coconut

Dub Phizix And Strategy – Buffalo Charge

A MÚSICA CONECTA


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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