Me lembro como se fosse hoje, um dos primeiros dias de aula na faculdade, eu estava motivado com a possibilidade de conhecer gente nova e aprender sobre um assunto que eu tinha escolhido com bastante certeza que estava no caminho certo. Quando a professora passava a lista de livros do semestre, eu anotava os nomes para ver qual deles a biblioteca teria disponível. Então, que no slide seguinte uma frase caiu como uma bomba na sala de aula: “Esqueçam tudo isso, o que vocês precisam de verdade é um bom QI”, na sequência outro slide: “Quem indica”.

Tudo bem, aquilo certamente foi um momento de descontração da professora com seus novos calouros, mas passados 4 anos da minha entrada na universidade, eu me encontro realmente assustado pela razão que aquela frase tem feito tanto sentido. O que chamamos de network é algo que existe a muito mais tempo que o termo utilizado. Afinal, manter bons relacionamentos e conhecer pessoas influentes provavelmente nunca destruiu a carreira de ninguém, pelo contrário. Acontece, que estamos vivendo uma era de “troca de favores” e isso é bem nítido em alguns line ups de festas e festivais. Esse processo tem sacrificado a carreira de muita gente talentosa, que não conhece label managers ou curadores de bons clubs. O resultado é uma cena que não se renova e que revela poucos bons artistas a cada ano.

É reconhecida a importância de uma boa agência na carreira de um DJ ou produtor. Mas em um momento em que as pessoas se importam tanto com números, parece que 20 mil fãs no Facebook estão valendo mais que um EP com 4 faixas originais de excelente qualidade. Muitos amigos me relatam que ao mandarem demos para labels grandes as respostas chegam da seguinte forma: “Gostamos do seu trabalho, você tem muito talento e as faixas estão muito bem construídas, mas analisamos suas redes sociais e tememos que esse trabalho não tenha uma força de mídia que consideramos indispensável”. Revoltante, claro. Não posso dizer que estamos fazendo tudo errado, mas é um claro sinal que parte do mercado trabalha em uma zona terrível de conforto. Trocando favores e convidando os velhos amigos para compor o line up, tudo para daqui a 2 meses ter uma gig confirmada como moeda de troca.

O momento é propício para investir e apostar em novos talentos. Bookar artistas gringos está mais difícil por conta da alta do dólar e os avanços tecnológicos dos últimos anos possibilitaram o acesso as ferramentas de produção para muita gente inteligente. Quem sabe se olharmos mais as nossas caixas de e-mail e tivermos um pouco mais de coragem, não poderão surgir novos Gui Borattos, Mau Maus e Renato Cohens pelos quatro cantos do Brasil. Se até o Facebook reconhece a insignificância do numero exato de fãs de uma página, por que ainda nos importamos tanto com isso?

Texto originalmente publicado na edição 41 da House Mag.