Gabi Lima completa em 2015. 13 anos de carreira. São horas diárias dedicadas a boa música e ao crescimento da cena. Atualmente a artista é residente da Field Club em Papanduva e encabeça a festa itinerante Hot Legs Party, além de fazer parte de outros projetos como a moove. Fomos conversar com ela para conhecer um pouco mais sobre suas origens e influências e entender o que o atual momento de sua carreira significa. De quebra ela gravou um set muito especial para o Alaplay Podcast.

1 – Oi Gabi, muito obrigado por falar conosco. Esse ano você completa 13 anos de carreira. Como era seu som quando você começou em termos de estilo e como você o define agora?

Olá ! É um prazer colaborar com o conteúdo do Alataj.

Antes de começar a tocar, ouve primeiramente a descoberta. Eu já tinha passado pelo meu momento com o House, com o Techno, e com o Drum and Bass, até chegar ao Progressive House e Trance. A partir dai, comecei a me dedicar e inicialmente me encontrei no Progressive. Atualmente, amo ouvir e tocar as sonoridades mais sofisticadas do House, mas também me aprofundar na atmosfera vibrante do techno. Faz alguns anos que meus sets transitam entre as vertentes do dois estilos, e acho incrível ter essa liberdade.

2 – Em sua bio você cita a importância de festas como Lov.e e Skol Beats ambos em São Paulo, quando você começou a frequentar festas eletrônicas. No decorrer da sua carreira, qual foi a importância dos clubs no seu amadurecimento artístico?

Frequento clubs há 19 anos, e para mim uma boa noite em uma pista de dança, se transforma em uma grande experiência, tanto para o artista, quanto para o público. Vejo que a estrutura de um club facilita o contato visual com o artista e sua performance e foi assim, observando, trocando informação com outras pessoas e depois colocando-as em prática que aprendi muita coisa. Além disso, alguns dos momentos mais felizes e importantes da minha vida, foram vividos na pista de um club. Sem dúvida, boa parte do meu conhecimento e amadurecimento musical se deve a essas experiências.

3 – Ao longo desses 13 anos você estabeleceu importantes residências em clubs e coletivos. Como tem sido pra você participar desses projetos?

Na Field, na Moove, e na Brotherhood estou literalmente em casa e ao lado de pessoas que acreditam e confiam no meu trabalho. Na Field sou residente há 5 anos, fui a primeira DJ convidada do Club, e desde lá a sintonia com o público, a amizade e a parceria com o Ary, com sua equipe e os demais residentes só cresce e se fortalece. Somos um time que veste a camisa e não medimos esforços para somar idéias e apoio ao club. Na Moove, participo do coletivo há 3 anos, onde já estive me apresentando ao lado de nomes como: Hot Since 88, Audiojack, The Mekanism, Doctor Dru, Adana Twins, Claptone, Tom Budden, Monte e Maxxi Soundsystem. Além disso, nosso grupo é formado por DJs com os mesmos interesses musicais, artistas que estão em constante evolução, trabalhando em prol de fomentar as sonoridades mais sofisticadas da música eletrônica, buscando compartilhar nossos ideais com o público interessado a conhecer o que foge ao convencional. Na Brotherhood, ao lado da Nana Torres e Ricardo Estrella há 1 ano participo das edições que acontecem em um dos clubs mais conceituais do país, o Fosfobox no Rio De Janeiro. Fico extremamente feliz em poder fazer parte do sonho de cada um deles, e somar o meu sonho e meu trabalho ao deles também.

4 – Você já se apresentou em importantes clubs da Europa. Entre eles o Tresor em Berlin e Baalsal em Hamburgo. Consegue identificar a principal diferença entre o público de lá e o daqui?

Entendo que a bagagem cultural é o que define e diferência os públicos. Na Europa, a música eletrônica é presente na vida das pessoas desde os anos 80, existem grandes ídolos em sua história, que também são referência para contar a história da música eletrônica por todo o mundo. Desde os tempos de New Order, Depeche Mode, Alphaville, Information Society, A-Ha, Pet Shop Boys e Erasure até os ídolos atuais, os Europeus tem música de qualidade, com preços extremamente menores que os nossos, para assistir DJs sets e lives dos seus artistas favoritos, e em primeira mão. Por outro lado, nossa cena e nosso público é muito mais recente, e a grande fatia desse público de massa absorve o que é de mais facíl entendimento. O brasileiro é feliz, alegre, tem uma energia única, mas no geral é preso a rótulos e é por vezes mais imaturo musicalmente falando em relação ao Europeu, que por sua vez, se entrega a música e vai para a pista aberto a ouvir e sentir o que o artista tem para expressar. Sinto que para os artistas de lá, não existe essa pressão de ter que se adaptar a cada público ou região. Mas, graças ao desenvolvimento das mídias sociais, e da profissionalização da cena aqui no Brasil, finalmente de alguns anos pra cá, a pesquisa está deixando de ser prática de DJs, jornalistas, produtores e profissionais envolvidos com o mercado, para ser prática também de espectadores apaixonados pelo nosso universo da música.

5 – Você encabeça a Hot Legs, uma das principais festas itinerantes do Brasil. Como surgiu a label e quais as principais dificuldades que você tem enfrentado ao longo dessa caminhada?

A Hot Legs surgiu de um sonho de longa data, onde eu tinha muita vontade de criar um evento que conseguisse se comunicar principalmente com o público feminino, explorando a arte através da música de vanguarda, de forma criativa. Eu queria encontrar o equilíbrio e interagir tanto com o público assíduo da cena, quanto com os novos adeptos também. Queria encontrar uma nova forma de apresentar tudo aquilo que me representava, e que fugisse dos moldes tradicionais das festas e clubs que vinham acontecendo, onde a comunicação com o público começava e terminava em um padrão engessado de divulgação, que muitas vezes se praticava apenas através da apresentação do flyer. Vi muita festa parecida, com mais do mesmo, nos mesmos lugares, com o mesmo formato e aos poucos, com cada vez menos resultado. E tudo isso, foi aumentando ainda mais minha vontade de colocar em prática todas as idéias que foram surgindo e ressurgindo. Quando eu comecei a frequentar festas e clubs, tais investiam em decoração, chill out, apresentações artísticas (perna de pau, malabares, dança, pintura) e era muito legal, porque cada evento era realmente uma experiência diferente e todos ficavam esperando para viver aquilo novamente. Por um período, os eventos ficaram muito padronizados, estruturas de ferro, painéis de led, enfim, parecia que faltava um toque de carinho, e eu comecei a perceber que o público sentia isso também. E falando dos clubs, o padrão caixa preta, também foi se tornando monótono, principalmente para o público mais antigo da cena. E eu achei que poderia explorar e criar uma ligação muito maior com as pessoas e com seus momentos de lazer, sem deixar de lado o carro chefe de uma boa festa, que é a música. Lendo um livro, encontrei uma definição muito legal sobre tudo isso que eu pensava, que diz assim: quando ouvimos apenas informação, nossa lembrança total é de 10% quando verificada 72 horas mais tarde. Mas acrescentando uma imagem, esse número dispara a 65%. Quando se trata de motivar a nós mesmos ou outras pessoas para realizar grandes acontecimentos, quem tem as melhores imagens vence. (Do livro – Metas que desafiam, a ciência dos feitos extraordinários).

Achar o equilíbrio sobre tudo isso, sem que virasse uma bagunça, sem identidade e sem conceito, não foi tarefa fácil. Como em qualquer começo, faltou verba, apoio e experiência para tomar algumas decisões. E foi edição a edição que conseguimos achar o ponto de equilíbrio para desenvolver nossas idéias e a melhor receita, e a cada nova festa a resposta do público a esse novo formato foi aparecendo, fazendo com que a Hot Legs se desenvolvesse sozinha, sem depender de um espaço específico para isso. Vejo que, apesar de todas as dificuldades, o que resultou na Hot Legs de hoje, foi a soma de interesse, dedicação e criatividade que existe entre as pessoas que trabalham pra festa acontecer, e isso é o bem mais valioso que temos.

6 – Atualmente você está no casting da Hypno e mantém a residência ativa na Field Club. Quais sãos as principais novidades para o restante de 2015?

Até o final do ano realizarei novas edições da Hot Legs que acontecerão em cidades e clubs inéditos. Em dezembro, comemoro 13 anos de carreira, assim como os 4 anos da festa. Também estou preparando uma sequência de podcasts em comemoração a essas datas, buscando apresentar minhas diversas influências até aqui. Os primeiros passos do verão também já estão sendo definidos e estou muito animada com o que está por vir.

7 – Para encerrar, uma pergunta que sempre gosto de fazer. O que a música eletrônica representa em sua vida?

A música eletrônica representa tudo. Sonho, amor, trabalho, informação, evolução, realização, sustento, família, prazer, diversão, amizade, felicidade…