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A cena nos bastidores: Melissa Piper compartilha um pouco de sua jornada conosco

Se existe uma boa razão para a cena eletrônica no Brasil estar crescendo de forma exponencial nos últimos anos é o bom desempenho de profissionais que não sobem no palco. Os chamados bastidores nunca estiveram tão fortes, com brasileiros entregando um trabalho de ponta em diferentes tipos e formatos de projetos. Um dos nomes em alta é o da carioca Melissa Piper, responsável pela logística da Alliance Artists e sócia no Supernova.Live.

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Melissa é uma profissional experiente, nome conhecido dentro de outros cenários do entretenimento brasileiro. Há mais de 15 anos ela trabalha com a produção de festivais, shows e eventos, experiência essa que permitiu a ela desenvolver habilidades relacionadas a coordenação de equipes, logística e artístico. Algumas das marcas que Melissa Piper já colaborou incluem Rock in Rio, Som Livre e Brazil Music Conference. A nosso convite, ela respondeu algumas perguntas chaves sobre sua caminhada. Confira:

Alataj: Olá, Melissa! Tudo bem? Muito obrigado por nos atender. Atualmente você cuida da logística internacional da Alliance Artists, certo? Conta pra gente como tem sido desenvolver esse trabalho e quais são as principais dificuldades dessa importação de artistas cada vez mais comum para o nosso mercado.

Melissa: Oi! Eu que agradeço, fico honrada! O convite veio dos meninos (Rassi e Conti), pois a gente já estava se falando sobre o BPM e sobre eu ter começado a Supernova com o meus sócios. Fui com eles nos últimos dois anos, pois também é meu sonho trazer esse festival para o Brasil. Enfim foi uma coisa meio “da uma força, trabalha de casa, sussa, mas a agência está crescendo rápido e estamos com muito trabalho!

A maior dificuldade é sempre com o governo, seja relacionado aos impostos que são um absurdo, ou os vistos, algo que também está complicado pois as leis mudaram e ficou tudo mais difícil – se é que isso seja possível. No mais eu acho que o mercado está bem mais afinado do que há 10-15 anos. Hoje temos agências consolidadas, com um casting bom de artistas e, apesar da economia estar mais lenta, temos grandes clubs e festivais que fazem o mercado girar ao longo do ano.

Acredito que uma coisa interessante na música eletrônica, é que quem já está nisso há muito tempo, está por que realmente gosta, tem paixão no que faz e é isso que faz o business sobreviver aos ciclos do mercado.

Som Livre, Rock in Rio e Rio Music Conferece são alguns dos projetos que você já trabalhou. Como cada um deles contribuiu para sua formação enquanto profissional?

Pra mim um critério importante quando aceito um job é: o que ele vai agregar pra mim quanto profissional. Claro que o financeiro quase sempre fala mais alto, mas já recusei trabalho nas Olimpíadas que o seria o cachê mais alto que já me propuseram e que acho que nunca vou receber na vida [risos], mas que o trabalho era algo que não ia me ensinar nada e ai seria apenas um trabalho chato, que eu não gosto, para ganhar bem.

A curadoria da Austro na Som Livre pra mim no começo foi até dificil, por que eu nunca circulei em gravadoras, não conhecia a linguagem deles. Foi fantástico, um “estágio” de um ano. Além de ter participado na criação de um label, ver como desenvolver uma marca, tive aulas e de marketing e o contato de uma galera muito legal de lá.

Grandes festivais pra mim são os mais sofridos e mais legais, por que quanto mais gente você tem que trabalhar junto, mais complexo e emocional ele vira. É como um formigueiro, cada um tem que fazer o seu, sem atrapalhar o outro e ajudando quem precisa. Rock in Rio é isso, é tanta gente participando para fazer aquele espetáculo! Cada edição são mais novidades, mais palcos, mais gente, mais tudo. Cada artista que vem aprendemos coisas novas, manias novas, é maravilhoso conhecer gente de equipes do mundo inteiro, que fazem shows em tudo que é lugar do mundo, é um grande encontro do Rock. Além de ver de perto grandes astros, haja coração.

O RMC (agora BRMC) foi meu filho do coração por muito tempo, até por que o Claudio me deu oportunidade de crescer como profissional, acreditou em mim, foi a primeira vez que fui produtora executiva de um projeto contínuo e longo como esse. Acho incrível a ideia de juntar todo mundo do ramo para debater questões importantes que afetam todos nós, mostrar novas tecnologias, ensinar e dividir informações. Acredito que isso é primordial para o crescimento e desenvolvimento da nossa cultura eletrônica. Precisamos mais do que nunca nos unir, não podemos só depender do poder publico, temos que ser uma força que eles reconheçam e legitimem.

Sabidamente, uma das principais dificuldades do nosso mercado é a falta de profissionalização em diferentes áreas da indústria do entretenimento. O que podemos fazer para melhorar esse quadro?

Olha, a falta de profissionalização vem justamente das pessoas começarem por que amam tanto isso que querem fazer de qualquer jeito. Uns dão certo por que entendem que é preciso melhorar SEMPRE e outros não. Eu venho de uma época que não tinha faculdade de produção de evento, nada. Você aprendia ali todo dia trabalhando, por que era tudo muito informal. Hoje com tantas palestras, workshops, cursos e faculdade, só não melhora quem não quer. E é uma tendência natural de quem não melhora, vai acabar dançando. Sempre tem alguém tentando ser melhor que você.

Você já trabalhou com diferentes tipos de clientes e formatos de evento, certo? Na sua opinião, o que o cenário da música eletrônica tem de mais peculiar?

Eu acho que é justamente essa informalidade, tipo você está la na festa levando seu DJ para tocar, mas está numa festa né? Todo mundo bebe, todo mundo samba [risos]. Então é cliente, com chefe, com artista, as vezes todo mundo ali no calor da emoção da festa. E ai na segunda-feira, de volta ao “normal”, dentro do quadrado da rotina de trabalho, isso em evento corporativo não existe. Em outros festivais e com outros clientes é bem mais moderado, não tem tanta mistura e socialização.

Após esses mais de 15 anos de trabalho, há alguma história curiosa ou divertida que você possa compartilhar conosco?

Meu lema é: What happens in Vegas, stays in Vegas. Por estar sempre perto dos artistas eu acredito que tem que haver um respeito à privacidade, pra mim é muito importante ter uma relação de confiança, que o cara sabe que pode contar comigo para tudo, na alegria ou na tristeza. Não peço foto nunca! Tanto num backstage do Rock in Rio, quanto numa tour com algum DJ. Life is messy for everyone e temos que respeitar isso. Historias não faltam, a vida foi intensa nesses últimos anos.

Quais são as principais habilidades de um profissional que trabalha com logística? O que um club/festa não pode deixar de exigir ao contratar um artista internacional?

Eu brinco que quem faz logística tem que ter TOC e ser neurótico com horário. Mas é bem isso mesmo, você precisa ser detalhista e cuidadoso, checar todas as infos que os contratantes te mandam, ver distâncias e tempos de viagem, ver se os hotéis são legais, checar as reservas, aprovar artes e line up. É um trabalho meticuloso, de vai e vem de informação. Você fala com agentes do mundo todo, todo dia, vira um relacionamento de confiança também.

A parte ruim é que você precisa ser chato e insistente, nem todos os contratantes mandam as infos, tem que ficar cobrando, por que do outro lado eu tenho o manager gringo que fica no meu pé. É delicado por quê todo mundo é seu cliente e quer estar satisfeito no final da “transação”. Seja o club que comprou o DJ, seja a agência que você contratou, DJ gringo ou seu casting nacional que também está ali pagando pelo seu trabalho. É muita gente pra deixar feliz!

Todo club quando faz uma contratação internacional tem que entender que os gringos já estão nisso há mais tempo e são mais metódicos. Querem tudo certinho para o DJ viajar tranquilo e ter uma experiencia boa. Lembrar que esses profissionais toda semana estão voando, viajando de carro, dormindo pouco, então conforto é um item importante sim! Não é frescura querer uma cama boa e comidinha gostosa depois de virar uma noite tocando ou de ter viajado 8-10 horas para chegar no Brasil. Desculpa, mas é essencial.

Falando um pouco sobre suas preferências musicais: quais são os artistas que não saem da sua playlist nos últimos meses?

Ai, euu nasci nos anos 70, então musica eletrônica só veio pra mim quando eu tinha meus 20 e pouquinhos. Minha base vem dos meus pais. Meu pai biológico era hippie crooner blues rock man, cantava e tocava teclado. Meu padrasto tinha uma coleção de discos de dar inveja e um sound system daqueles! Moramos em Londres e NY nos anos 80 e isso teve muito influencia pra mim também. Estava em NY quando os Beastie Boys começaram e em Londres quando a Madonna surgiu no radio. Minha mãe é fã de Led Zeppelin, Beatles e Yes. Fiz parte de coral na escola, era soprano. West Side Story pra mim é o clássico da vida. Então meu playlist é um pouco de tudo isso e o que vejo nos festivais. Curtis Mayfield está forte de novo, Tina Turner e Moodymann também. Rolling Stones, SG Lewis, Disclosure, Talking Heads, Gossip, David Bowie, Gorillaz, Solange, Frank Ocean, Madonna, Alabama Shakes, Bloc Party, The Maccabees, Tame Impala são uns dos muitos favoritos. Para malhar: Jay-Z, Beyonce, Kanye West, Dr. Dre, The Weeknd, RUN-DMC, Santigold, Missy Elliot e Kendrick Lamar. Musica pra mim é vida, escuto todo dia, faz parte de mim.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

Quando eu nasci, minha mãe contou que foram dois dias de festa em casa, eu nasci em casa. Acho que música é muito importante para os meus pais também e eles sempre entenderam o quanto ela era importante pra mim, sempre tive acesso a tudo isso desde bem pequena. A gente tinha uma vitrolinha com vários discos de ciranda e historinhas, isso me moldou. A riqueza musical no qual eu cresci foi muito feliz. Não sei se foi a época…

Eu sei que não vivo sem, quis ser cantora quando era novinha, mas além de não ter sido das melhoras alunas eu era tímida, então ficar nos bastidores fez mais sentido pra mim. Então, além disso me dar um prazer enorme, se tornou o meu ganha pão. Pra mim eu tenho o melhor trabalho do mundo, sorte na vida!

A música conecta as pessoas!

Foto capa por Gustavo Remor


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n’ Lights Management.

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