Há mais de uma década a frente da tradicional noite da Moving, Anna Biazin já é uma figura conhecida e muito admirada na noite paulistana. Ela pode ser considerada um case de sucesso por resistir frente a um mesmo projeto após tantos anos e, principalmente, por ter contribuído bastante para o avanço da cena house/techno na maior cidade do país, seja como hostess, curadora ou promoter do que é um dos principais clubs do mundo atualmente.

A imagem pode conter: 1 pessoa, área interna

De divulgadora de várias festas, passando por noites como hostess de algumas festas do D-EDGE até ser convidada por Renato Ratier para criar seu próprio projeto: Anna executou diferentes funções na noite, o que a garantiu uma visão privilegiada da noite enquanto bussiness: “A história da Moving é também grande parte da minha história” garante a promoter. Inegavelmente, sua caminhada se confunde e se mescla com a história da festa, algo extremamente natural após tantos anos de dedicação e liderança ao projeto. Por lá, ela já recebeu artistas como Tale Of Us, Richie Hawtin, Maceo Plex, Bob Moses e outros artistas de peso, além claro de um time de respeito de artistas nacionais que se renova de tempos e tempos e garante a Moving o balanço ideal entre headliners gringos e brasileiros.

A imagem pode conter: 3 pessoas, pessoas sorrindo, pessoas em pé, noite e área interna

Anna Biazin na pista 1 do D-EDGE em 2015

A habilidade para entregar serviços diferentes com alta qualidade e um poder de decisão rápido e eficiente foram pontos decisivos na carreira de Anna, além de outros fatores e oportunidades que ajudaram a moldar o seu perfil enquanto profissional. Nessa entrevista exclusiva, ela fala sobre a parceria com Renato e o D-EDGE, os desafios enfrentados ao liderar uma equipe por mais de 13 anos e os planos para o futuro. Confira abaixo:

1 – Olá, Anna! Tudo bem? Após tantos anos a frente da Moving D-EDGE, como você avalia as transformações do club e da cena de São Paulo nesse período?

Eu as avalio de forma positiva e também motivadora, pois acredito que tudo seja cíclico e isso faz com que a gente se atualize, busque novos formatos, novos sons, novos públicos, isso é um desafio constate após 13 anos de Moving no D-EDGE. São Paulo cada vez mais se destaca como uma das melhores opções de nightlife do mundo, uma das que têm as mais opções diversificadas pra todos os gostos e públicos, e isso é maravilhoso. Quando você faz seu trabalho focado no melhor resultado e qualidade para seu público, não há o que se preocupar e sim o que se trabalhar e construir cada vez mais. Assim sendo, vejo as transformações de forma natural. Sem elas a nossa noite não estaria durando tantos anos.

“Estamos em constante movimento, seja na pista, seja como seres humanos”

Acredito que criamos um público fiel, mas que de tempos em tempos se renova. Os antigos e habitués da velha guarda vão progredindo em suas vidas e gostos musicais, da mesma forma, que a festa, e aqueles que eram novatos se tornam de casa e por aí o ciclo se segue. Como a música, que vai se modificando e evoluindo conforme o tempo e o seu público alvo. Isso tem muito a ver com a proposta do nome Moving, estamos em constante movimento, seja na pista, seja como seres humanos… o importante é nunca parar e se conformar com mais do mesmo, sempre buscar se movimentar e evoluir.

2 – Como a história da Moving começou e como você passou a ser parte dela?

Como em tudo na minha vida profissional as coisas foram acontecendo e tomando seu lugar, acredito que por uma questão de abraçar as oportunidades, ter bastante personalidade e profissionalismo, e principalmente buscar renovar e entregar resultados. Comecei aos poucos por baixo e fui subindo os degraus. O que sempre me possibilitou conhecer bastante a área e o trabalho em todos os seus aspectos, serviços e âmbitos. Fui adquirindo uma bagagem que gerou confiança e mostrou minha capacidade. Eu trabalhava como divulgadora e telemarketing de diversas festas, também fui hostess de outras, inclusive de festas do D-EDGE desde o início do clube. Ao trabalhar numa noite que acontecia antes da minha, o Renato me convidou para criar e iniciar como produtora de uma nova festa que aconteceria nestas quintas-feiras, semanalmente, e foi onde a Moving começou e nossa parceria se firmou. Deste então, fiz parte de diversas áreas no clube e na festa, trabalhei desde a promoção, na agência como booker, na coordenação artística, como produtora de evento, na curadoria musical, e juntamente com o Renato, na prospecção e contratação artística. A história do Moving é também grande parte da minha história.

A imagem pode conter: 3 pessoas, pessoas sorrindo

3 – Trabalhar em uma festa semanal exige uma tomada de decisões rápida e muitas vezes em equipe, aonde nem sempre as opiniões são similares. Como você e o club tem lidado com essas divergências ao longo dessa caminhada?

Trabalhar em equipe e ter esse time alinhado é sempre desafiador, mas também bastante motivador. É muito importante ter na sua equipe pessoas de confiança e que buscam motivos similares pra que possamos atingir o melhor resultado. O que nunca é fácil de encontrar, mas quando se acha é de enorme acréscimo. Acredito que o diálogo e a comunicação sempre devem fluir, pois isso é chave para solucionar qualquer intercorrência ou divergência. Após tantos anos trabalhando juntos, na equipe de produção e direção, acho que é isso que nos une, e faz cada um conhecer mais do outro, lembrando que apesar de qualquer divergência, estamos juntos num mesmo propósito, que é oferecer a melhor qualidade e festa possível para o clube e nosso público. Sempre há novos integrantes na equipe, e em qualquer situação, eu sempre me alinho nas decisões com o Renato, chegamos a uma solução e assim repasso para o meu staff. São 13 anos trabalhando com esse time e lidando com os problemas que eventualmente surgem. Acredito que liderar uma equipe é difícil, mas prazeroso quando se busca o mesmo propósito.

4 – Entre tantas noites marcantes na história da Moving, qual você considera mais importante ou especial?

Acho que foi em 2004 ou 2005. Era 22h mais ou menos, já estava me preparando para a Moving quando o Renato me ligou falando para avisar a todos os amigos: Richie Hawtin, Marco Bailey e Adam Beyer, três ícones da eletrônica, estavam a caminho do D-EDGE para uma noite super especial!

Na hora, desacreditei. O que Hawtin está fazendo no Brasil? Marco Bailey veio para tocar no Lov.e e o Adam Beyer era atração da Circuito! Mas, como assim os três juntos no D-EDGE? Durante toda a noite, torpedos e ligações de celular cruzaram a cidade na tentativa de avisar a todos os interessados por esse encontro.

É claro que muitos só ficaram sabendo no dia seguinte, para desespero e frustração geral. A explicação para tal encontro? Eles saíram juntos para jantar e após várias garrafas de saquê, decidiram se jogar em alguma pista da cidade. Por volta das 22h30, Hawtin fez uma ligação para Renato Ratier, dono do club, pedindo para tocar. Ele já havia se apresentado na casa em dezembro, na festa D-EDGE Concept, e ficou apaixonado pelo espaço. A resposta, obviamente, foi positiva. Que noite!

5 – Você possui um perfil bastante ligado a moda e ao mundo fashion, certo? De que forma essa característica contribuiu para sua formação enquanto promoter? Estar ligada a outro nicho possibilitou uma melhor compreensão e leitura de público?

Acredito que toda forma de arte e expressão esteja interligada e isso não seria diferente entre música e moda, onde uma pode influenciar a outra. Trabalhando com a noite, desde meu início como hostess e até hoje com a produção, acredito que sempre busquei me expressar e me sentir bem, seja me divertindo ou trabalhando, ou ainda na união dos dois, eu procuro estar de bem comigo e minha imagem – acho que a postura e personalidade contam muito também. Passamos por várias fases e gostos, e de acordo com nosso conhecimento e referências, vamos evoluindo. Com certeza o meio que estou inserida acaba me abrindo a mente para novos cortes, texturas, formatos e estilos. Da mesma forma, acredito que isso aconteça com o público. Através da imagem, acho que a mensagem da música pode ser elevada, auxiliando na compreensão e evolução dos que frequentam a noite.

6 – Você enfrentou ou ainda enfrenta algum tipo de preconceito dentro da indústria da música eletrônica por ser mulher? Qual conselho você daria para as profissionais que estão começando agora?

A misoginia e sexismo estão presentes em todos os lugares de nossa sociedade, apesar de termos tido vários avanços, a luta é constante para a evolução do ser humano. Hoje posso dizer que, após muitos anos trabalhando na Moving e no D-EDGE, eu não sinto isso no meu trabalho no grupo, pois somos um time há muito tempo, fiz minha história e já mostrei minha capacidade independente do sexo que eu tenha. Então acho que conquistei meu espaço e respeito, com muito trabalho e alcançando bom resultados. Talvez, às vezes, posso sentir isso dos frequentadores que acham que uma mulher que trabalha na noite é propriedade e acesso livre deles. Mas nada que eu não consiga contornar e colocar no lugar.

Já pra quem está começando a trabalhar neste meio, meu conselho é trabalhar duro, ter foco, muita disponibilidade e disposição, lutar pelo o que acredita, ter uma boa postura profissional e correr atrás. Acho importante também estar aberto a aprender sempre, bem como a ensinar, a trabalhar em equipe, respeitando as hierarquias e os espaços de cada um, sem passar por cima de ninguém ou ter ego inflado, pois estamos todos juntos para ofertar o melhor entretenimento para o público, desde a sua aquisição do ingresso, até o momento que ele sai da festa. Conquiste seu espaço, respeite os colegas de trabalho da área, o público, e você não terá que se preocupar com concorrência. As palavras chaves são trabalho e respeito!

A imagem pode conter: 2 pessoas, barba

7 – Como você projeta o futuro da sua carreira?

Estou em constante busca pela evolução pessoal e profissional. Estou sempre aberta ao novo e a novos desafios, e isso me motiva a projetar o meu futuro. Acredito que sempre podemos aprender e buscar o crescimento, sempre pensando no que se pode renovar e quais novos objetivos alcançar.

8 – Para finalizar, uma pergunta pessoal: o que a música representa em sua vida?

Música pra mim significa sentimento, seja no presente ou no passado. A música me faz sentir, me faz ser, me transforma, me traz lembranças e memórias. Quando eu escuto uma música que me marcou ou representou um momento e fase da vida eu consigo sentir e reviver tudo na minha mente, coração, corpo e alma. Neste momento, tão dividido, em que o mundo e a sociedade estão passando, acho importante citar o que aprendemos na música de uma incrível cantora famosa: “Music makes the people come together”

A música conecta as pessoas!