Alataj entrevista Brandub

Brandub é um talento emergente na sempre interessante cena argentina de música eletrônica. Em sua bio, ele se auto intitula como um artista pertencente a nova era analógico e suas produções tem confirmado tal tese e seu estilo musical permeia entre o house e techno com atmosferas minimalistas.

Com grande desenvoltura no estúdio, Brandub alcançou o catálogo de labels do calibre de Minus, Bon Voyage, Esperanza, Airdrop, Houseworx, Get Slow e Drumma. Algumas de suas faixas já caíram nos gostos de medalhões do estilo, entre eles os lendários Ricardo Villalobos, Zip, Petre Inspirescu e Marco Carola. Com tal conquista, Exequiel Brandan (seu nome de batismo), passou a ter uma visibilidade muito maior dentro do nicho e aos poucos vai conquistando em definitivo seu lugar ao sol.

Um de seus próximos lançamentos confirmados será assinado pela curitibana Laguna Records, que também o recebe para uma de suas datas da tour brasileira em 2018. Além do encontro com a Laguna na sexta, Brandub toca um live streaming com a QG Agency na quinta e faz sua estreia em terras gaúchas no hoss club, sábado. No embalo dessa aproximação do artista com as pistas brasileiras, convidamos Brandub para um bate-papo exclusivo por aqui. Confira:

Alataj: Olá, Brandub! Tudo bom? Obrigado por nos atender. Que tal começarmos esse bate-papo com algumas curiosidades sobre sua carreira. O que você poderia nos contar?

Antes de qualquer coisa, é um prazer compartilhar minha música com os amigos do Brasil. Meu nome é Exequiel Brandan, mais conhecido como Brandub. Sou natural da cidade de Córdoba, na Argentina, a segunda maior cidade do pais e que tem uma cena enorme para uma cidade de 2 milhões de pessoas. Para falar da minha relação com a musica, temos que voltar até a década de 90. Quando eu era mais moleque eu tinha um CD desses de coletânea, um bem trance 90 daqueles antigos, e na época eu amava aquele disco. A partir disso, lá por 2001, eu entrei em um cursinho de discotecagem, onde me ensinaram a tocar com vinis e CDs. Dai vieram os primeiros passos como disk jockey.

Depois disso, acredito que de 2001 até 2008, eu estive num processo de amadurecimento do meu gosto musical, descobrindo o que eu realmente gostava. Na época existia uma loja de discos em Cordoba em que o dono era um jornalista musical que viajava o mundo todo e sempre trazia música de vanguarda pra gente. Eu vivia metido lá dentro explorando. Foi naquelas prateleiras que eu conheci coisas que me influenciam até hoje. Tipo os discos da Plastic City, especialmente os do The Timewriter, outro que me marcou muito foi Swayzak – Groove Technology Vol 1.3. Também pude conhecer artistas como Richard Davis, Herbert e Ricardo Villalobos.

Já a minha historia como produtor veio logo depois. Os primeiros contatos vieram por volta de 2003, eu tinha um amigo que na época veio dos Estados Unidos e trouxe um software que se chama Reason 1.0. A gente tinha um computador bem ruim na época, travava toda hora, mas a curiosidade vencia e a gente ia apertando botão e aprendendo do jeito que dava. Em 2005 eu conheci o Ableton, nessa época a internet já era uma realidade e com ela vários tutoriais que me ajudaram muito a aprender de verdade. Em 2008 comecei a lançar minhas músicas e logo no inicio tive o que pra mim foi um dos grandes estímulos na minha carreira: meu EP lançado pela MINUS do Richie Hawtin – ainda assinando como Exequiel Brandan. Foi a partir desse EP que eu tive a certeza de que a música podia ser uma realidade na minha vida e desde então não parei mais.

Sabemos que a Argentina possui uma cena muito especial conectada a dance music. O que você destacaria em relação ao que está acontecendo agora e o que houve nos últimos anos no cenário eletrônico do país?

Daria pra escrever um livro com a cena de Córdoba. Inexplicavelmente a cidade sempre teve uma tradição de ter música de vanguarda e uma cultura house muito forte. Comecei a frequentar a cena por volta de 2004 e naquela época predominava o conceito “clube”, com forte presença de artista locais. Grandes nomes como: Andres Gonzalez, Simbad Segui, Cristoval Paz, Franco Cinelli (que é de Rosário mas sempre esteve presente) foram alguns dos artistas daquela geração que sempre me influenciou muito. Antes de começar a minha carreira eu frequentava muito os clubes da cidade pra escutar essa galera em lugares antológicos no underground da cidade, como Peekaboo, Casa Babylon e Dorian Gray. Mais tarde, todos esses lugares e pessoas foram muito importantes pra mim.

Você já gerenciou um club, certo? Por quanto tempo você teve este club e qual foi a importância dele no desenvolvimento de sua carreira enquanto artista?

No ano de 2014 eu fui convidado pela primeira vez a tocar num clube que abria na cidade chamado Gate Project. Ali tive oportunidade de conhecer a um brasileiro chamado Felipe Moreno, que era um dos socios. Alguns meses depois, ele me ligou me oferecendo cuidar da artistica musical do clube e uma parte na sociedade. Dali em diante, pelo proximos um ano e meio sustentamos esse clube que essencialmente era um clube de amigos. Ali a gente priorizava a musica que a gente gostava, e ao mesmo tempo, criava um ciclo onde reuniamos grandes nomes da cena argentina num clima bastante caseiro. Não só artistas locais, mas nacionais como Cape, Jorge Savoretti, Bodeler, Ariel Rodz, Juan Zolbaran, Tato Piatti. O legal dessa experiencia era justamente isso, a amizade e a musica. É bacana saber que de certa forma foi um local que proporcionou os primeiros passos de muitos djs de Cordoba que estavam começando na epoca, gente que inclusive hoje em dia ja contam com carreiras consolidadas.

Uma das grandes forças na Argentina no momento é o minimal deep tech/house/micro house, com gravadoras como Rationalism, MyHouse YourHouse, Savor Music e Ladeep. Como você vê essa cena? Quais são os artistas que movimentam essas sonoridades por aí e como você vê o recente crescimento e expansão desse movimento?

Eu considero que tenho a sorte de ter amigos muito conectados com a produção musical da mesma forma que eu. É legal ver que a gente se conhece há mais de 10 anos e observar como fomos evoluindo juntos nesse caminho e não só “bebendo” de um único gênero, mas de varias fontes, house, techno e minimal especialmente. Gente como Rodrigo DP, Fuhrz, Nacho Bolognani, Martin Bellomo… se eu começar a citar todo mundo não paro mais.

Hoje em dia temos muitos artistas de Córdoba posicionados em labels de projeção global e acho que isso diz muito sobre a forma como a gente encara a cultura em geral por aqui. Tirando Savor Music (que é de Rosário), todos os labels citados são daqui e todos trabalham em formato analógico, vinil. Isso também é algo que, pra mim, fala muito dessa cultura que eu te digo. Do apreço, do carinho e do cuidado que existe em brindar uma apresentação impecável em todos os sentidos.

Como você enxerga o atual momento do seu som quando colocado no dance floor?

Pergunta dificil [risos], vou tentar não soar muito viajante nessa resposta. E nunca fui muito fã dessa ideia de tentar definir minha música, principalmente em gêneros. Limita um pouco, como se diz por ai. Mas existe uma palavra, que não é especifica a nenhum genero, que eu acho que serve como um ponto em comum que conecta minhas músicas: groove. Algo meio abstrato mas absolutamente real! Grande parte do que me diverte em tocar é criar esse tal groove. Nos meus mixes eu gosto de priorizar a precisão na hora de combinar as texturas do som, tentar criar esse swing grooveado, trabalhando os tracks entre 127 e 129 bpm quase sempre, o que faz com que esse elemento cresça. Isso por exemplo serve pra gerar uma sensação de que as texturas mais profundas da musica, com a acelerada, ganhem um contorno mais sensual e envolvente junto a o beat.

Poderia nos falar um pouco mais sobre seu processo criativo no estúdio?

Quando eu entro no meu estúdio para produzir, normalmente eu já tenho um esboço de uma ideia montado na cabeça. Normalmente é a estrutura básica da percussão (kick/hi hat/clap), e como eu falei antes, gosto de trabalhar com 127 bpm, então sempre começo com esse “modelo”, mesmo que depois eu acabe alterando. Tnho aqui no meu estúdio uma Akai MPC 1000, e a uso bastante como drum/sampler machine no meu processo criativo. Já pra parte melódica, o jazz é uma fonte que eu gosto muito pra me inspirar. Curto resgatar esses fragmentos de melodia do jazz antigo, piano, metais, etc…

Quais são seus principais objetivos como produtor pra 2018? Existe algum artista que você gostaria muito de algum dia ter a oportunidade de fazer uma collab ou remix?

No que resta de 2018 eu tenho três releases (2 analógicos e 1 digital). Gravity EP em digital com os meninos da Laguna Music (Brasil), Chernobyl EP por Bom Vivant Music, com 4 faixas minhas – algumas já com suportes interessantes que me deixam muito feliz, Dorian Pak e Zip, por exemplo.

Por ultimo o lançamento do meu label que vai se chamar Hat Swing, tambem em analógico com 4 tracks originais. Esse projeto do label é algo o qual eu depositei todas as minhas energias e carinho aos detalhes pra que saia tudo da melhor forma possível. Estou bastante animado com o que está por vir!

Sobre com quem eu gostaria de colaborar algum dia, eu acho que mais que um artista em especifico, existem labels com os quais eu gostaria de trabalhar. Raw Music e Visionquest são dois exemplos de gravadoras que eu adoraria lançar.

Dentro e fora da música eletrônica, quais são seus grandes ídolos?

Fora da música, Lionel Messi [risos]. Na música, Ricardo Villalobos e Richie Hawtin, sem duvidas.

Pra finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

Vou ser ser econômico nas palavras e até um pouco clichê nessa resposta: absolutamente tudo.

+ Brandub com Laguna Music em Curitiba
+ Brandub em Passo Fundo no hoss club

A MÚSICA CONECTA.


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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