Alataj entrevista Break

Por Chico Corjeno

Break. Num meio de parâmetros estéticos e técnicos tão elevados como o que tem esse termo como sua peça mais centra, você precisa ser, no mínimo, tão competente quanto ousado para tê-lo como seu nome artístico e não causar furor entre os puristas que habitam esse cenário. O break é o átomo a partir do qual tudo que é basilar para o Hip Hip, o D&B e outros gêneros afins possa ser criado, o elemento primordial da base propriamente dita, aquela que sustenta todo o resto e sobre a qual o groove gera as ondas de energia através das quais essa musicalidade nos move e comove a velocidades estonteantes.

Charlie Bierman adotou esse nome ao adentrar as fileiras dos alquimistas sonoros que injetam vida e inovação num gênero que sempre serviu ouvidos bastante exigentes e, desde o início, destacou-se como um DJ e produtor cuja habilidade era bastante singular e cuja visão ajudou a dinamizar a música como um todo. Essas qualidades se traduziram em uma série de faixas arrojadas que ajudaram a dinamizar essa sonoridade num momento de inflexão criativa. Seus sets também atuam num nível similar de qualidade e neles, Break aglutina seus refinados conhecimentos e lança mão de seus afinados talentos para alinhavar sequências impecáveis de som, fúria e emoção em seus estados mais intensos.

Muito disso é o que ele certamente trará à pista da próxima edição da Marky & Friends que vai ocupar o terraço do Air Rooftop numa bela tarde de domingo, o último da primavera. Conversamos com ele sobre alguns temas e, no percurso, soubemos mais sobre este reservado, mas extremamente generoso music nerd:

Lugares | Certamente ser natural de Bristol deve significar algo especial no que se refere às influências e à mera quantidade de música à qual alguém deve ser exposto no decorrer da vida, mas quais são seus momentos mais cruciais ou estimados que o fizeram querer se tornar parte dessa história?

Bem, eu originalmente sou de Londres, então boa parte das minhas influências vieram de ter crescido lá. Mas sempre teve música de Bristol que eu amava, como Portishead, Massive Attack e, claro, a V Recordings. Assim, quando me mudei para lá aos 24, foi essa pegada da cena que realmente me atraiu. A cena local sempre foi forte e a comunidade do D&B é muito maneira aqui, então foi fácil para mim começar a me envolver. É uma cidade fantástica para se viver e trabalhar.

Espaços | E quanto a sua própria trajetória? Quais foram os clubs, festas, festivais ou pistas que você se recorda de terem sido fundamentais para seu crescimento como um junglist e como músico?

Inicialmente, eu era um DJ Scratch no Hip Hop, mas assim que ouvi algumas faixas de Jungle com o Amen Break numa fita que um amigo me deu, não teve mais volta. Daí, os primeiros clubs de verdade aos quais comecei a ir foram o The End e o Bagley’s em Londres e, lembrando dessas noites hoje, noto que era eventos bem treta, com escalações e sound systems incríveis. Essa era a época em que todo mundo tinha um par de Technics e tudo que eu e meus amigos queríamos ser girava em torno de sermos DJs/produtores. Eu também começara a fazer música e havia tanta coisa boa rolando no final dos noventa… era uma época realmente inspiradora.

Trajetórias | Eu me lembro muito claramente que, dentre a geração de produtores que deram novo alento à cena entre 2002-2003, nomes como o seu, Heist e Breakage vêm à mente como sendo particularmente profícuos. Em retrospecto, há algo que você gostaria de ter feito de forma diferente até aqui? Quais os momentos de destaque dos quais se recorda espontaneamente entre tantos que devem ter rolado através desses 15 anos?

Não tenho certeza, pois tive oportunidades de assinar com alguns grandes selos do gênero e às vezes me pego imaginando como as coisas teriam se desenrolado, se teria me tornado maior mais rápido, mas eu não o fiz justamente por causa das condições e sacrifícios implicados. Eu não mudaria isso agora porque tem sido muito bom ter feito as coisas do meu jeito e todo mundo sabe que aqueles que acabaram assinando esses acordos depois mal podiam esperar para se livrar deles e começarem seus próprios selos.

Acho que tenho pencas de coisas memoráveis… conhecer vários de meus heróis do D&B e trabalhar com muitos deles. Fazer um back 2 back com Randall e outro com Goldie no Matter foram alguns sets inimagináveis para mim. Também tenho o privilégio de poder viajar pelo mundo todo, algo que é fenomenal. Ver e conhecer fãs que realmente apreciam minha música e sets é muito bom e gratificante.

Lendas | Falando de suas primeiras inserções, instantaneamente o que me vem à mente é o primeiro 12” com músicas suas que chegou até mim, lançado pelo excelente East Side Records de A-Sides. Além desse cara gente finíssima, quais outros nomes lhe vêm à cabeça quando pensa nas pessoas essenciais para seu itinerário até aqui? Como essa conexão inicial com o Jason se deu?

Eu conheci o A-side através de uma dupla chamada Social Security, que eu havia conhecido durante algumas jornadas de compra de discos em Camden Market. Eu estava tocando algumas de minhas demos para eles na bancada de discos de um player de mini disc e eles acharam que o Jason iria curtir meu trabalho. Nos encontramos e ele estava bastante a fim de lançar minha primeira faixa, Cocktail. Outra coisa legal dele é que sempre foi muito parceiro e me apresentou com alegria para outros donos de selos que poderiam lançar faixa minhas também, como Klute e Marcus Intalex. Eu sempre gostei muito de como ele fez isso e procuro fazer o mesmo com outros artistas que lancem pela Symmetry… tentar aferrar-se a alguma ideia de exclusividade nem sempre é o melhor caminho. Eu aprendi muito trabalhando com Silent Witness e Squire, o que levou à DNAudio e a lançarmos um monte de coisas legais, conhecer o Nico da No U Turn através deles me levou a outros lançamentos e outras excelentes conexões.

Técnicas | Certamente, através de todos esses anos, suas habilidades foram constantemente aprimoradas e sua abordagem amadureceu, algo que pode ser ouvido em sua produção desde o início até hoje. Contudo, como este processo foi se modificando pelas novas tecnologias, sejam elas aplicadas à criação, produção, gravação, reprodução e distribuição musicais?

Acho que definitivamente melhorei no decorrer dos anos e há algumas faixas antigas que soam bem meia-boca para mim atualmente, mas também há algumas pérolas com as quais eu me impressiono e me pego imaginando como consegui fazer a tanto tempo atrás.

Até 2010 todas as faixas foram mixadas por uma mesa analógica e equipamentos externos, então elas soam mais diretas e cruas, mas também quentes e com bastante personalidade. De alguns anos para cá eu já estou fazendo tudo inteiramente digital, in the box, o que de fato mudou algumas coisas, mas o que tentei fazer foi não perder as características do som analógico, como aconteceu com alguns artistas desde então. E, mais recentemente, eu tenho mixado tanto em equipos analógicos como digitais em busca de um bom equilíbrio que me traga o melhor dos dois mundos.

Muito do meu gosto musical permaneceu o mesmo e eu ouço predominantemente músicas mais antigas (sem ser D&B), então muito do que me influencia ainda soa bem clássico. Há tanta música boa por aí de todas as décadas, é até difícil digerir tudo. Creio que fazer uma cacetada de shows durante todos esses anos ajuda a descobrir o que pode ou não dar certo com uma faixa e o mesmo vale para sua comercialização, aqui toda experiência vale mesmo. Entretanto, olhando para trás, eu noto que a ingenuidade pode ser muito libertadora.

Perspectivas | Um álbum novinho em folha e, já que repassamos de leve o relativamente longo percurso trilhado por você, notamos que dez anos separam seu début de Another Way. Poderia comentar um pouco sobre a fatura deste verdadeiro tributo à forma de arte de que se nutre? Quais os processos que o materializaram? Qual acha que seria a reação do jovem Break que fez um álbum como Symmetry a este?

Esta pergunta é bem maneira… eu nunca pensei desse modo. Como disse acima, meu gosto musical permanece muito parecido com o daqueles dias, então imagino que o jovem Break fosse aprová-lo. Ele provavelmente gostaria que ele fosse mais sombrio e nervoso, mas como tantos outros iguais a mim, eu acabei amolecendo com os anos e superei minha raiva adolescente!

O processo que resultou nele acho que foi muito mais uma tentativa de criar as faixas da mais alta qualidade ao alcance do meu talento nesse período. Ademais, acho que me preocupei bem menos com o que os outros queriam ou esperavam, apenas fiz o que sentia ser o melhor. É fácil ficar preso em tendências e na pressão de grupo de produtores, então imagino que não me preocupar com essas coisas tornou tudo mais simples e os resultados melhores… espero. Foram muitas horas de muita atenção aos detalhes, mas eu sempre curti tudo de um jeito um tanto obsessivo.

Horizontes | Considerando tudo sobre o que acabamos de conversar e uma turnê engatilhada que vai trazê-lo a novos destinos, o que mais surge no horizonte para você e seus projetos? Por exemplo, quais são os próximos passos do Symmetry que possa compartilhar conosco?

Jack Boston está trabalhando em material realmente impressionante para o ano que vem. Temos alguns remixes e lançamentos planejados vindos de novos artistas no selo pelos quais estou muito empolgado. Em breve teremos uma nova coletânea de vários artistas saindo se tudo der certo.

Seguramente eu mesmo lançarei algumas faixas novas de D&B, mas agora me encontro concentrando esforços em outros projetos fora do gênero pelos últimos meses.

A MÚSICA CONECTA.


Equipe de reação do portal Alataj, focada em levar conteúdo cultural ao público antenado na música eletrônica.

RELATED POST

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

INSTAGRAM
SIGA-NOS