Alataj entrevista Bruna Guedes

Bruna Guedes é a mente por trás do estúdio de social media paulista amarelo.nu. Baseada em Campinas, Bruna atende algumas das marcas mais interessantes da cidade, entre elas o Club 88 e o Caos. Essa parceria com Eli Iwasa e parte dos sócios dos 2 clubs é algo que já se aproxima da marca de 10 anos e, ao que tudo indica, se fortalece a cada novo ciclo.

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“Desde o Kraft, eu tinha a ideia que gerar conteúdo sobre os DJs, criando uma narrativa sobre a sua trajetória e laços afetivos com o nosso público e os convidados, era mais importante que vender uma noite”. comenta Bruna quando perguntada sobre o processo de construção de tom de voz das duas marcas. Tal conceito ganhou ainda mais força e representatividade com o a exposição de seu trabalho frente a comunicação do Club 88 e, especialmente, do Caos nos últimos meses. Com ideias inovadoras, proximidade do público e uma filosia fincada nos princípios da inclusão e do respeito, Bruna Guedes e a amarelo.nu ajudaram a guiar um primeiro ano de conquistas por parte do club paulista – Marcel Dettmann, Nina Kraviz, Carl Craig, Guy J, Laurent Garnier e outros grandes nomes que já passaram pela pista do warehouse confirmam essa afirmativa.

Sexta-feira, Bruna Guedes, Eli Iwasa e todos os profissionais envolvidos nesse momento especial do club paulistano, celebram mais um encontro na pista do Caos. Speedy J, Tijana T, Zopelar, Eric Duncan e Nascii serão os responsáveis por guiar essa belíssima jornada musical do house ao techno. A nosso convite, Bruna Guedes respondeu algumas perguntas sobre sua carreira e o inspirador case de sucesso frente as mídias sociais do club:

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Alataj: Olá, Bruna! Tudo bem? Seu trabalho com a amarelo,nu me parece decisivo para o sucesso do Caos e também do Club 88. O que você pode nos contar a respeito do processo de construção de tom de voz dessas duas marcas?

Bruna Guedes: Desde o Kraft, eu tenho a ideia que gerar conteúdo sobre os DJs, criando uma narrativa sobre a sua trajetória e criando laços afetivos com o nosso público e com os convidados, era mais importante que vender uma noite. Ter um público que sabe o que está consumindo e se relacionando com as nossas ideias é um prazer maior do que números.

Elevar o grau de inteligência das pessoas aliado ao emocional é sempre um pouco de partida no meu trabalho com o amarelo.nu e eles compraram essa ideia completamente no Caos e no 88.

Muito se fala sobre inclusão na cena eletrônica, mas muita gente se esquece que é importante trabalhar isso também na comunicação. Como você tem buscado soluções nesse sentido?

O posicionamento do Caos é onde eu mais tenho conseguido trabalhar esse aspecto. Inauguramos em dezembro com a proposta de um lugar seguro para quem quer dançar e poder se desenvolver através da música. Para mim, a pista sempre foi um espaço de fortalecimento de personalidade. Mesmo Campinas ainda sendo uma cidade altamente segregadora, a última a abolir a escravidão, representada por diversas vezes por grupos que não mostram sua totalidade, ela nos permite sermos educadores.

Hoje, trazemos o posicionamento que começa nas redes sociais para o nosso funcionamento. Nela falamos claramente que não toleramos nenhum ato que diminua o próximo por qualquer motivo e pedimos o cuidado com o próximo com ações promocionais que apoiam a amizade e a troca. Um exemplo: chegamos ao consenso que eu fizesse uma reunião com todo staff de segurança antes de abrirmos a casa a cada edição, passando alguns aspectos da noite, como o público esperado no dia, som, abordagem com drogas, conteúdos que trabalhei sobre respeito e segurança, formas de administrar um diálogo e a postura contra preconceito, racismo, homofobia, sexismo e por aí vai.

Todas as vezes que consegui estar presente para fazer ela, tivemos um atendimento infinitamente melhor durante a noite. O seguranças hoje em dia conseguem entender que estão ali para nos proteger e não para proibir nada que não seja necessário. Eles são nossos cuidadores e não nossos vigias

Do diálogo com os seguranças, seguimos para um SOS que é uma base que nossos clientes podem pedir ajuda por qualquer motivo, como uma abordagem abusiva de um homem com uma mulher ou algum ato de homofobia, ou apenas por não estar se sentindo bem. O SOS começa nas redes sociais com texto sobre respeito e dicas para uma noite mais leve.

É claro para todos que trabalham com as mídias sociais o atual problema do alcance orgânico. Na sua opinião, quais são as possíveis saídas para contornar essa questão? O que não pode deixar de ser feito para quem busca ter engajamento nas plataformas?

Ter fãs! Além do conteúdo, claro, você precisa de fãs fervorosos, de pessoas que mantenham o seu canal com presença real. Precisamos de amor explícito entre a sua marca e seus clientes. Fodam-se os tais números! O que importa é quem te ama e fecha com você. Nada adianta um perfil inflado ou posts repletos de likes se nem um quarto ali te ama de verdade. Você luta contra os seus próprios números. Engajamento é amor à marca aliado com um conteúdo eficiente que eleve o grau de inteligência do seu seguidor.

Como é a sua ligação com a diretoria do Caos? Quão importante essa proximidade tem sido para o desenvolvimento de todo o projeto? Você chega a participar de decisões do campo artístico?

Eu sou amiga próxima da Eli Iwasa, a gente costuma fazer sonhos de uma velhice com um copo de whisky na mão em uma varanda por aí, sou amiga dos meninos também e tenho um carinho grande por todos, nos divertimos juntos..

Mas eu e ela mantemos diálogos constantes sobre a cena atual e nossos gostos. Saímos juntas, dançamos, trocamos percepções dentro e fora do club. E é ela quem faz a curadoria do Caos, apenas dou meus pitacos e bato na tecla em
manter o underground e as minas sempre por perto.

Entre nós existe um respeito por sabermos o quão difícil foi chegar até ver um espaço desse porte e com essas características na cidade. Através desse respeito, tenho uma liberdade intensa com eles. Trouxe profissionais como o Muto para a comunicação inicial do projeto, e apesar de não ter relação direta sobre o artístico, estou sempre em diálogo sobre as possibilidades e o que acredito ser interessante trazer ou não para cá. Desde profissionais parceiros até posicionamento.

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Pessoalmente e profissionalmente, como você enxerga o atual momento da cena eletrônica em Campinas? Há muita diferença em termos de comportamento do público, quando comparamos com outras cidades do país?

Campinas é uma espécie para ser estudada. Eu considero qualquer profissional bem sucedido aqui um VITORIOSO A+ em CAPSLOCK mesmo. Campinas tem uma política dos infernos, nada se sustenta por muito tempo. De prefeito assassinado a prefeito médico bandido fugitivo até um prefeito totalmente inexiste e representante da elite.

Emburrecer a população é um plano bem executado por aqui. Atualmente, por exemplo, temos uma prefeitura totalmente omissa que investe ZERO em cultura. Não existem shows além de poucos amigos que ainda se esforçam mas sem espaços para nada de grande porte. Teatro na UTI com o principal teatro da cidade fechado, a cultura de shopping cada vez mais fortalecida, pontos de cultura sem apoio ou sofrendo ameaças e constantes agressões como assaltos e incêndios, parques abandonados e a cultura de asfalto simplesmente não existe.

Ano após ano, o campineiro tem menos poder de escolha e consome mais de tudo e menos de nada. Ele não tem acesso a cultura de forma ampla, ele bebe, se reúne em pequenos grupos e sabe pouco o que gosta de verdade.  Fica difícil levar uma música eletrônica de qualidade (ou qualquer música de qualidade) quando a população não consegue desenvolver um senso crítico. Pode parecer arrogante, mas uma pessoa que diz gostar de tudo, na real, gosta de nada.

Por outro lado, isso nos possibilita nos tornamos educadores e com a responsabilidade de trazermos artistas com carga histórica e não apenas modismo. Os que nos acompanham por esse motivo são os nosso fãs, os que reconhecem a nossa contribuição para a cidade e para a região, e são gratos por isso.

Quais são seus artistas e movimentos musicais preferidos do momento? A música exerce um papel importante no aspecto criativo do seu cotidiano?

Eu ouço música o tempo todo. Sou o tipo de pessoa que volta pra casa se esquecer os fones de ouvido e não consigo produzir sem. Atualmente, confesso que tenho verdadeiro amor pelo algoritmo do Spotify e venho me divertindo com ele, sou a louca das playlists também. Uso ele para descobrir muita coisa através de algum start pessoal, de alguma indicação de um amigo ou deixando ele me guiar.  Estou ouvindo muito a atual safra feminina feminista das mulheres no Brasil: Carne Doce, Letrux, Céu, As Bahias e a Cozinha Mineira, Ana Cañas, Alice Caymmi e várias outras.

Industrial alemão é amor desde a época de Boneca Careca, personagem que eu tive por alguns anos junto a uma festa que produzia, a Love Hurts. Também amo Jazz e música brasileira até 79. E amo Sade que é deusa nesse meu pequeno mundo, desde quando a minha mãe se separou e começou a escolher ela o som da casa e não o meu pai.

Sabemos que você possui uma filosofia muito madura em relação ao feminismo. Na sua visão, o que falta para as mulheres ocuparem o mesmo espaço em relação aos homens no mercado? Você já sofreu algum tipo de preconceito por ser mulher num cenário predominantemente masculino?

Pra começar: Que mulher não sofreu? Se disser que não, é pq optou em fazer vista grossa, por que sempre passamos.

O que falta? Mais pessoas que entendem o feminismo brigar junto com a gente. Corrigir o amigo abusador. Corrigir dentro de casa. Falta o empresariado parar de assediar enquanto fazem campanhas bonitinhas. E mulheres pararem de concorrer entre si e se verem como aliadas de uma vez por todas.

Falta também os homens se tocarem que não irão nos silenciar, abusar sem luta e nos calar nunca mais! Pode nos chamar de feminazi, de extremistas mas enquanto os números mostrarem que mulheres morrem apenas por serem mulheres, recebem menos apenas por serem mulheres, estaremos lutando. Estamos em meio a uma união feminina tão forte que agora é só crescimento, ou agrega ou serão expostos e terão que nos respeitar mesmo.

A imagem pode conter: Bruna Guedes, em pé e sapatos

Recentemente você postou algo sobre a questão da cocaína, um assunto que precisa ser debatido dentro da cena eletrônica. Ao seu ver, quais caminhos devemos seguir para começar a falar sobre redução de danos com mais eficiência?

Como abri em meu post, eu passei por todas as fases com cocaína: a pessoa que odiava por algumas questões desde a infância, a pessoa que começou a achar glamuroso fazer uso esporádico e depois natural, até chegar no uso frequente e excessivo em uma fase que poderia ter me destruído. Por sorte, um dia boiando em um banho de cachoeira, consegui visualizar o caminho que estava seguindo, o sol bateu no meu corpo e decidi que não queria mais aquela nhaca na minha vida. Os primeiros meses foram bem sofridos, mas consegui sair dessa sozinha.

Eu acho que precisamos falar sobre emoções. Temos o hábito apenas de abordar o vício, os danos físicos e não a bagunça emocional que ela nos causa ou na qual estávamos para recorrermos a ela. Precisamos falar sobre o brilho que a droga nos tira dos olhos quando se torna frequente e sua diversão depende dela. Precisamos falar o quão difícil é lidar com o dia seguinte cheio de problemáticas junto a um desgaste físico gigantesco. E claro, abrir diálogo com coragem. Nenhuma marca quer vincular seu nome ao debate/redução e isso é um grande problema no avanço do diálogo. Isso com todas as drogas.

Não sou nenhuma careta, acho que mesmo velhinha estarei tomando um ácido em alguma praia especial ou em uma apresentação única, mas as emoções não resolvidas não são companheiras de nenhuma boa viagem. Se drogar para disfarçar emoções é buraco na certa. Ser livre e ter habilidade para ser dono do seu caminho é um dom. Nem todos possuem. Porém, tenho uma certeza absoluta: cocaína é uma merda e um mal recorrente!

Além do que, essa cocaína que circula no mercado, essa muleta barata que sai caro, nem cocaína é. Deveríamos assumir que ela é só uma mistura xexelenta qualquer que te estufa o peito, não dá barato, tira sua capacidade de fixar a atenção e depois te joga de um penhasco sem imunidade alguma. Mesmo a cocaína de uma pessoa que tinha acesso para algo melhor como eu. Cocaína está em todos os cantos, em todas as profissões, em todas as classes, em todos os estilos de música e é triste ver como ela se tornou tão habitual.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

A música é minha melhor amiga, dessa vida e de tantas outras. Ela me torna melhor todos os dias.

A MÚSICA CONECTA.

Foto capa: Bill Rainer


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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