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Alataj entrevista D.A.V.E. The Drummer

Alataj entrevista D.A.V.E. The Drummer

Por Stefano Cachiello

Em uma época onde parece que a imagem vale mais do que a música, ou até mesmo a história de um artista, a reflexão em valorizar aqueles que contribuem a tantos anos com o mercado nunca foi tão importante. São eles que, de certa forma, ajudaram a construir essa estrada que muitos percorrem hoje em dia e, mais do que isso, influenciam diretamente o atual e o futuro caminho da dance music num panorama global.

Perto de completar 30 anos de carreira de muita atitude e com uma discografia que ultrapassa mais de 300 músicas lançadas desde 1993 entre vinil e digital, Henry Cullen aka D.A.V.E. The Drummer se prepara para mais uma vinda ao Brasil, país onde tem uma história que está ligada diretamente com parte da evolução da “cena” undeground que existe hoje por aqui.

Com muitos nomes e labels surgindo no cenário mundial através da profissionalização dos bastidores, novos players, mídias e o avanço da tecnologia, tivemos o prazer de bater um papo exclusivo com Henry, passando pelo passado, presente e futuro​ deste que é um dos principais nomes da história do techno:

Alataj: Henry, primeiramente, muito obrigado pelo seu tempo e é um grande prazer para nós entrevistarmos uma lenda como você. De alguma forma, você ajudou a moldar a maioria das gerações que gostam de techno no Brasil desde os anos 2000. Hoje, depois de quase 20 anos e tantas gigs por aqui, o que você acha que é novo e positivo em nossa cena, produtores e eventos? Como você vê o seu relacionamento com o nosso país?

Henry Cullen aka D.A.V.E. The Drummer: Obrigado por me convidar para fazer a entrevista! Eu continuo adorando vir ao Brasil e tocar. Venho para o país desde 1998, era uma cena diferente, eu era muito mais jovem e algumas das minhas memórias e momentos mais loucos foram no Brasil. As primeiras festas como Rave Patrol e SP Groove foram o começo do meu amor por este país. Depois tive uma curta residência no Lov.e Club, a qual foi uma grande parte da minha vida.

Sempre haverá um lugar especial em meu coração para o povo e a cultura brasileira. O amor pela música e pela dança são incomparáveis a qualquer parte do mundo. A comida é na maior parte das vezes incrível. As ruas da cidade estão cheias de energia. Eu viajei por todo o país e vi muitos lugares diferentes do Brasil, não apenas São Paulo, mas outras áreas como Goiânia, Forteleza, Cuiabá e, claro, muitas áreas ao sul, como Curitiba e Florianópolis. Um país bonito, sem a parte dos problemas sociais, é claro, mas eu conheci muitas pessoas maravilhosas, é um dos meus lugares favoritos no mundo.

Como você enxerga esse “novo” movimento da música underground na Europa e no mundo que usa grande exposição na mídia via Facebook, Instagram e outras mídias sociais usadas pelos artistas para alcançar a fama e atrair novos seguidores?

Bom, é apenas a progressão da vida, não é? As mídias sociais estão dirigindo nossas vidas agora. Eu, particularmente, não gosto disso o tempo inteiro, mas não posso evitar porque é a natureza da indústria musical promover e vender imagem e estilo de vida, isso anda de mãos dadas com a música e sempre andou.

Acho que tento acompanhar. Eu faço minhas mídias sociais do meu próprio jeito, acredito que essa seja a maneira de fazer, não faço coisas apenas por “curtidas”. Falo o que eu acredito e gosto de conversar com pessoas com o pensamento parecido. Eu prefiro conversar sobre política e outras questões ao invés de “vender”, mas às vezes você tem que vender para se manter vivo.

Nós acompanhamos uma mudança em seus labels (Hydraulix, Apex e Mutate to Survive) em relação à estética de som de cada um nos últimos anos e lançamento de novos nomes. Como esse processo tem funcionado? Que planejamento você emprega na gestão das marcas?

Os labels são todos dirigidos por mim, embora eu receba ajuda de Pattrix na Mutate to Survive. Mudei de distribuidora há 4 anos e assinei com a Labelworx. Os caras estavam fazendo uma bagunça, as ilustrações estavam todas erradas, a masterização das faixas estava ruim, eles esqueciam de colocar os lançamentos na hora certa, então eu sempre errava na promo, foi muito frustrante

Mudei de distribuição, remasterizei a Hydraulix, fiz uma nova ilustração, a Apex funcionando e, finalmente, a Mutate to Survive, que havia se tornado extinta porque a Intergroove havia fechado. Depois comecei a pensar na direção musical. Eu queria estar em contato com os novos estilos do techno, diminuir os BPMs, mas não me afastar completamente dos estilos antigos. Foi difícil e os primeiros lançamentos talvez não tenham sido os melhores, mas eu aprendi novamente e fiquei muito feliz com os lançamentos mais recentes, acho que a Hydraulix e os outros labels estão encontrando um som próprio agora. Você tem que continuar aprendendo como artista. Aprendendo o tempo todo.

Com a quantidade de novas faixas surgindo a cada dia, podemos sentir uma queda significativa na qualidade e muitas delas têm um padrão questionável. O que você tem usado em seu processo de setup/produção e masterização? Você ainda usa todos os equipamentos analógicos? Qual a diferença e importância desse processo até você lançar sua faixa no mercado?

Eu uso uma mistura de analógico e digital. Vendi muitos sintetizadores analógicos alguns anos atrás e me arrependi. Comprei um par de sintetizadores que eu uso o tempo todo, um Sequential Circuits Pro One e um Moog Sub37. Além disso, é claro que eu tenho alguns outros bits antigos como o TB303 e o SH101. Minha antiga mesa Mackie estava ficando defeituosa, então eu comprei uma mesa digital Behringer X32, ela funciona muito bem para acompanhar sintetizadores ao vivo.

Uso o Ableton live 10 e muitos plug-ins, sou parte dos “Crashologists”, o time de testadores do Ableton Live 10, o que é divertido. Geralmente eu jogo tudo da X32 para o computador e trabalho “na caixa” para fazer a mixagem final. Mas adoro usar sintetizadores analógicos para criar meus sons, é muito mais divertido do que usar plug-ins.

A verdade é que não importa qual equipamento você usa, não sou esnobe, eu vi pessoas conseguindo ótimos resultados apenas com um laptop e fones de ouvido. Todas as coisas que você vê online sobre esses sistemas modulares enormes e caros, esses estúdios com milhares de dólares em equipamentos são excessivos para mim.

São apenas pessoas se exibindo. A maior parte é desnecessária. Sim, claro, equipamentos caros podem soar bem, isso é verdade. Mas você precisa saber como usá-los e nem sempre é a única solução. Tantas músicas boas foram feitas com equipamentos baratos. Tudo é possível, você só precisa usar seus ouvidos.

Como você se sente vendo headliners nos principais eventos do mundo tocando suas faixas de 10, até mesmo 20 anos? Por exemplo: Dax J tocando One Night in Hackney no Radioshow do Pete Tong na BBC1; Nina Kraviz tocando o primeiro lançamento 4×4 no Awakenings Eindhoven e SLAM tocando 26th Hours de Milanel na APEX no primeiro D-EDGE Festival:

// Relembre nossa entrevista com Nina Kraviz

Para ser sincero, acho ótimo. Estou mais do que feliz por ver que as pessoas ainda estão tocando as faixas antigas, eu mesmo ainda toco elas de vez em quando. É um grande elogio quando alguém como Dax J toca One Night in Hackney no rádio. O maior elogio é que ele não precisa fazer isso, ele poderia facilmente tocar outra coisa. Tudo o que posso dizer é “obrigado” a qualquer DJ que apoia a minha música.

PERC é outro exemplo de artista que tem dado suporte a você e fez um remix de sua faixa. Recentemente, no Twitter, ele disse que o que o deixa muito feliz é tocar o disco da Stay Up Forever no lendário Berghain, em Berlim. Como é o relacionamento com ele? Haverão mais colaborações no futuro ou é algo que acontece naturalmente?

Perc fez um remix para mim recentemente e recebi a mixagem final na semana passada. Então, será lançado nos próximos meses. Espero lançar em 12″ com o original do outro lado, além de MP3. Tem sido muito legal trabalhar com ele. Um cara muito legal, eu não o conheço pessoalmente, não nos encontramos ainda. Espero que possamos fazer isso em algum momento, ele parece alguém que está fazendo música pelas mesmas razões que eu.

// Relembre nossa entrevista com Perc

Na sua opinião, há algum preconceito com a estética da música que você faz ou você está apenas tomando uma posição de não querer se adaptar a uma condição de “negócio da música”?

Não sei bem o que você quer dizer para ser sincero, mas acho que você está perguntando se estou tentando ser aceito comercialmente. Bom, a resposta curta é não. A resposta um pouco mais longa é que todo mundo nessa indústria tem que se manter de alguma forma, então eu tenho o cuidado de tentar lançar coisas que eu acho que as pessoas realmente vão comprar. Dirijo as coisas de uma maneira comercial, anuncio e assim por diante. Mas eu não vejo como uma coisa ruim, apenas sou honesto e tento tirar o máximo proveito do meu trabalho duro. Esse ainda é 100% meu trabalho, tenho que ser pago de alguma forma.

Ano que vem o seu primeiro EP (“Ghosts” lançado pela Bag Rec. em 1994) fará 25 anos. Discogs mostra sua coleção de lançamentos desde esse período até os dias atuais. Como é olhar para trás e ver toda essa história? Você consegue medir a importância de sua contribuição para o mercado underground?

Engraçado, mas na verdade não foi o meu primeiro EP. Meu primeiro EP em 12‘’ foi uma faixa chamada ‘’Acid Hell’’ na RHR Records, mas só fiz um teste com ela, em 1993, o cara que estava dirigindo a gravadora desapareceu. Bag veio logo depois disso, meu primeiro EP lá foi The Clock, ‘’Ghosts’’ veio depois. Mas você estava bem perto.

Gosto de rever as minhas músicas, e às vezes escuto minhas músicas antigas, tenho orgulho de todo trabalho que fiz e consigo lembrar muito bem. Mas tento não ficar preso no passado. Também me canso de música rapidamente e gosto de coisas novas, então é importante para mim seguir em frente. No que diz respeito a minha contribuição para a música underground, eu não sei, sei que influenciou as pessoas e é uma sensação boa.

Quais são os maiores desafios para um artista depois de tantos anos no ramo? O que podemos esperar de desenvolvimentos futuros nos seus próximos passos

Acho que os maiores desafios para mim depois de estar no ramo por tanto tempo são apenas a idade e as responsabilidades familiares. Essas coisas mudam à medida que você envelhece e eu tenho que ser mais cuidadoso com o que faço, mais responsável com a minha saúde e pensar na minha família, assim como pensar sobre renda e tentar equilibrar a vida. Ser feliz é a coisa mais importante da vida, só consigo ser feliz quando sinto que minha vida tem propósito, então o maior desafio é estar feliz e saudável para aproveitar meu tempo como DJ e músico, porque se eu não estiver gostando, não há razão para continuar.

Desenvolvimentos futuros? Os selos continuarão até onde der, vou continuar tentando me conectar com artistas que eu sinto que estão no mesmo nível que eu, pessoalmente e artisticamente, pessoas as quais eu possa me relacionar. Também estou me concentrando em fazer algumas músicas para a TV, e alguns outros projetos mais privados que não estão relacionados com techno ou festas, que me permitem sair da estrada e relaxar um pouco mais em casa. Estou lentamente diminuindo o DJing. Um dia eu vou parar, só não sei quando vai ser.

Para finalizar, uma pergunta clássica do Alataj. O que a música representa em sua vida? (Aqui, Henry provavelmente entendeu uma música que represente sua vida)

Se eu tivesse que escolher uma música ou algo específico provavelmente seria eletrônico, algo de Orbital ou Aphex Twin, até mesmo coisas dos anos 80 como OMD ou Depeche Mode ou Kraftwerk, esses primeiros sons eletrônicos tiveram uma enorme influência em mim que continua até hoje. Embora eu ainda toque bateria em uma banda, eu amo reggae e dub, eu gosto muito de rock, funk e ska e todos os tipos de música. Mas pra ser sincero, a única coisa da qual eu sempre fui um grande fã é a música eletrônica, e principalmente o techno. Música favorita? Essa é uma pergunta impossível de responder.

A MÚSICA CONECTA.


Equipe de reação do portal Alataj, focada em levar conteúdo cultural ao público antenado na música eletrônica.

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