Alataj entrevista Dax J

Com o techno alcançando um patamar inédito em termos de audiência a nível global, é natural que haja mais espaço para artistas talentosos desempenharem papel de protagonista. Nos últimos anos, poucos nomes aproveitaram esse slot com tamanha eficiência quanto Dax J, DJ e produtor musical dono da gravadora Monnom Black, que conquistou o mundo após o lançamento de seu álbum Offending Public Morality.

Antes mesmo do lançamento do full lenght, Dax J já acumulava apresentações em boa parte dos principais clubs e festivais do circuito global. Após o release, ele passou ao posto de protagonista absoluto e um bom exemplo disso foi a sua estreia em São Paulo ano passado, quando era um dos artistas mais aguardados do DGTL. Somente entre os meses de abril e maio de 2019, Dax J fez mais de 20 shows em pelo menos 10 países diferentes — haja fôlego!

Em junho, ele retorna ao Brasil para tocar na Tantša, mais precisamente no dia 19. Esta será uma das maiores e mais imponentes edições da festa até aqui, que contará com quase 15 DJs, além de 3 performances se revezando na Fabriketa. Ainda no embalo de seu recente EP Chaos Come To Conquer e esquentando as turbinas para sua chegada ao Brasil, Dax J falou com exclusividade ao Alataj:

Alataj: Olá, Dax! Tudo bem? Obrigado por falar conosco. Berlim e Londres: certamente essas duas cidades possuem grande importância na sua formação artística. Como cada uma delas te impactou e influenciou ao longo dos anos?

Sim, duas das minhas cidades preferidas. Como um jovem adolescente na escola, cresci ouvindo as estações de rádio piratas de Londres e foi onde descobri a cultura rave. Isso trouxe minha base e educação musical que me definem hoje. Morar em Berlim nos últimos 5 anos teve muita influência na minha música. Tocar no Berghain frequentemente definitivamente me ajudou a crescer como DJ. O caldeirão cultural das duas cidades e minhas experiências foi o que criou o som que faço hoje.

Nos últimos anos você passou por muitos países levando sua mistura única de techno para pistas das mais diversas origens. O que essa intensa experiência de tour internacional trouxe de melhor para você do ponto de vista pessoal e profissional?

Poder viajar para novas cidades ao redor do mundo é um grande privilégio. Visitar lugares extremamente pobres também me transformou em alguém melhor, carrego muito mais empatia pelas pessoas. Quando toquei na Índia há 2 anos, fiquei atordoado e descrente por toda a pobreza que eu estava vendo, e me fez perceber novamente o quão sortudo eu sou, pois é fácil esquecer quando você está na sua bolha o tempo inteiro.

Comecei a doar todo mês para uma instituição de caridade para órfãos em Pune, a cidade em que toquei. Caridade é algo que eu nunca tinha considerado até aquela turnê e eu vi o quão pobres aquelas pessoas são. Percebi que é meu dever ajudar, fazer alguma coisa, especialmente por estar na posição em que estou agora.

Offending Public Morality pode ser considerado um marco em sua carreira. Como foi o processo de preparação profissional e pessoal para criação do álbum?

Foi bastante natural. Tive experiências e influências que eu quis documentar em um álbum, então teve razão e significado por trás. Foi mais do que apenas a música para mim, isso foi o que tornou importante e deu um toque pessoal.

Como líder da Monnom Black, como você enxerga e avalia as transformações do techno enquanto business nas últimas temporadas. Quais são as principais dificuldades enfrentadas para se manter um label ativo e relevante?

A parte mais difícil de ter um selo é encontrar as músicas certas, pois sou muito exigente com o que eu lanço. Em 6 anos, tive apenas 20 lançamentos no selo, para mim, é tudo sobre qualidade acima de quantidade. Em relação a indústria da música, acho que a comercialização estará sempre ao redor de qualquer cena musical, a parte boa disso é que mais pessoas podem descobrir a música, cavar mais fundo e encontrar a cena mais underground. Cabe aos artistas manter o verdadeiro espírito vivo, essa é uma responsabilidade que eu levo muito a sério.

Certamente você já criou muitos contatos e viveu experiências maravilhosas discotecando pelo mundo. Poderia compartilha algumas delas conosco?

Isso talvez pareça meio louco, mas tive uma experiência recentemente durante um set. Estava tocando no Bassiani, sem dúvidas, o meu club favorito no mundo. Acabei tocando por 8 horas, não conseguia parar. Por volta das 7 horas de set, lembro de ter olhado para o teto, em meio a escuridão das luzes vermelhas, brilhando através da neblina e fumaça, as luzes estavam se apagando bem devagar. Eu conseguia ver as silhuetas de um espaço cheio na minha frente, as pessoas estavam completamente comigo nessa jornada, eu não precisava mais pensar nas faixas, eu estava em estado de fluxo completo.

Lembro que estava sentindo a música profundamente, o espaço não parecia mais real, senti como se tivesse sido transportado para um universo paralelo. Não estava mais nessa realidade. Tive a sensação de que assim é a vida após a morte. Foi como se eu estivesse vendo um portal, naquele momento, foi tão eufórico. Eu estava pensando “uau, isso é incrível! Quando eu morrer, é isso que vai acontecer, sem noção de tempo, apenas uma batida hipnótica universal, total felicidade e liberdade”. Eu estava tão feliz, parecia que estava em um sonho, a atmosfera perfeita de energia sonora e tribal.

Eu estava completamente sóbrio, mas senti que estava totalmente alucinado. Nunca tinha experimentado sentimentos como esses enquanto tocava, foi um momento lindo. É meu trabalho transcender as pistas de dança, mas nessa ocasião acho que eu transcendi. Isso me lembrou o quão importante é ter som, iluminação e estética perfeita dentro de um clube, leva a experiência a outro nível. Quando você faz long sets em clubes especiais, misturados com falta de sono, pode enganar o cérebro, acho que quase perdi a cabeça naquela manhã.

Dax, ano passado você esteve no Brasil tocando para uma multidão eufórica no DGTL e agora retorna para Tantša, um dos destaques do atual underground brasileiro. Como você observou o público de São Paulo nessa última passagem e qual a expectativa em torno deste retorno?

Sim, DGTL foi extremamente especial. O público de São Paulo foi incrível, muita paixão e energia. Espero que seja ainda melhor esse ano, pois sei que a cena techno de São Paulo está crescendo a cada ano, então mal posso esperar para voltar e conferir!

Percebo que você é um artista com poucos remixes lançados. Há alguma razão para isso?

Hoje em dia, tempo é um grande fator. Geralmente estou focado em tentar terminar minhas próprias faixas, então fazer remixes é difícil, porque passo muito tempo viajando. Não vou me comprometer com um remix a menos que eu tenha uma ideia.Todas as vezes que remixei uma faixa sem nenhuma ideia, acabei enviando uma faixa original, porque nunca gostei das partes do remix, estava apenas fazendo favores para amigos ou algo do tipo. Depois eu pensava comigo mesmo, por que estou enviando essa faixa como remix? Prefiro apenas lançar como uma faixa original. Isso costumava me deixar frustrado. Então, geralmente, não faço remixes por causa disso.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

É a minha vida. É tudo o que faço, desde o momento que acordo até o momento em que vou dormir. Pode ser um peso às vezes, porque é difícil relaxar totalmente, estou sempre pensando em música, sobre meus equipamentos no estúdio, procurando por novos discos, pensando sobre projetos que quero terminar, projetos que quero começar, pensando no label, procurando por artistas, nunca para. Mas ao mesmo tempo, gosto muito disso, então sei que sou muito sortudo por me sentir dessa forma com o meu trabalho.

A música conecta.

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Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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