Texto por Chico Cornejo

DJ Bone é uma cria das mais singulares e características de Detroit. E olhem que falar de alguém oriundo desta cidade de uma forma tão grandiloquente pode dar a impressão de ser exagero, mas no caso deste exímio DJ e tão autêntico produtor, não cabe nada de excesso. Ele é um pupilo dos mais talentosos de Juan Atkins e sua escola do electro funkeado tão associada à identidade musical da cidade é justamente sua herança cultural mais futurista, fruto de uma época em que a arte e o escapismo eram sinônimo de sanidade e bem-estar, mesmo que momentâneo, para os jovens desta região tão judiada pelas circunstâncias históricas.

Porém, ao conhecermos sua música e sua personalidade, vemos bem como ele não apenas sobreviveu, mas também vicejou, não apenas na metrópole, como também num vasto e farto cenário artístico mundial no qual navega com vigor. Tocando em diversas pistas pelo globo, conduzindo seu já lendário selo Subject Detroit ou se metamorfoseando em projetos como já aclamado Differ-Ent, ele sempre granjeia o destaque reservado aos seus grandes conterrâneos. Bone chega a São Paulo no dia 30 de setembro como o principal integrante do time que vai comandar as celebrações de 10 anos do Dekmantel em uma turnê que percorrerá a América do Sul. De forma exclusiva, falamos com ele:

Um DJ entretém.
Um DJ bom move a multidão.
Um DJ ótimo tem habilidades e pode criar energia com músicas incríveis.
E um DJ Famoso… adora a fama.”

1 – Olá, Bone! Tudo bem? É uma grande honra poder falar com você. Você é um dos caras que acompanhou de perto todas as transformações que o mercado sofreu nas últimas décadas, certo? É possível dizer que nesse período, os conceitos de underground e mainstream se aproximaram muito? Ao que você creditaria isso?

Acho que é bom saber o máximo possível sobre a indústria em que você está inserido, mesmo as partes que não são necessariamente atraentes para você ou para o seu lado criativo. Isso ajuda a adquirir conhecimento, até mesmo sobre as coisas que você discorda. Eu chamo de “fazer minha lição de casa”. Eu definitivamente acho que a linha entre esses dois mundos está misturada nos últimos anos. Diria que é devido, principalmente, à superexposição da música eletrônica na mídia e a necessidade das pessoas de uma atenção constante e imediata nas redes sociais. Isso fechou um pouco o espaço entre os dois mundos.

2 – Qual é o segredo para conduzir um trabalho artisticamente forte e ainda assim com apelo frente a diferentes públicos?

Mesmo que a linha mainstream e underground esteja misturada, para mim sempre foi muito definitivo. Underground encontra-se dentro do artista e sua arte. Então, mesmo que seja exibido ou tocado em uma arena comercial, desde que não haja comercialismo envolvido no processo criativo e o artista não se apresente de forma comercial, está tudo bem. Mas somente se o artista mantiver a ética e a moral do trabalho underground. Sou sempre eu mesmo, a cada segundo de cada dia, então, desde que eu me mantenha fiel a mim mesmo e minha arte com o mesmo ethos underground, estarei bem. Funcionou para mim desde o primeiro dia.

3 – É possível identificar que você carrega a verdadeira essência do DJing em suas apresentações, sempre preocupado em oferecer um algo a mais para o ouvinte. Na sua opinião, a discotecagem tem caminhado para um caminho simples demais nos últimos anos? O que separa um bom DJ dos demais?

Atualmente muitos DJs e produtores acham que é tudo sobre ser famoso e mendigar online o maior número de likes possível. Muitos também dependem fortemente de estilistas, sessões de fotos e empresas de relações públicas.

Essa mentalidade criou um estado super delirante onde um bando de “DJs” vivem agora. Infelizmente, muitos deles pensam que este é o caminho. Então, agora temos um monte de torcedores, dançarinos e interpretes atrás dos decks. A música e a energia me motivam, a adoração não. Não tenho nada contra a maioria dos que agem atrás dos decks, se esse é o estilo deles, mas não é para mim. Se o DJ está dançando mais do que o público, algo está errado.

Um DJ entretém.
Um DJ bom move a multidão.
Um DJ ótimo tem habilidades e pode criar energia com músicas incríveis.
E um DJ Famoso… adora a fama.

4 – Em sua bio você cita que tocar é um ato de diversão não só para o público, mas para você também. Após tantos shows em diversas partes do mundo, o que te mantem plenamente motivado para seguir subindo no palco e entregando seu melhor?

A música e os amantes da música me mantem motivado. Eu também estou gostando bastante do fato de que mais jovens estão apreciando os meus sets, Subject Detroit e The Underground. A música em si e ser criativo no meu processo de entrega como DJ me mantém perpetuamente fascinado, então quero continuar levantando a barra com o que é possível criativamente. Se eu tocar agora o mesmo que eu tocava quando comecei, me sinto como se não tivesse progredido. Não me visto igual ou dirijo o mesmo carro de 20 anos atrás.

 

5 – Inegavelmente, Detroit e toda cultura musical que ronda a cidade possuem um significado especial para dance music. Você sente que tudo o que aconteceu por lá era algo como “as pessoas certas, no lugar certo” ou realmente há uma magia em torno da cidade que não possibilitaria que isso tivesse acontecido em outro local?

Houve um período mágico em Detroit que gerou o Detroit techno e o movimento techno, carregando-o desde então. As áreas desoladas, as festas undergrounds, crime, Electryfying Mojo, equipamentos baratos para o estúdio, arte, The Scene (um show de dança local mostrado na TV) e a vida dura em geral, tudo combinado para criar um ambiente elétrico e inspirador. Há muitas outras coisas que eu poderia mencionar. Foi realmente a cidade que tornou isso possível. Foi muito mais do que as pessoas certas no lugar certo.

6 – Em uma recente entrevista, você cita que a música sempre foi muito importante para dar vazão a suas emoções e experiências. Sendo assim, é possível dizer que alguns de seus trabalhos são reflexos de sua alma?

Sim, isso faz todo sentido. Eu jamais entro no estúdio como DJ Bone a não ser que tenha algum tipo de emoção ou situação que queira transmitir. Esta é minha terapia, minha via de escape. Cada faixa descreve uma parte da minha vida e, juntas, elas compõem a trilha sonora disso tudo.

7 – Quão importante pra você tem sido colaborar com a crew Dekmantel? Quais são suas expectativas em torno dessa tour sul-americana?

O Dekmantel é um dos meus festivais prediletos, ainda que tenha tocado nele apenas uma vez. Eu o adoro porque consigo passar três dias inteiros apreciando DJs e artistas cuja música eu respeito. Sendo tão ocupado eu não tenho esse luxo sempre. Isso também me permite pôr os assuntos em dia com meus irmãos de Detroit já que eles usualmente convocam uma escalação bem centrada na minha cidade natal.

Era inevitável que trabalhássemos juntos. Cultivo um imenso respeito pelo coletivo Dekmantel já há anos e admiro como eles conseguiram crescer organicamente enquanto mantiveram seu público numa quantidade limitada. Creio que esta turnê vai levar uma dose bem-vinda de techno e house bem funky à América do Sul. Vai ser minha primeira vez por lá e estou bastante empolgado para manter essa energia rolando.

8 – Percebo que família é um assunto muito importante para você, certo? Sendo assim, quão difícil é para um DJ disputado como você, equilibrar uma agenda de trabalho e compromissos pessoais? Há uma “fórmula” para fazer isso funcionar?

[risos] Sim, sempre foi complicado mas hoje em dia ficou um pouco mais fácil. Já paguei meus pecados e recusei bastante contratações em prol da minha família e vida pessoal. Mas foi sempre necessário e me ajudou imensamente. Quando na estrada, eu sempre me planejo para estar de volta em casa todo domingo à noite a fim de poder levar minha filha à escola toda segunda pela manhã. Isto significou muito para mim e para ela.

Não há fórmula a não ser “família vem primeiro”. Sempre fui muito confiante em meus talentos, então jamais me preocupei em sumir do radar ou recusar gigs. Ao fim e ao cabo, isso me fortalece e também serviu para provar que minha carreira tem longevidade. Ela nunca dependeu das redes sociais, já que eu estava percorrendo o mundo bem antes delas existirem

9 – Como você é um grande pesquisador e entusiasta musical, eu não poderia deixar de fazer essa pergunta. Quais são seus 5 discos preferidos de todos os tempos?

Não-Techno:
Stevie Wonder – Songs in the key of life
Prince – 1999
Prince – Around the world in a day
Public Enemy – Yo, Bum
Rush the show
The Drifters – Live at Harvard University

Techno:
UR – Amazon
Rhythim is Rhythim – Strings of life
A Guy Called Gerald – Tranquility On Phobos
Octave One – I Believe
Cybotron – Cosmic cars

10 – Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

A música e meu santuário. Me ajudou a me tornar o homem e ser espiritual que sou hoje. Ela me permitiu comunicar com pessoas de todas as partes do mundo que não falam o mesmo idioma que eu. Me levou ao redor do globo e me abriu portas para novas possibilidades. Me deu lições, me ajudou a crescer e aprimorar meu espírito. Ela me abençoa e me salva todo dia. O Aaron Carl (R.I.P.) cantou isso com eloquência: ‘Music is life…Life is Music. It’s all underground in my house.’

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A música conecta as pessoas!