Acreditamos muito no poder da união do design com a música. Aqui mesmo no Alataj, já lançamos uma matéria falando sobre 5 gravadoras que possuem uma identidade visual impecável. Entre elas, citamos a badalada Hot Creations, dos mestres Jamie Jones e Lee Foss.

De bobeira na internet, encontramos a figura de Mikey Brayn, o grande artista por trás daquelas capas hipnotizantes. Ficamos muito felizes com o “sim” de Mikey para nossa entrevista. Ele nos falou sobre seu começo em Birmingham, a influência do grafiti e como seu trabalho chegou até a Hot Creations.

Abaixo você confere como foi esse bate papo e também pode relembrar algumas de suas mais belas obras.

1 – Olá Mikey! É um prazer falar com você. Em sua bio você cita a influência do grafiti na sua formação. Foi nessa arte seu primeiro contato com a produção artística?

Eu pintei desde criança, sempre rabiscando e desenhando em algum lugar. Quando eu era mais novo, meu irmão desenhava muito bem então eu comecei a olhar o que ele fazia. Com mais ou menos 14 anos, comecei a grafitar, aos 17 eu já estava trabalhando a pintura no estúdio, mas a influência grafiti sempre ficou comigo e até hoje continua a me inspirar. Minha cidade natal, Birmingham tem um cena de grafiti muito evoluída, foi um ótimo lugar para um jovem criativo crescer.

2 – Os grandes artistas dizem que se manter permanentemente inspirado é um dos maiores desafios para seguir trabalhando em alto nível. Quais são suas principais fontes de inspiração no cotidiano? A cidade, as pessoas, a natureza?

Eu vejo o mundo como um Teste de Rorschach gigante. Encontro inspirações e formas nas individualidades estranhas e maravilhosas da vida. Uma cerca manchada pode saltar para fora da imaginação e se transformar em personagens vivos, padrões da natureza podem dar ideias para novas formas e o design e arquitetura da cidade pode se tornar um rosto ou a base para uma ideia. Eu enxergo a cidade, as pessoas, a natureza e a cultura popular como algo realmente inspirador.

3 – Você transformou a identidade visual da Hot Creations e hoje a label é reconhecidamente uma das melhores do mundo nesse aspecto. Como surgiu o convite para trabalhar lá e como isso mudou sua carreira?

Eu conheci o Jamie Jones há 10 anos atrás através de Adam Shelton, que costumava ir na casa de Jamie e em suas festa “DJ’s can’t dance” no East London. Eu e Jones acabamos perdendo o contato por alguns anos até que nos encontramos novamente em uma after party da Paradise, em Ibiza. Poucos meses depois ele visitou o meu site, entrou em contato e perguntou se eu queria fazer 5 EP’s para a gravadora. Desde então, eu tenho trabalhado com eles.

Meu trabalho ficou muito mais conhecido desde que comecei a desenhar as capas da Hot Creations. Eu sou muito grato a ela por ter tornado minha arte acessível a um público de massa.

4 – Em suas obras, você aborda assuntos como a violência, sexo e a fé. Em geral, esses temas sofrem um tabu das grandes massas. Na sua visão, qual a importância de retratar esses assuntos?

Um monte das minhas ilustrações “não comerciais” e os projetos pessoais exploram esses temas mais fortes e escuros (assim como temas mais positivos como a união, o amor e a fé). A própria noção de tabu é algo construído socialmente. Devemos ser livres para explorar essas questões atemporais que são familiares até para a mais antiga das tribos. Esses temas, porém, não se traduzem bem comercialmente, portanto no que diz respeito a trabalho, como a Hot Creations por exemplo, me aproximo mais de jobs que envolvem referências visuais para as faixas de cada release. A sensação que a música causa é algo inspirador também.

5 – Essa é uma pergunta que pode soar clichê, mas é importante para sabermos. Quais são suas grandes referências artísticas?

Eu amo pintura do século XX. Devido a introdução da câmera no século XIX, a pintura do século XX foi definida pela multiplicidade de diferentes estilos e movimentos. Como arte moderna, isso fez explodir um crescimento exponencial na criatividade de artistas que empurraram seus limites de composição para além. Pintores como Wassily Kandinsky, Paul Klee, Francis Bacon, Gustav Klimt, Jean-Michel Basquiat, Keith Haring e o ilustrador Ralph Steadman me influenciaram bastante. Eu também tenho muitas influências do grafiti e da arte de rua moderna. A maior parte do meu trabalho para Hot Creations tem referências Sci-Fi.

6 – Além de seu trabalho com a Hot Creations, há alguma outra oportunidade em que você trabalhou em algo que tenha a ver com música? Se sim, qual?

Eu tenho a sorte de ter um grupo de amigos que trabalha dentro da cultura house music, portanto eu já realizei alguns trabalhos para a cena. As minhas primeiras exposições foram no Rainbow Club em Birmingham (palco da festa Below, aos domingos). Eu também trabalhei com meu amigo e colega Nicolas Dixon como ‘DickBrain Collective’, exibimos no lendário Leeds club Back 2 Basics há cerca de 5 anos atrás. Ano passado passei muito tempo em Ibiza, era residente no programa TV show Ibiza Uncut, pintava murais ao vivo no DC10 para Paradise e também no Destino Pacha resort. Eu também fiz outras capas de EP para uma gama de artistas como Oddience (grupo de hip hop de Los Angeles) e ´PBR Streetgang, no Reino Unido. Poder pintar dentro do universo da house music é incrível, pois é onde duas das minhas grandes paixões se encontram.

7 – Para encerrar, dentre as capas que você já desenhou para a Hot Creations, qual foi a mais inspiradora até hoje?

Eu tenho um par de favoritos. Eu adoro o ‘Boxed Off’ do Patrick Topping. Ele tem uma referência sutil em Picasso (a mulher chorando) e é uma representação visual de alguém se sentindo “fora de sua caixa”. Eu também gosto muito da capa que desenhei para Brigante e Luca C ft Roisin Murphy, chamada Invisions. Me agrada o conceito gracioso e alucinatório de borboletas que formam a afro.

Muito obrigado pela oportunidade de compartilhar o meu trabalho.