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“Eu amo todos que estão na pista.” Um ...

“Eu amo todos que estão na pista.” Um bate-papo incrível com Butch

Butch, DJ e produtor de origem turca com residência atual na Alemanha, tem uma página no Discogs tão longa que chega a ser confusa. Ele já colaborou com Ricardo Vilallobos como ButRic, já tocou em algumas das maiores e mais importantes baladas do mundo e consegue equilibrar um flow constante de produção e releases, com turnês e performances. O motivo para tanta determinação e foco no trabalho é nítido quando se conversa com ele, pessoa apaixonada por outras pessoas, ele acha fascinante o que a música desperta na alma e a liberdade que existe na pista. Esse mês o Brasil novamente poderá checar um pouco da experiência que é vê-lo em ação, no D-Edge e Terrazza. Conversamos com o artista sobre a troca de energia que rola entre a cabine e a pista em solo brasileiro, suas experiências passadas como residente da Watergate, seu último release e mais. Confira!

1- Olá Butch, muito obrigado por falar conosco! Sabemos que você vai tocar na D-EDGE e no Terrazza durante sua turnê brasileira. O que está deixando você mais animado?

Dançar e dividir uma experiência incrível com vocês, sem dúvidas. Eu tenho algumas faixas especiais que estou bem animado para soltar na pista – e daí me juntar a todas as pessoas rebolando!

2- O que tem de diferente no publico brasileiro para você? Como é a experiência de tocar no Brasil?

Olha, sempre que eu venho para o Brasil as pessoas parecem muito mais abertas e menos envergonhadas do que em casa. Vocês realmente tem a festa dentro de vocês e é uma honra poder dividir isso com o público. Festejar e ter momentos incríveis parece fazer parte do cotidiano do brasileiro, eu me sinto mais vivo quando estou com vocês.

3- Como foi ter uma residência na Watergate? É uma conquista extraordinária.

Eu lembro que a primeira vez que toquei lá eu me senti como se tivesse 12 anos de novo, quando eu comecei a arranhar alguns discos na sala de estar da minha mãe. Watergate é uma das melhores baladas do mundo, sem dúvidas, e é incrível ter tido a oportunidade de tocar lá e me conectar com aquelas pessoas.

4- Eu acabei de escutar seu novo single, Jack the System, lançado pela label Tuskegee, do The Martinez Brothers e Seth Troxler. Nós publicamos, aqui no Alataj, uma matéria sobre os irmãos Martinez algumas semanas atrás e falamos muito sobre esse projeto incrível que eles tem com Troxler. Como foi a experiência de lançar um single com eles? Eles falam sobre as implicações sociais da gravadora em algum momento do processo criativo?

Eu cresci em uma área da minha cidade aonde as pessoas de classe mais baixa moravam, sem meu pai e sou de origem turca. Os turcos são frequentemente vistos como exclusos sociais na Alemanha, e senti isso na pele enquanto eu estava crescendo. A história da Tuskegee é muito envolvente e estou muito feliz de poder fazer parte da história da gravadora, porque além de lançar música ótima também atrai atenção para o quão real o racismo tem sido com o passar de cada ano. Eu realmente amo o Seth e os Martinez. Tenho o maior respeito do mundo por eles como artistas e muito amor por eles como pessoas. Sei como a Tuskegee é e com o que ela lida e eles nunca me falaram o que fazer e como fazer em nenhum momento, eles são artistas também e nunca desrespeitariam outro artista dessa forma. Todos nós queremos ter uma experiência positiva enquanto estamos nesse planeta. Não vamos perder tempo tendo medo de outras pessoas, somente porque elas são diferentes de nós.

5- Como você definiria seu som? Eu gosto muito de fazer essa pergunta, porque eu sinto que hoje em dia as linhas entre techno, house e deep house estão muito finas e os melhores DJs, como você, estão brincando muito entre estilos.

[risos] Por mais que você goste muito de fazer a pergunta, eu sempre acho muito difícil de responder a mesma. Para mim é simplesmente natural. Veja bem, eu comecei a produzir música diariamente 7 anos antes de eu lançar um álbum. Naquela época eu era influenciado por estilos diferentes, desde o hip hop até pop e claro house e techno, mas também bandas como System of a Down. Então eu vejo eu mesmo como uma mistura de todas essas influências e tento expressar o que eu sinto de cada estilo e também criar algo que seja meu, o que é único para minha mistura pessoal. Não é uma escolha consciente tipo: “ah eu preciso fazer uma faixa de house agora, porque eu acabei de fazer uma de techno”, mas mais o que vem para mim naturalmente no momento. Vendo que eu faço música todo dia que eu não estou viajando, músicas diferentes aparecem em dias diferentes.

6- Eu amo essa citação do seu perfil no Resident Advisor: “Eu gosto de fazer as pessoas dançarem e se divertirem. Eu sou o capitão da nave espacial e estou dirigindo. As pessoas que veem para o show, entram na nave – e eu as levo em uma viagem. Para entrar na mesma, eles deixam seu corpo físico na porta. Você precisa se desligar do mundo real e desligar sua mente. Eu faço o resto.” Você pode me falar mais sobre a capacidade de viagem da mente que a música pode induzir no público? Existe um senso de responsabilidade conectado ao seu papel de capitão da nave?

Claro, se o capitão está muito bêbado, a nave inteira entra em colapso. Se o capitão está desconectado, é uma jornada entediante. Existe uma responsabilidade enorme e eu acho que para aceitar essa responsabilidade você precisa amar as pessoas com quem você está dividindo essa viagem. Eu amo todos que estão na pista, das pessoas que estão atrás do bar, até os caras “bacanas” lá no canto que não dançam, e as pessoas que estão se jogando na dança. Eu amo todos eles e é por isso que eu aproveito a viagem tanto assim, porque experiências são muito mais significativas quando você as divide com pessoas maravilhosas. Essa conexão é o que todos nós podemos sentir e é a melhor jornada que eu conheço na minha vida.

7- Sua página no Discogs faz com que eu, que trabalho com isso, me sentir confusa. Tem simplesmente MUITA coisa lá. Como você consegue balancear entre produzir e tocar ao redor do mundo?

[risos] Balancear é uma ótima palavra. Eu não acho que eu seja muito bom nisso, mas estou melhorando. Como eu disse, eu simplesmente faço música todo dia quando não estou viajando. Toda manhã eu vou para o estúdio, toda noite eu volto para casa e durmo. Realmente sou a pessoa que mais dá duro no business. Não porque eu sou tão “foda” de passar o dia inteiro na frente de um computador sozinho, mas porque eu sei que é isso que eu tenho que fazer, meu impulso vem de dentro, eu não posso controlar, se eu perco um dia sem fazer música, o que quase nunca acontece – mas já aconteceu – esses dias são os piores. Eu me sinto muito off e honestamente até meio doente. Eu simplesmente preciso fazer música todo dia para minha saúde e sanidade.

8- Com o que você está trabalhando no momento?

Eu acabei de voltar a usar meu Moog Voyager. Eu sempre uso meu Mac e meu MPC e o resto eu alterno. Eu não tenho um estúdio grande, então eu guardo minha parafernália aonde eu moro, a não ser um ou outro instrumento que eu deixo fixo. Dessa forma eu garanto que eu realmente faço uso do que eu tenho e não só entro no modo automático usando o mesmo instrumento de novo e de novo.

9- Aonde você se vê daqui 5 anos?

Eu não tenho um grande plano, sabe, eu só to fazendo a minha música e está funcionando para mim. Tudo está se desenvolvendo de uma forma agradável, então só quero continuar indo.

A música conecta as pessoas! 


Georgia Kirilov é estudante de jornalismo e história da arte e acredita que criar é um ato político. Escreve sobre as nuances e sutilezas no caleidoscópio da música eletrônica sempre colocando-o em paralelo com o contexto social e político dos locais por onde passa e explora.

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