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Alataj entrevista Exequiel

Alataj entrevista Exequiel

Se há algo muito forte na música, seja lá qual for o estilo, com certeza é o poder de união que ela possui. Historicamente alimentamos uma certa rivalidade com nossos hermanos argentinos [principalmente no futebol], mas claramente na música não há espaço para esse tipo de rixa. DJs como Hernan Cattaneo, Barem, Guti e muitos outros são a prova de que o público brasileiro não liga para as cores da bandeira quando o som que chega aos ouvidos e o que realmente está em voga é a qualidade do trabalho artístico e a integração na pista. 

Trilhando o mesmo caminho destes grandes artistas argentinos temos Exequiel, um DJ e produtor de house/deep house que já conhece muito bem nosso país e tem extrema familiaridade com a cultura da música eletrônica nacional. Por alguns anos ele trabalhou intensamente como parte da crew D-EDGE e teve contato com muitas das características peculiares que o Brasil pode oferecer de melhor musicalmente. Hoje Exequiel é líder de projetos como KATZ, EKO, Gare e Akolonia, marcas que acompanham sua movimentada carreira artística.

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Para potencializar ainda mais seu excelente trabalho, estão programados para os próximos meses dois lançamentos por diferentes gravadoras, um EP pela Radiola Records, que contará com um remix exclusivo de DJ Mau Mau, e outro EP com três faixas originais para a gravadora Costaluz, label recente que aposta em uma curadoria apurada para impulsionar a house music no mercado nacional. Enquanto esquentamos nossos ouvidos antes dos lançamentos virem à tona, trouxemos uma entrevista quentinha acompanhada do novo podcast assinado por Exequiel. Confira abaixo:

Alataj: Olá, Exequiel! Tudo bem? Obrigado por falar conosco. Você é nascido na Argentina mas já soma anos de experiência frente as pistas brasileiras. O que você destaca de mais positivo de seu relacionamento com a cena do nosso país?

Exequiel: Sim, já se passaram 15 anos da minha primeira vinda ao Brasil, 6 anos morando aqui direto, sou praticamente um paulista [risos]. São muitos os pontos positivos que destaco da cena brasileira, a qual eu particularmente adoro. Temos muitos artistas de alto nível e um público fiel que lota clubes, festas e festivais, além de uma quantidade enorme de espaços urbanos e naturais que servem de cenário perfeito para os eventos. Com certeza está na hora do governo ter um olhar mais estratégico com a nossa cena, apoiando quem está afim de investir e desburocratizando, isso com certeza iria fomentar o turismo de entretenimento no pais e consequentemente estimular a economia. Há muitos países que vem praticando este tipo de politica e de uma forma geral tem funcionado muito bem.

Sabemos que de um tempo pra cá você tem intensificado seu trabalho de estúdio, não é mesmo? Como tem sido desenvolver esse seu lado produtor? Quais tem sido os principais desafios que você tem buscado superar diariamente?

Sim, tenho-me internado no estúdio nestes últimos dois anos, produzindo uma média de 8 horas por dia. Nada melhor que a continuidade e a pratica para conseguir a evolução. Por sorte, cheguei ao resultado esperado e vou começar a lançar tudo neste ano. A meta é ter um lançamento por mês entre EPs, edits e remixes.

Tem sido muito bom desenvolver meu lado produtor. Gosto muito de passar horas e horas no estúdio, realmente é viciante para mim… é um desafio diário de não cair numa rotina e estancar no mesmo loop, por isso trabalho em vários projetos ao mesmo tempo, sempre pesquisando coisas novas e descobrindo coisas antigas, procurando diferentes workflows, utilizando maquina analógicas, plug-ins, ripando e sampleando vários discos antigos. Procuro ter varias dinâmicas diferentes para chegar ao mesmo resultado que é: música para pista.

Você ficou como residente do D-EDGE durante muitos anos e certamente conseguiu absorver aprendizados importantes em torno dessa função. Na sua visão, o que um DJ precisa fazer para executar bem tal papel junto a seu club?

Sim com certeza o D-EDGE foi uma pós-graduação para mim. Foram vários anos atuando em diferentes frentes dentro do club, sendo um dos poucos residentes quinzenais de duas noites totalmente diferentes. De um lado a elegante Freak Chic, noite de sexta do club direcionada ao house e disco music. Do outro, Superafter, um dos afters-hours mais tradicionais da cidade, onde tocava um techno mais hipnótico.

Isso me deu uma versatilidade que me facilita bastante transitar entre os dois gêneros. Na minha visão, este é um dos pontos chaves para um bom residente, ele tem que se adaptar a noite e ao horário no qual toca, tendo uma leitura afinada da pista, entendendo o que o público quer e respeitando os horários e fases do club. Por exemplo: não adianta fazer um warm up e tocar mais pesado do que a atração principal… um bom residente sabe se adaptar e sabe entender que as vezes vai ser headliner e as vezes vai ser warm up.

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Muito tem se falado sobre o “neocolonialismo” na cena sul americana, mas pouco se incentiva a integração entre as cenas do nosso continente. Na sua opinião, o que falta para termos uma América do Sul mais unida na dance music?

Na minha opinião, falta muito para termos uma cena latina integrada. Há muitos bons artistas argentinos que não vem tocar no Brasil e a mesma coisa ao contrario. Um dos motivos disso acontecer é a falta de incentivo dos governos. Não existe nenhum tipo de ação que facilite ou incentive o fluxo de artistas, empresários e produtores de eventos entre os países da América do Sul. Toda iniciativa que vejo é própria de cada núcleo ou artista.

O Brasil por ser um pais tão grande, acaba que os produtores de eventos locais focam no mercado nacional na hora de dividir bookings internacionais, pois a logística interna acaba saindo mais em conta na maiorias das vezes. Estou indo em março para tocar na Argentina e aproveitar para fazer reuniões com núcleos e artistas do país em procura de uma interação maior entre as duas cenas.

O povo argentino como um todo é bastante passional e esse sentimento se traduz na música também. Particularmente, você enxerga diferenças na forma como brasileiros e argentinos interpretam house/techno na pista?

Acho que todo latino é passional, cada um do seu jeito, mas todos somos sangre caliente! A galera da Argentina dança muito, se joga na pista, gosta mesmo da música, adoro a cena dela que é bem diferente que a daqui, mais focada em clubes e bares. Lá nunca houve esse boom de festas que teve no Brasil nestes últimos anos… é bem peculiar e interessante este movimento principalmente na cidade de São Paulo.

Quais são seus principais planos e projetos em desenvolvimento para 2019?

Meu principal projeto para 2019 é o AKOLONIA, espaço criativo e artístico que promove o desenvolvimento sustentável da cena eletrônica por meio de, cursos, workshop e rádio, e que conta com dois estúdios, um de discotecagem que possui apoio da Pioneer DJ Brasil, e outro de produção musical, ambos feitos pela Acústica Design. O espaço também dispõe de uma sala para workshops, uma outra para coworking e uma área de lazer com jardim e piscina! Aqui oferecemos cursos e workshops para DJs e produtores musicais, com intuito de profissionalizar cada vez mais a cena local.

Relacionado as festas, estamos a todo vapor também, a EKØ neste ano terá de 4 a 6 edições, Nos Trilhos, já estamos trabalhando nos bookings internacionais e em breve divulgaremos. A KATZ após quase um ano de residência nos rooftops do Tokyo e do Bar de cima, se tornou independente em busca de crescimento e a primeira edição em novo formato será uma pool party para 400 pessoas no dia 31.03 em São Paulo com o Phillip (Fatnotronic).

Como produtor, estou trabalhando em lançamentos por labels e portais como Radiola Records, Costaluz, Electronic Groove e aqui mesmo no Alataj, como parte da série Challenge.

Para finalizar, gostaria que você indicasse pra gente seus 5 artistas preferidos do momento. Quais nomes figuram nessa lista? Obrigado!

Bicep, Tiga, The Black Madona, Honey Dijon e Peggy Gou. São os 5 nomes que mais me inspiram. Todos eles trabalham muito bem o 360 da vida de um artista da música eletrônica, estúdio/lançamentos, discotecagem/gigs e imagem/marcas, gerando o que todo artista precisa para viver: fãs!

Obrigado a vocês pelo bate-papo!

A música conecta.

 


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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