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Fiedel: “A música pra mim é o combustível da...

Fiedel: “A música pra mim é o combustível da vida”

On Air é a série de entrevistas do Alataj

O Berghain é reconhecidamente um campo prolífero para revelação de grandes diggers do cenário techno e house da Alemanha e isso não é segredo pra ninguém. Nomes como Marcel Dettmann, Ben Klock e Ryan Elliott possuem uma agenda mais agitada e naturalmente são mais conhecidos residentes do público brasileiro. Um olhar mais profundo para o hall de artistas do club revela nomes como Fiedel, habilidoso DJ e produtor que recentemente assinou o mix 08 da série Berghain, organizada pela lendária Ostgut Ton.

A compilação conta com quatro novas faixas exclusivas entregues por nomes como Electric Indigo, Stefan Rein, rRoxymore e Boris & Fiedel. O mix foi lançado em vinil 12 polegadas e para as plataformas digitais também. Além disso, Berghain 08 ganhou uma festa de lançamento que aconteceu no último dia 27 e colocou a prova o poderio da seleção de Fiedel para o dance floor nesse trabalho.

É notório que esse artista criado em Brandenburgo tem usado com sabedoria seus conhecimentos adquiridos desde a década de 80 em torno da dance music. Sua influência da antiga escola hip hop também diz muito sobre seu perfil artístico e a forma como ele mixa techno, acid e eletro é absolutamente cuidadosa. Nesse bate-papo exclusivo, Fiedel aborda alguns dos principais pontos de sua carreira:

Alataj: Olá, Michael! Tudo bem? Obrigado por nos atender. O release date do mix Berghain 08 está próximo. Como foi sua preparação para desenvolver esse trabalho?

Fiedel: Obrigado, eu estou bem! Obrigado por me receberem também! Bom, quando me ofereceram para fazer o mix, tive uma ideia imediata de como deveria ser. Era obvio para mim que eu queria apresentar diferentes estilos e mostrar minha paixão por algo funk na música. Também deveria capturar o espírito do momento de criação, então não havia outra forma se não gravar em uma vez só. Reuni algumas músicas do meu próprio selo e estava procurando por faixas inspiradoras, velhas ou novas.

As compilações foram muito importantes para o desenvolvimento da música eletrônica ao redor do globo no período pré internet. É possível dizer que trabalhar em um projeto como esse traz um sentimento de nostalgia?

Não de forma direta. Eu gostei muito dessas compilações, pode ser a série X-Mix ou a japonesa DJ-F. Eu gosto de fazer mixes com a finalidade de capturar uma ideia musical ou descrever um humor pessoal. Minhas contribuições para a série de podcasts da Way Treatment podem ser vistas dessa maneira e também alguns mixes particulares que fiz. A nostalgia aparece quando escuto meus mixes mais antigos e me pergunto: você realmente fez isso? Fantástico! E claro, essa é uma boa oportunidade para reencontrar ótimas músicas do passado.

Sobre o Berghain: como tem sido seu relacionamento com o club e de que forma ele tem ajudado você a se desenvolver artisticamente?

Berghain e seu predecessor OstGut Club são uma espécie de base para mim, porque eu toco lá regularmente desde 2000. Por um lado você ganha confiança e segurança tocando regularmente, você conhece o público, o público conhece você e você sabe com o que você está trabalhando. Do outro lado, você precisa se reinventar, porque você não pode tocar sempre as mesmas músicas. Você vê o desenvolvimento ao longo dos anos. O que eu sempre gostei foi essa mistura especial do público gay com o hetero em ambos os clubes. Isso significa para mim que você tem um público que é bastante aberto. Neste momento, quero explorar diferentes oportunidades que o Berghain abriu para mim. Toquei um set de bass na Säule em dezembro e um set ambiente no Elektroakustischer Salon no Ano Novo.

Ainda sobre o Berghain: percebo que atualmente a figura do DJ residente perdeu um pouco de força ao redor do globo e o seu club é um dos poucos a manter essa forte conexão entre artistas, público e staff. Na sua opinião, qual o real papel do residente nos tempos atuais?

Muitos DJs estão viajando o mundo, mas, na minha opinião, os DJs residentes são muito importantes. Eles formam a base de um club, os residentes podem criar um público e aprender com ele e vice-versa. Ambos os lados podem se beneficiar desta troca, o que leva a uma melhor compreensão e cria uma atmosfera familiar. Você dá ao clube um rosto em que as pessoas possam confiar neste interminável fluxo de artistas que vai e vem. Você tem mais liberdade para experimentar quando você toca no seu club regularmente, comparado com o set de um DJ convidado. Quando eu toco em outra cidade, sempre olho o clima do club antes do meu set e tento entrar em contato com o público para tirar minhas conclusões sobre como construi-lo. Essa habilidade só tende a crescer quando você já experimentou diferentes situações no mesmo club e aprendeu a lidar com elas. Me sinto honrado em começar minha nova residência no Khidi, em Tbilisi, este ano e estou ansioso para desenvolver a minha conexão com as pessoas de lá.

Como você enxerga a atual cena eletrônica da Alemanha, quando comparada ao que existia há 10 anos? Na sua visão, essa nova geração clubber está disposta a consumir algo com mais profundidade?

Sinceramente, não me lembro do que acontecia há 10 anos. O tempo passa rápido, eu vejo um desenvolvimento, mas não consigo associar com um certo momento. Em 2002, a música eletrônica tornou-se mais digerível para um público maior. Desde então, os estilos se diferenciavam muito. Para a geração mais jovem, a situação é um pouco difícil. Por um lado, é fácil o acesso a uma grande quantidade de músicas antigas e novas através da internet, que pode ser usada para se educar e comparar as coisas.

Do outro lado, há a agonia da escolha. Pode-se aderir a um estilo em especial sem saber que outros existem, porque há muito material desconhecido por aí. Você precisa trabalhar duro para experimentar muita música. Gosto sempre de explorar diferentes campos da música: há alguns anos, há uma grande demanda pelo techno, com toda a sua energia de captura e condução, ele serve muito bem e gosto de tocar para o público. Mas há mais estilos que podem sublinhar esse poder dentro de um DJ set. Se o público jovem estiver aberto o suficiente, certamente pode aproveitar essa viagem musical.

Certamente você é o tipo de artista que está a todo momento procurando por novos sons e estilos. Nos últimos meses, o que tem captado mais sua atenção?

Desde quando eu estava procurando por músicas para usar no mix e também quando chequei meus arquivos, encontrei muita música antiga que gosto de tocar nos meus sets atuais. Um desses discos é o EP Return To Earth de Space DJz. Isso provou a minha teoria de que a música de qualidade é atemporal, seja qual for a moda do momento. Quando ouvi o set de Noncompliant no Berghain, ela realmente me prendeu com uma mistura de energia bruta, funk puro e excelentes habilidades como DJ. Também me diverti preparando sets diferentes em curtos períodos de tempo para os shows do fim do ano passado, encontrei algumas coisas experimentais bastante agradáveis, como a faixa Those Moments de Blackdown. Um destaque com certeza foi o lançamento do álbum do meu parceiro na MMM, Errorsmith, o álbum Superlative Fatigue, que combina bons grooves com um profundo arranjo sonoro.

Seu catálogo é marcado por releases em grandes selos da cena internacional. Ao longo desses anos, o que você tem tirado de melhor do aspecto humano desse relacionamento com gravadoras?

As gravadoras representam certas ideias musicais ou um espectro de música que é apresentado em seus respectivos lançamentos. Desta forma, as pessoas expressam essas ideias e as disponibilizam para outras pessoas. Se houver uma concordância, as pessoas trabalham juntas como artista e gravadora. Ao conectar-se com outros artistas ou gravadoras, você conhece muitas pessoas de outros países e, se houver uma correspondência, vocês falam a mesma língua imediatamente.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

A música para mim é um combustível para a vida. É uma maneira de descrever e expressar humores e sentimentos, é uma linguagem universal e não é limitada a um certo tempo ou espaço. Como DJ, posso trabalhar com estes humores a fim de criar momentos únicos para e com as pessoas presentes no local, ouvindo e dançando as músicas que escolho.

A música conecta as pessoas!

pics by Danny Croucher.


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n’ Lights Management.

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