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Alataj entrevista John Beltran

Alataj entrevista John Beltran

Por Chico Cornejo

Felizmente vivemos em tempos nos quais o ecletismo não é apenas bem recebido, mas celebrado e cultivado em praticamente todas as pistas. E, por mais que esta tendência seja corriqueira em muitos contextos atuais de sucesso, está longe de ser a regra ou mesmo algo estabelecido há tanto tempo assim. Basta irmos até épocas não tão distantes assim como a década anterior, na qual a balcanização estilística chegou ao seu auge e tornou um universo já nichado ainda mais fraturado por convenções mesquinhas.

Mesmo com a predominância curatorial dessa abordagem orientando desde catálogos de selos a escalações de festivais ou mesmo seleções musicais, muitos autores se mostraram imunes a esses movimentos, mantendo sua obra incólume e, consequentemente, tão diversificada quanto atemporal. Um dos exemplos mais emblemáticos é o que nos dá John Beltran e sua tão variada genialidade em elaborar elementos de uma musicalidade que é autêntica e eclética de um modo que lhe é bastante peculiar.

Se formos até seus trabalhos seminais, como a faixa Aquatic do projeto Open House, parte fundamental do panteão do melhor techno que Detroit nos regalou até hoje, passarmos por álbuns que se tornaram canônicos como Ten Days of Blue e Earth & Nightfall e chegarmos até o recém-lançado Hallo Androiden, o cuidado com que trata o material sonoro para transformá-lo em ferramentas sublimes de excitação aural e sensorial é algo tão constante quanto impressionante.

Ele também é um dos poucos e notórios seletores que se permite ser tão ousado e preciso na cabine quanto é no estúdio, sobrepondo intrincadas camadas melódicas enquanto intercala complexos níveis rítmicos, criando peças de alta densidade envolvente e elevada intensidade dançante. Componentes que ele exibe com fartura e que trará para a próxima edição da LTDO que vai rolar neste sábado.

Então que tal começarmos pelas origens e, mais especificamente, Michigan, sua terra natal? Desde lendas como Marcus Belgrave, Iggy Pop, Madonna e MC5 até todos os produtores que tornaram tornaram-no o lar da Techno City, o lugar sempre se mostrou bastante profícuo musicalmente. Será que algo no ar ou na água, ou será que são as pessoas que fazem dele algo tão pródigo?

Minhas influências vêm quase todas de meu pai, Juan Ramon Beltran. Ele nasceu em Porto Rico mas cresceu em NY. Minha avó veio com ele e seus irmãos em direção a Michigan nos cinquenta. Minha mãe e sua família vieram do Texas (eles são de ascendência mexicana/espanhola/grega). Meu pai era uma pessoa muito musical e me expôs a tudo, desde Willie Colon a George Jones e o que couber no meio. Então cresci escutando todos os tipos de música mas ainda assim estava bem ligado em todos esses grandes artistas da região que você mencionou em meio a isso. Michigan e particularmente Detroit têm aquilo que chamamos de soul. Algo que é meio esperado quando alguém como Stevie Wonder nasceu aqui, não acha?

Muita água passou por debaixo da ponte desde “Aquatic” e sua música mesmo passou por diversas transformações, como esperado. Ainda assim, algumas fases foram mais distintivas que outras. Agora com o privilégio da experiência, como você olha para trás e vê sua trajetória até aqui?

Minha jornada musical sempre foi alimentada pela vontade constante e diária de melhorar. Não me gabo de ter inventado algum estilo musical. Na verdade, sempre fui bem rápido em me inserir nas novas tendências quando estavam para surgir. Começando pelo techno de Detroit daí para o nu jazz e o som brasileiro eletrônico. No decorrer desse trajeto desenvolvi um método ao qual sempre retorno e, ao mesmo tempo, cultivei minha própria sonoridade. Estou satisfeito de verdade com o que realizei, tanto quanto sou empolgado com o que está por vir.

Ainda considerando esse mesmo itinerário, o elemento latino na sua música é algo que começou a se tornar mais evidente depois de um tempo. No seu caso é uma questão de herança, então como foi o processo de incorporar esses sons de um modo mais proeminente?cx

Como mencionei antes, a base nos ritmos afro-cubanos e porto-riquenhos esteve presente desde sempre na minha criação, mas tive uma afinidade maior com a Bossa Nova desde a infância. Era algo muito presente na cultura norte-americana, fosse através de estrelas nacionais como Sinatra quando se arriscavam no gênero ao interpretar alguma composição clássica ou quando Astrud dominava por toda parte, essa musicalidade era muito popular. Ruben Blades tem uma música chamada “Paula C” que se baseia numa ponte bem no estilo brasileiro com montunos na guitarra, agogôs e o próprio Ruben imitando um riff de cuíca na boca! Então dá para notar que a semente foi plantada desde cedo, mas da mesma forma eu estudei a teoria para aprender a terminologia e os padrões a serem incorporados em minhas próprias produções.

E quanto à música brasileira especificamente, ela teve algum lugar central na sua criação em algum momento? Você consegue apontar o momento primevo no qual entrou em contato com ela?

Sim, como já disse aqui, a música brasileira me atingiu como um raio. E isso, como vocês devem saber, não é incomum e o que ocorreu comigo não é nada novo. Alguns dos meus artistas favoritos como a Sade, Sting, Jamiroquai, Michael Franks e muitos outros foram pegos pelo vírus brasileiro. Mas devo dizer que uma coletânea da Verve (não me recordo exatamente qual) me deixou com uma vontade incontrolável de conhecer o máximo possível desse som. Tinha uma versão de “Água de Beber” da Astrud nessa compilação.

Ainda bem que selos como a Compost apareceram e começaram a lançar coisas de música brasileira eletrônica, dando início a uma vigorosa cena de Samba e Bossa contemporâneos, liderada por artistas fenomenais como Nicola Conte.

A profissão musical passou por mudanças profundas durante as últimas décadas e toda a dinâmica do fazer e tocar foram profundamente afetados por elas. Como isso interferiu na sua relação com seu ofício?

Olha, eu poderia começar a reclamar aqui e falar disso de uma forma muito pouco positiva. Mas eu serei positivo pelo bem desta entrevista! Todos já lemos discussões nas redes sociais sobre o quanto o vinil é melhor que formatos digitais e todo esse lance. Eu até cheguei a entrar nesses argumentos. Hoje em dia vejo a música como uma jornada muito mais pessoal na qual posso me manter no meu rumo e você no seu. Se nos encontrarmos em algum ponto, melhor ainda.

Músicas antigas me ajudam a passar pelos dias e ouço muitas coisas dos sessenta, setenta e oitenta, tudo que cresci ouvindo. Antigamente eu analisava tudo numa faixa ou pelo que ela poderia acrescentar ao meu set, hoje em dia não mais. A música se tornou um escape para mim, dessa mesma ‘interferência’ à qual você se refere. O melhor é que ainda há muita coisa boa e atual por aí, senão eu já teria saído desse ofício há tempos. Eu hoje estou satisfeito com o lugar no qual a música se encontra. Tem tantos picos para encontrar o que se gosta passando reto pelo lixo.

Você nunca pareceu ter pudores com relação a trazer a música que faz até sua audiência por diferentes selos, assim como ter lançado coisas pelas mais diversas plataformas. Tendo isso em mente, qualquer um poderia ficar intrigado pelo fato de você nunca ter fundado sua própria gravadora após tantos anos. Há algum motivo além do trabalho insano por trás desse tipo de empreitada?

A resposta mais curta é: sim e o nome era Dado Records. Estritamente digital. Definitivamente não é algo para mim.

Se o John Beltran de hoje pudesse voltar no tempo em qualquer ponto de seu percurso e encontrar sua versão mais jovem, o que ele diria?

Eu diria “pare de exasperar os outros, seu idiota!” Brincadeira. Eu lhe diria para aprimorar os negócios de sua carreira, para criar uma fundação mais firme. E talvez ter se mudado para Los Angeles antes do que de fato rolou, para entrar de cabeça na carreira que tinha escolhido no meio de música para filmes naqueles tempos. Não que este velho John se arrependa, já que, de outro modo, provavelmente eu não teria o amor da minha vida: meu filho Jordi Beltran.

Agora olhando para o que está diante de nós, após este álbum e uma viagem para um destino inédito, o que o futuro reserva para John Beltran e que ele possa dividir conosco a essas alturas?

Bom, eu estou lançando música num ritmo insano. Então fiquem ligados e tentem acompanhar!

A música conecta.


Equipe de reação do portal Alataj, focada em levar conteúdo cultural ao público antenado na música eletrônica.

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