Alataj entrevista Lucas Freire

Por Rodrigo Airaf

Lucas Freire é um aventureiro musical. Ao longo de sua carreira, envolveu-se — e teve êxito — em diversos projetos em torno do seu som favorito, o techno, ao qual o próprio se refere como devoto. Sua marca na cena do interior paulista foi profunda, pois fundou nos anos 2000 o antigo club Play, a consagrada festa Techcardia e o lendário club Kraft em sua cidade natal, Campinas. Este último saudado como uma reviravolta para o underground na região.

Anos mais tarde, foi embora para Barcelona, na Espanha, explorar novos caminhos, lentamente transitando do hard techno para um techno mais reto e hipnótico. Por lá, se apresentou em eventos e clubs emblemáticos como Awakenings, Nature One, Fabrik, Tresor e Monegros, e fundou o selo Devotion Records ao lado de Fernanda Martins, lançando nomes como Takaaki Itoh, HD Substance, A.Paul, Steve Stoll, Ken Ishii, entre outros.

Em sua passagem mais recente pelo Brasil, em dezembro, Lucas se apresentou na sua cidade Campinas, rodeado de amigos de longa data na cabine do club Caos. Já em São Paulo, tocou no D-EDGE e na festa P R E T O. Juntou-se a esta programação uma masterclass que Lucas fez na respeitada DJ Ban, compartilhando sua experiência em discotecagem avançada com novos DJs e produtores da capital paulista através do projeto Doe Dance.

No meio deste redemoinho produtivo, nos entregou com exclusividade seu set gravado no D-EDGE em dezembro, que você pode ouvir aqui embaixo, no Alaplay:

Curiosos sobre sua atuação com o selo Devotion Records — que inclusive acaba de realizar seu primeiro lançamento de 2019, o EP Inhibitor, do colombiano Andres Gil — conversamos um pouco com o Lucas a seguir sobre os desafios desta jornada no cenário internacional.

Oi Lucas, tudo bem? Como começou a Devotion Records e como tem sido esta jornada até então?

Olá… tudo ótimo! A aventura começou porque eu e a Fernanda Martins, que é minha sócia no selo, sentimos uma necessidade pessoal e artística muito grande de criar uma conexão maior com o techno, que sempre foi a base do nosso trabalho. E essa viagem tem sido muito gratificante. É bonito ver como o selo vai evoluindo e é muito recompensador poder contribuir e devolver um pouco a um estilo que é tao importante nas nossas vidas.

O que, na sua opinião, faz um selo de qualidade?

São muitos fatores, mas o principal sem duvida é ter música boa. Ser constante nessa qualidade é um desafio enorme pra qualquer selo. Saber ler as tendências e até mesmo criá-las também é muito importante. Ter uma identidade sonora é algo que também acho muito necessário. Dar espaço a novos talentos eu considero tão importante quanto lançar nomes estabelecidos, embora muitos selos não trabalhem assim. Uma identidade visual legal sempre ajuda. Fazer um trabalho forte de promoção e com os meios de comunicação. São muitos detalhes, mas como falei anteriormente, sem dúvidas o mais importante é conseguir ter música de alto nível!

Por que escolheu este nome, Devotion? Qual a ideia por trás?

Pensamos em um nome que expressasse a nossa relação e sentimento com o techno. A gente se dedica de corpo e alma a esse estilo há muito tempo e temos uma espécie de devoção por ele.

Quais são os pontos altos e baixos de criar e manter um selo de música eletrônica na Europa?

Eu acho que uma das facilidades de estar na Europa é que aqui acaba sendo o centro de tudo dentro desse universo da música eletrônica. A maioria dos artistas importantes do techno estão aqui, há uma concentração de grandes clubes e festivais, um volume alto de público. O mercado maior e mais forte ajuda na hora de fazer contatos, vendas e vários outros aspectos que ajudam a posicionar um selo nessa indústria.

Pode parecer estranho, mas ao mesmo tempo que isso é um ponto positivo, pode ser que as mesmas características sejam negativas, já que pela Europa ser esse centro de tudo é onde existe a maior concentração de selos. Se destacar no meio de tantos outros labels potentes é algo bem mais difícil do que se estivéssemos em um lugar onde o mercado não fosse tão saturado.

Qual a receptividade do cenário em relação aos discos de vinil? E qual o processo para inserir o formato em um selo de techno como o Devotion?

O mercado do vinil sofreu bastante e esteve a ponto de desaparecer, mas pouco a pouco isso foi melhorando. Inclusive alguns selos que apostaram nessa mídia conseguiram destaque dentro da indústria. Hoje em dia tem sido bem difícil conseguir trabalhar com vinil. O volume de vendas é bem pequeno, a quantidade de selos produzindo vinil aumentou e conseguir vender uma quantidade mínima pra que pelo menos não se perca dinheiro é algo que não são muitos selos têm conseguido fazer.

No caso do Devotion, eu e a Fernanda sentimos que trabalhar com vinil é uma das coisas necessárias para que o selo siga evoluindo. A gente está planejando uma série especial dentro do selo para trabalhar com esse formato. Vai se chamar Devotion Limited e faremos poucos lançamentos por ano, em paralelo com os já tradicionais lançamentos do calendário.

Quais aspectos de uma track ou de um artista influenciam na sua decisão de lançar o trabalho?

A primeira coisa e a mais importante é que a track prenda a minha atenção. É aquele fator não-lógico e não muito explicável. A track tem que despertar interesse, te fazer mexer, te deixar intrigado. Depois disso vejo se o estilo é coerente com o que trabalhamos. Passando esse filtro eu geralmente analiso os aspectos técnico e musical. Vejo se a qualidade de audio está no nível que eu quero pro nosso selo, se a track é adequada musicalmente… tonalidades, estrutura, aspecto criativo, etc.

Na sua opinião, quais são as diferenças mais evidentes entre o mercado brasileiro e o europeu em relação ao gerenciamento de labels?

Eu não tenho experiência com gerenciamento de selos no Brasil, mas acho que aqui os contatos e acessos são mais diretos. A maioria de artistas, distribuidoras, lojas, etc, estão aqui. Então, é um pouco mais fácil e rápido conseguir chegar em tudo que você precisa. A Internet e a globalização facilitaram e ajudaram a melhorar muito essas diferenças, mas eu ainda acredito que ter a possibilidade de fazer network e encontrar as pessoas pessoalmente pode ajudar em alguns momentos.

Pode citar alguns lançamentos que foram decisivos para o desenvolvimento do selo?

É muito difícil pra mim destacar alguns releases, já que o carinho por todos é muito grande. Porém, tem alguns que têm certo destaque pelo momento ou repercussão que tiveram.

[DVR022] Black Roof – Resumption EP: foi um dos primeiros releases do selo a ser tocado de maneira mais massiva. Entrou em muitos charts e todo mundo tocou esse EP quando ele saiu.

[DVR048] Ken Ishii – LC Circuit EP, com remixes do A. Mochi, Frank Biazzi e Takaaki Itoh: esse release chamou muita atenção, tanto pela potência e importância dos nomes envolvidos quanto pela qualidade das tracks. Muita gente tocou e segue tocando esse EP.

[DVR058] Lucas Freire – Light it Up EP, com um remix do mestre holandês Radial: é um EP muito especial pra mim porque o Radial é um artista e ser humano que admiro muito. Ver a artistas do nível dele se interessarem pelo nosso selo é algo muito gratificante.

O que podemos esperar da Devotion para temporada 2019?

O que mais podem esperar é muita música boa. Seguimos com a mesma ideia de lançar gente nova junto a nomes já bem estabelecidos na cena, então teremos varias estreias no selo, assim como o retorno de gente que já lançamos e que tiveram feedback positivo. A nova série de vinil, Devotion LTD, vem pra dar um plus de qualidade pro selo. Estamos estudando a possibilidade de fazer alguns eventos também.

Quais dicas você daria para aqueles que querem ingressar nesse mercado?

Trabalhem com o que gostam e se apaixonem pelo que forem fazer, porque isso vai se ver refletido em tudo. Trabalhem com o coração e acreditem nos seus sonhos.

A MÚSICA CONECTA.


Equipe de reação do portal Alataj, focada em levar conteúdo cultural ao público antenado na música eletrônica.

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