A dance music tem o poder de revelar ano após ano, grandes talentos. 2016, já tem um bom candidato ao prêmio de “revelação”. Marc Spence é um DJ e produtor britânico, com residência em Birmingham, que entrega seus releases a labels como This Ain’t Bristol, Cheap Thrills e Skint Records. Os últimos meses tem sido intensos na vida deste artista, especialmente após o lançamento da faixa “Nasty”, que alcançou o topo dos charts no Beatport e recebeu suporte de nomes como Justin Martin, Lee Foss e Claude VonStroke.

Marc é dono de uma visão bastante interessante sobre o papel e a importância da música na vida das pessoas. Às vésperas de sua primeira tour no Brasil, que será assinada pela agência Kolletiv, o DJ e produtor britânico conversou conosco e também gravou um podcast exclusivo, com algumas de suas faixas mais recentes. Conheça traços interessantes desse promissor artista, que estreia no Brasil no mês de Maio. A música conecta as pessoas!

1 – Olá, Marc! Obrigado por falar conosco. Você possui uma identidade muito bem definida dentro da house music. Como foi construir esse estilo ao longo dos anos?

O prazer é meu! Eu cresci em uma ampla gama de influências musicais. Na casa da minha família, o reggae foi sempre a principal escolha, portanto o amor por um grande bass line e um groove apertado estava no meu sangue desde cedo. Ao crescer encontrei-me sempre querendo explorar diferentes gêneros que levaram-me a passar por todas as fases, incluindo rock, indie, hip hop (anos 90 e 2000, definitivamente não sou um fã do “hip hop” de hoje em dia). Em seguida, através do Reino Unido me aproximei do garage, que em seguida, me levou para o meu amor por drum & bass, que na verdade, quando eu comecei como DJ em 2005, era originalmente o que eu tocava, D&B e breakbeat.

Naquela época, a house music que eu estava ouvindo consistia principalmente em funky house e na ascensão da Hed Kandi, mas nunca tive muito interesse em tocá-la. Entretanto, como senti que sempre faltou uma energia nos meus sets e realmente era necessário dar um complemento a mais a eles, me ”perdendo” com os novos gêneros enquanto tocava, parecia ser um grande negócio para mim [começar a tocar house]. Uma coisa que eu sempre digo é que, se a música não me faz dançar como eu posso esperar, que ela faça a pista explodir!
Bem, isso foi até eu ouvir a música de Switch aka Solid Groove, Herve, Sinden, Trevor Loveys, Micky Magro, Claude VonStroke e Justin Martin – apenas para citar alguns. Um dia entrei no 3 Shades Record Shop (onde eu realmente aprendi a mixar) e ouvi este estilo de house que esses produtores estavam criando e isso literalmente mudou minha vida e abriu imediatamente meus horizontes, para me ajudar a apreciar o quão boa house music pode ser! Ao ouvir as grandes linhas de baixo retorcidas com uma bateria sólida e esses grooves, não me restou nenhuma outra opção a não ser seguir esse caminho. Eu estava destinado a mudar e nunca mais olhei para trás.

2 – Como a cultura e a cena eletrônica de Birmingham influenciaram sua carreira?

Eu acho que é justo dizer Birmingham nunca teve uma influência na minha música. Sempre faço minhas próprias coisas, que acaba por ser diferente do que o resto da cidade tem feito. Mais de uma vez, as pessoas me dizem que a principal razão de eu conseguir me destacar em nossa cidade, foi porque eu sempre faço do meu jeito e sempre vou continuar fazendo isso. Vou admitir que por um curto período de alguns anos atrás eu comecei a fazer música que eu achava que as pessoas queriam ouvir e posso dizer honestamente que foi o momento menos agradável que tive em toda a minha vida de produção. Fiquei um pouco chateado comigo mesmo por ir por esse caminho. Para ser honesto, estou muito feliz por voltar a fazer as coisas da minha maneira.

3 – Sua carreira é marcada por suporte de nomes como Duke Dumont, Claude VonStroke e Justin Martin. Há algum que você considera o mais especial ou importante?

São grandes artistas que eu respeito muito. É imensamente incrível ter o suporte deles, algo que também lhe da uma confiança incrível quando você voltar a fazer mais tracks. Mas ao mesmo tempo, procuro valorizar uma classe de pessoas tanto quanto as outras, independente se elas são enormes artistas ou não, e de fato as opiniões mais importantes para mim são do meu irmão e da minha irmã. Se eles gostam, então eu estou feliz.

4 – Nos últimos anos você passou por diferentes países, clubs e festivais em tours. Qual é a influência que a pista de dança exerce na composição de suas faixas?

Para mim tudo gira em volta da pista de dança, especialmente quando você está apenas ”brincando” em casa. Uma coisa que eu sempre digo é que você nunca é maior do que a multidão a qual você está tocando e como um DJ seu dever (não como trabalho, dever!) é fazê-los dançar. Acho que um monte de DJs atualmente não levam isso em consideração e acham que tudo está sobre eles. Quando paro, penso que: sinto muito, mas não é assim! Eu tento manter a pista de dança em mente na maioria das vezes quando eu estou fazendo música, mas também gosto de fazer todos os tipos de música e às vezes nem todas elas são realmente feitas para o dancefloor, algumas são um pouco mais para se ouvir em casa ou momentos de lazer. Então, geralmente levo e trato cada faixa como um indivíduo e tento colocar em cada indivíduo o que eu acho que precisa para que eu fique feliz em dizer: está completo e pronto para chegar ”ao mundo”.

5 – Esta é uma pergunta que eu gosto de fazer para meus entrevistados que não são brasileiros. Há algum DJ ou produtor brasileiro que você tem acompanhado de perto nos últimos tempos?

Bom, eu tenho uma amizade legal com o Gabriel Boni agora, depois de alguns anos onde nos conhecemos em um club em Londres. Mais recentemente, eu gostei muito das produções de Jack n Jane e estou amando sua nova track ‘‘You Got Me”, a qual em minha opinião, acho que pode ser a track diferencial para eles se destacarem.

6 – Em sua bio, você cita bons nomes da cultura pop. O universo pop, ainda hoje, é uma grande influência na hora da produção de suas tracks?

Eu não estou realmente por dentro da música pop de hoje para ser honesto, só acho que a indústria da música está saturada com o envio de mensagens erradas aos jovens. Especialmente quando tudo que eu vejo é promover aos artistas que más atitudes é legal, receber dinheiro é o mais importante e tratar os outros de uma maneira desrespeitosa é aceitável. Essas coisas não são as mensagens que acredito que devemos passar para a geração mais jovem através da música. Nós precisamos do amor da house music para trazer alguma alma de volta para a juventude de hoje!

7 – Como é o seu relacionamento com as gravadoras que você lança?

Eu gosto de ter um bom relacionamento com todos que eu encontro na minha caminhada, mas ao mesmo tempo, a vida sempre vai ter algumas complicações. Felizmente para mim até agora, construí ótimas relações com todas as labels. Tive sorte o suficiente para trabalhar com um time o qual me permitiu continuar a evoluir mais e só posso esperar que o amor continue para mim no futuro.

8 – Quais são as suas expectativas para sua primeira tour no Brasil?

Na verdade não tenho muitas expectativas, apenas esperanças de que eu conheça algumas grandes pessoas, compartilhe algumas boas vibrações e visite o máximo que eu puder. Podemos ver daqui como um dos países mais belos e culturais do mundo. Experimentar algumas ótimas comidas também está nos planos! Eu amo comer!

9 – A faixa “Nasty” é uma das grandes sensações das pistas por aqui. Como funcionou o processo criativo dela?

Bom, ”Nasty” foi estranho, me levou literalmente um dia para fazer a track real e organizá-la completamente tornando-a uma ”vibe”. Entretanto, o processo de mix down levou cerca de 7 meses! Não continuamente todos os dias, as vezes , eu fazia pausas de algumas semanas, em seguida, voltava ao trabalho. Mas eu simplesmente não conseguia obter a mix down a um ponto que eu estava feliz e que justificava a track, ainda tive um dos meus companheiros que morava comigo, me dizendo para desistir dessa track, acho que eles estavam cansados de tanto ouvi-la, mas eu simplesmente não podia desistir dela por 2 motivos; Primeiro, que meu pai me criou e ensinou a nunca desistir de nada; Segundo, eu acreditava na track, portanto minha alma não me deixou desistir dela e eu agradeço porque realmente valeu a pena! Extremamente feliz por não ter desistido dela! Portanto, há uma mensagem de nunca desistir de algo em que você acredita e por vezes música precisa tanto tempo quanto o tempo precisa, não há necessidade de sempre apressar as coisas.

10 – Para encerrar, uma pergunta pessoal. O que a música eletrônica representa em sua vida?

Felicidade.
Pessoas buscam por toda a vida a felicidade e alguns estão dispostos a fazer de tudo para satisfazer essa vontade de felicidade. Agora, eu não estou dizendo que a música pode resolver todos os seus problemas e acabar com todos os problemas do mundo, mas uma coisa que eu sei é que a música é uma ferramenta extremamente poderosa que pode fazer até mesmo os dias mais escuros, brilharem. Todo mundo tem pelo menos uma música que não importa o que está acontecendo em sua vida, você ouvindo-a faz tudo melhor mesmo que por apenas um curto tempo e quem sabe uma dessas músicas pode até ser uma das minhas próprias ou mesmo quando você esta tocando em uma festa, naquele momento você está ajudando as pessoas a esquecer todos os seus problemas e trazer ainda uma pequena quantidade de felicidade, então para mim esse é o maior presente que eu posso dar na vida. Sei que quando eu estiver dentro dos meus momentos finais, eu vou olhar para trás e estar satisfeito por ter feito meus próprios sacrifícios e passado meu tempo com o melhor de minha capacidade tentando espalhar tanta felicidade quanto eu podia, para tentar e fazer deste mundo um lugar melhor.