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Falamos com Mari Herzer, um dos novos nomes da cen...

Falamos com Mari Herzer, um dos novos nomes da cena independente de São Paulo

A cena de São Paulo é hoje a mais efervescente do país e revela novos artistas com uma intensidade que chega a surpreender os mais desatentos. Seja no palco de clubs consagrados como o D-EDGE ou em festas do circuito independente como Mamba Negra, Carlos Capslock e ODD, DJs e live acts até então pouco conhecidos começam a encantar o Brasil.

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Um desses novos nomes é o da produtora Mari Herzer, nome conhecido da Mamba Negra, mas com passagens por outras festas importantes da capital paulista. Mari produz com autoridade e é uma referências técnica e criativa em sua linha de trabalho. Seus recentes lançamentos foram entregues a selos do calibre de Nin92wo, EKORD e In Their Feelings, três dos mais interessantes labels do país.

Nesse bate-papo exclusivo, Mari Herzer comenta a evolução da cena independente do Brasil nos últimos anos, relacionamento com a Mamba Negra, trabalhos junto a Nin92wo e muito mais. Confira abaixo:

Alataj: Olá, Mari! Tudo bem? É um prazer falar com você. Como uma artista independente, como você sente a evolução da cena eletrônica no Brasil nos últimos anos? O futuro é promissor ou preocupante?

Mari Herzer: Olá, Alan! Tudo bem e você? Agradeço por me receber por aqui. Bom, eu não posso falar com tanta extensão de conhecimento porque comecei a me envolver de verdade com festas em geral de dois anos pra cá, só. Antes disso eu estive mais focada no meu interno criativo, dentro do quarto, sendo mais uma frequentadora passiva do que qualquer outra coisa.

De qualquer forma, considero o futuro promissor e duvidoso – não chega a ser preocupante – ao mesmo tempo. Promissor dada a quantidade de novos produtores musicais que andam fazendo um som bacana, ganhando visibilidade e acesso a ferramentas de produção musical que antes eram caras e inacessíveis. Além disso temos festas com propostas muito interessantes e diferentes dos clubes, oferecendo algo incomum e renovador.

Duvidoso pois sinto que, em São Paulo que é onde tenho mais contato, falta harmonia entre o trabalho de festas e clubes. Vejo a harmonia entre diferentes canais de entretenimento como uma forma de desenvolvimento artístico local e oportunidade para a criação de novas mídias e núcleos artísticos, reunindo pessoas de diferentes planos sociais e backgrounds artísticos. Faltam ferramentas que deem mais força e visibilidade para a música experimental, ambient, etc, fazendo-as atingir um público que ainda não é atingido hoje. Enfim, outros gêneros musicais que fujam um pouco do som convencional que está estourando no momento.

Sabemos das principais dificuldades que um artista independente enfrenta na sua carreira. Mas, e as principais vantagens? Trabalhar sem a pressão de uma grande gravadora permite a você um processo criativo mais leve?

O meu maior prazer, no momento, é experimentar e beber de diferentes gêneros de música eletrônica (e não eletrônica). Cada mês estou vidrada em algum álbum de um artista diferente e uso isso como forte influência no que estou trabalhando no momento. É muito bom poder mergulhar por algumas horas seguidas no meu processo criativo. O problema é que as vezes não sei para onde estou indo e tenho medo de me perder no caminho. Mas talvez o caminho na música seja esse mesmo: montar e desmontar nossa personalidade artística por meio dos pequenos pedacinhos de informação que nosso cérebro capta todos os dias.

Seu nome é ligado a Mamba Negra, festa chave no cenário eletrônico da capital paulista. Como o coletivo e seu público ajudou a formar sua visão sobre música? A festa influência diretamente a forma como você cria suas músicas?

Comecei a frequentar algumas dessas festas paulistas depois de alguns anos produzindo música eletrônica. Aos poucos notei um cenário muito interessante onde a palavra chave é representatividade. Na Mamba Negra (e outras festas de São Paulo) você vê pessoas que geralmente têm menos oportunidades no mercado artístico trabalhando. Tem mulher, negro, LGBT e pessoas muito jovens na produção do evento, nos bares, sendo DJ e produzindo a cenografia da festa,. O ambiente torna-se mais amigável e acolhedor e isso é importante principalmente pra quem vê de fora.

Sinto que se as mulheres, por exemplo, verem mais pessoas do sexo feminino trabalhando com música, se sentirão mais inclinadas e inspiradas a também seguir esse caminho. Esse aspecto social influenciou um pouco na minha forma de ouvir e consumir música e arte no geral – tento ter contato mais próximo e consumir arte feita por pessoas que talvez não tenham tanto espaço.

Ano passado sua faixa lançada pela Nin92wo teve uma repercussão bastante interessante. Fale um pouco sobre o processo criativo de Siga:

Normalmente minhas músicas são mais um acidente que qualquer outra coisa. Nessa época eu estava muito focada em gravar texturas com vocal e senti que seria interessante colocar um vocal robótico na Siga. O engraçado é que eu fiz essa algumas horas antes de tocar numa festa em São Paulo e acabou dando certo.

Esse é um assunto necessário. Na sua visão, o que falta para as mulheres ocuparem o mesmo espaço em relação aos homens no mercado? Você já sofreu algum tipo de preconceito por ser mulher num cenário predominantemente masculino?

O que falta é ver mulheres tocando. Ver semelhantes tocando e trabalhando em eventos é uma forma de incentivar as pessoas que estão na pista a entrarem no mesmo caminho, se sentindo representadas. Normalmente, quando um homem começa a fazer música eletrônica, logo é apadrinhado por algum amigo seu e fica a par de vários “truques” e métodos de produção musical, por exemplo. A evolução é muito mais rápida. Quando as meninas entram no meio musical, na maioria das vezes só rola um interesse sexual masculino. O caminho das mulheres na música geralmente é mais solitário, demorando mais pra se desenvolver por falta de apoio. Com poucas mulheres ocupando line ups e produzindo conteúdo relacionado à música eletrônica, fica mais difícil ainda de completar esse ciclo. O legal é que algumas de nós já notamos isso e cada uma trabalha à sua maneira para melhorar a situação, fico feliz por isso.

Quais são seus principais planos e ambições para 2018? Gigs, novidades, lançamentos… o que vem por aí?

Para 2018 já estou trabalhando em um EP onde vou demonstrar minha identidade através de quatro músicas, talvez em vinil. Além disso, pretendo continuar estudando bastante, pois sinto que minha música ainda pode evoluir e ultrapassar alguns obstáculos técnicos em diversos pontos, atingindo, enfim, mais pessoas.

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Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

A música está integrada com diferentes artes e é, junto destas, uma ferramenta de auto conhecimento, cura e também inclusão social. Uma forma muito válida de comunicação para pessoas que tenham dificuldade em se relacionar com o mundo exterior, também. Sempre foi um mecanismo de renovação na minha vida.
Obrigada pela troca de palavras, foi um prazer!

A música conecta as pessoas! 


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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