Entre os nomes presentes no line up do DGTL, Maurício Lopes é um dos DJs com mais bagagem e histórias para contar. Ele é um dos pioneiros da cena underground do Rio de Janeiro e possui uma bela fatia de participação no processo de introdução do house e techno na cidade maravilhosa. Desde 1992, Maurício trabalha seu som através de uma forte identidade e, historicamente, possui um apreço por long sets.

No currículo, apresentações em algumas das festas e clubs mais tradicionais do país, entre eles Hells Club, Fosfobox, Lov.e, Circuito, D-EDGE, Tribaltech e Rock in Rio. Desde de junho de 2016 o DJ é um dos residentes da ODD, festa capitaneada por Davis, Zopelar e Marcio Vermelho que atualmente é uma das mais conceituadas do país. Sua mistura quente das variações de house e techno é sempre uma flecha certeira na pista.

No Sábado, Maurício Lopes toca no palco Generator, o mesmo de Carl Craig, Derrick May, Vril e Speedy J. Antes disso, o convidamos para um bate-papo sobre alguns dos momentos mais importantes da sua carreira. Confira abaixo:

1 – Olá, Mauricio! Tudo bem? Obrigado por nos atender. Desde o início da sua carreira em 1992, quais são as principais diferenças que você observa em relação a estética do techno?

O techno, em essência, sempre teve um caráter experimental e ligado à vanguarda, ao futuro (sonora e esteticamente). Como a absurda (e rápida) evolução tecnológica desde que ele surgiu, é natural que ele sofresse transformações tanto na forma como é produzido quanto na que se apresenta. Mas mais do que pontuar diferenças acho importante ressaltar essa característica de se renovar, se reinventar e, apesar dos modismos, permanecer “à frente do seu tempo”, por assim dizer.

2 – Em sua bio, fica claro seu gosto por long sets, que atualmente estão cada vez mais raros nos eventos. Tem alguma apresentação sua nesse formato que você lembra de cara como memorável? Qual foi o melhor long set que você já escutou?

Pois é, infelizmente sets longos são cada vez mais escassos. Um dos mais memoráveis com certeza foi o de comemoração de 20 anos de carreira (Fosofobox, em 2012). Toquei de meia-noite ao meio-dia, batendo recorde de lotação da casa e amigos/público não só do Rio mas de outras cidades (São Paulo e Curitiba, por exemplo). Noite super intensa.

3 – Como grande conhecedor da música eletrônica no Rio de Janeiro, sua avaliação da atual cena é algo muito importante. Fale um pouco sobre os pensamentos a respeito.

O movimento no Rio oscila muito, variando de épocas onde quase nada acontece e outros com eventos em mais profusão. Felizmente agora estamos num momento bem bacana, com várias festas novas e alternativas acontecendo em lugares diferentes, espaços públicos, clubes novos abrindo ou investindo em programação voltada pro techno e house underground, etc. Gosto bastante da forma com alguns núcleos (produtores e DJs) tem se unido/misturado pra fortalecer a cena com essas parcerias. Percebe-se claramente uma renovação do público, com pistas bem mais cheias (e interessadas) do que há 2 anos, por exemplo.

4 – O DGTL, entre outros pontos importantes, é lembrado por ser um festival que levanta bandeira de sustentabilidade. Na sua visão, quão necessário é a presença de propostas sociais/políticas/ambientais dentro de marcas da dance music?

Uma das características de uma certo nicho desse mercado é justamente levantar essas bandeiras, unindo diversão e consciência social. Essa é uma mentalidade que ainda está sendo construída mas que algumas festas e eventos já lançam como premissa, o que é muito importante pra desassociar diversão e alienação.

5 – Em relação a ODD, festa que você tua como DJ residente desde 2016, qual importância ela teve para sua evolução enquanto artista nos últimos meses?

Fiquei muito feliz com a iniciativa da ODD, uma festa paulista (minha preferida, sem dúvida) querer arriscar a inclusão de um residente carioca no seu time de residentes. Tanto a festa quanto eu, como artista, estávamos buscando novos caminhos, vivendo um momento de expansão. Mesmo sendo em caráter experimental (estamos em constante avaliação, testando resultados, etc) considero a experiência bem enriquecedora profissionalmente porque apesar de termos interesses particulares, nosso objetivo é comum (amadurecimento e permanência) e trabalhamos da mesma forma: sem pressa e deslumbre.

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6 – Ainda sobre o DGTL, sua participação está confirmada no palco Generator, que ainda irá receber os ícones Derrick May, Carl Craig. Pessoalmente, qual é a atração que mais desperta seu interesse no evento?

Sei que eu sou suspeito [risos], mas o palco Generator realmente está incrível. Acho que a minha maior curiosidade é com a apresentação do Speedy J, um artista que eu nunca vi ao vivo.

7 – O que falta para o cenário brasileiro ser reconhecido como referência internacional nas cenas house/techno? Aliás, já podemos nos considerar referência no assunto?

Acho que já somos referência e ocupamos um lugar importante no cenário mundial, cada vez mais fazemos parte do roteiro de turnês de artistas e eventos (como o DGTL). Mas o trabalho nunca acaba e é preciso dedicação pra que essa posição não se perca.

8 – Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

A música salvou a minha vida. Fato. Pode até ser um clichê, já foi dito e repetido, mas no meu caso é a melhor forma de definir a importância que ela tem pra mim.

A música conecta as pessoas!