Alataj entrevista Mike Huckaby

Por Chico Cornejo

Mike Huckaby. Quem sabe, sabe… longe de demarcar uma nata de entendidos ou mesmo de pesquisadores afinados com os arcanos mais obscuros dos sons de Detroit, esta afirmação se sustenta no fato de que sua musicalidade é tão preciosa quanto acessível. Ela transcende nichos e atinge todo tipo de público, contanto que haja um mínimo interesse pelos grooves e um genuíno apreço pela magia que eles materializam.

Sua música é simples e densa, franca e intrincada, envolvente e contundente, navegando estas tensões e interpolando elementos a fim de criar o tipo de experiência musical sublime que se tornou parte intrínseca da reputação de sua cidade natal. Uma que ele defende e ajuda a manter através de um trabalho incansável em praticamente todas as atividades que integram a criação e fruição musicais.

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Mike também é um hábil manipulador de sons e constantemente coloca seus conhecimentos a serviço de colegas, compondo momentos e sequenciando elementos que têm uma finalidade apenas: o movimento. Mas, além de tudo isso, ele também leva adiante um projeto de formação de novas gerações, ensinando a crianças e jovens muitos dos procedimentos e rudimentos do que fazem a grandeza deste ofício que se traduz em música extremamente dançável.

Aqui ele fala conosco após uma turnê que o levou das cabines de bastiões da noite paulistana como o D-EDGE até a celebração triunfal de aniversário de seis anos do projeto catarinense TROOP, cada pista a seu modo representando uma faceta de sua versátil habilidade em conduzir humores, calores e pendores junto ao público.

Alataj: Viajar, ensinar, produzir… se a vida já é atribulada para qualquer um envolvido neste jogo, ela certamente parece um pouco mais intensa para você, devido a sua presença tão multifacetada. Como é lidar com todas essas frentes e tudo que elas demandam?

Mike Huckaby: Bem, de fato as coisas ficam um pouco confusas quando se procura tempo para produzir especificamente e daí todo mundo quer uma faixa sua para seus selos. De algum modo você consegue fazer tudo e, quando você alcança o workflow correto, dá para fazer qualquer coisa acontecer. Eu já tive praticamente dois dias para finalizar uma faixa feita para projetos e compilações nas quais eu queria figurar. Então, digo novamente: o workflow certo te ajuda a atingir essas metas e eu cheguei ao meu ideal.

Já que trouxemos à tona o lado pedagógico da sua carreira, cabe a questão de como ele afeta as outras áreas do seu trabalho. Creio que deva haver alguns momentos inspiradores quando se tem esse contato com os alunos, especialmente os mais jovens, não?

Sim, tudo se coaduna e cria um impacto positivo com relação a tudo que faço. Quando tive momentos de êxito com meus alunos, isso sempre se estendia a uma assistência adicional fora da sala de aula e eu lhes dava isso. Você sabe: num momento está trabalhando com um jovem extremamente brilhante como alguns com quem já tive a chance de lidar e eles precisam de mais atenção pós-aula, algo que sempre ofereci. Você só tem uma chance de auxiliá-los, de fazer isso funcionar para eles, então você tem de estar preparado, já que provavelmente será a única pessoa a prover-lhes algo assim.

Agora falando de mais uma dimensão do seu trabalho na cena como cabeça de selos como Deep Transportation e S Y N T H e ambos se tornaram basilares tanto para o house como para o techno na última década. Qual foi a principal motivação que o levou a criá-los? Quais são os planos atuais e futuros para eles?

Eles sempre foram plataformas para minhas interpretações musicais. Uma voz ou escoadouro para minha música. Eu fundei o Deep Transportation para meus lançamentos de House e o S Y N T H para aqueles que enveredavam mais para o Techno. Toda essa sonoridade foi profundamente influenciada pelas linhas de baixo do Kevin Saunderson.

Já que resvalamos no tema dos gêneros, parece fortuito mencionar aquela velha distinção entre house e techno e como ela parece não informar muito sua obra ou mesmo o que você toca. Como você enxerga essas divisões secas? Mesmo historicamente, ela parece ser bastante ignorada pelos talentos de Detroit em geral.

Porque nunca vimos essas divisões que a imprensa britânica criou para certos estilos de música. Sempre sentimos que House e Techno eram a mesma coisa. Um era um pouco mais agressivo que o outro apenas. E aqui sempre retorno à faixa e ao EP que mostraram isso para mim: “Waterfalls” de Larry Heard pela Alleviated Music. De um lado, você tinha essa faixa crua e malemolente, para daí chegar numa faixa suave de Deep House chama “Waterfalls”, que à época era percebida como um pouco mais forte ou mais deep para mim. O que sempre me deixou embasbacado foi a seguinte questão: quão talentoso você precisa ser para criar este tipo de música?

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E como passamos por sua cidade natal em nossos assuntos, gostaria de saber: quanto Detroit é essencial para o que faz e para quem você é, como profissional e professor? Houve muita mudança desde os velhos tempos do selo Harmonie Park e da loja Record Time em que você e Rick Wade trabalhavam [meados dos noventa]?

Bom, quando se vive aqui, não tem como separar o ambiente da sua vida. Você absorve tudo aquilo junto e lida com tudo que a vida lhe dá e é isso que nutre seu som. Seja bom, seja ruim, você enfrenta. Tudo mudou muito desde os tempos do selo e da loja, e quero dizer TUDO mesmo. Transformações nos modos como a música é comprada e produzida e a própria interação com outras pessoas que a fazem também. Tudo se foi. Não temos mais um ponto de encontro no qual todos podem compartilhar suas opiniões sobre essa mesma música. Este lugar é a internet hoje em dia e atualmente não está facilitando muitas coisas.

Se o Mike atual pudesse dizer qualquer coisa para o Mike desses tempos, o que ele diria? U conselho, um aviso, uma palavra de motivação, uma bronca… vale tudo.

Eu diria: “sempre acredite em você mesmo. Você vai conquistar o que deseja fazendo o que gosta de fazer, basta ser paciente. É tudo um negócio, nunca se esqueça disto. Negocie, lide com a realidade! E, por fim, estude SÍNTESE!! Você vai criar música eletrônica, então quanto mais souber, melhor vai se sair.”

Olhamos bastante para trás e agora é hora de olhar adiante, onde cabe perguntar sobre seus planos, projetos e empreitadas futuras, novidades ou qualquer coisa que esteja no horizonte e queira dividir com a gente:

O que tenho como prioridade é o trabalho num novo álbum que vai sair pela S Y N T H e também estou aqui tentando lançar mais um CD de samples. Na real, eu sempre estou trabalhando em algo…

A música conecta.

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Equipe de reação do portal Alataj, focada em levar conteúdo cultural ao público antenado na música eletrônica.

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