Alataj entrevista NDRX

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Por Chico Cornejo

Residentes são algo que um club ou festa possui de mais precioso. Esta é uma máxima que se mantém com a mesma força desde os primórdios da nossa cultura e perpassa territórios com a mesma facilidade com a qual se manteve durante décadas. Eles são o elemento que liga a essência corporal de um público ao âmago conceitual de qualquer projeto que vise agrupar mentes ávidas em torno de uma proposta estética, conectando aquela mixórdia de vontades ao que aquela instituição é de mais verdadeiro e pode oferecer de mais sincero.

Hacienda teve Graeme Park e Mike Pickering; Muzic Box teve Ron Hardy; The Saint teve Sharon White; Lov.e teve Marky; Loft teve David Mancuso; Hell’s teve Mau Mau; Zanzibar teve Tony Humphries; a Gop tem seus membros nucleares no quarteto que a anima; o Berghain tem Ben Klock e Marcel Dettmann; a ODD tem Vermelho, Zopelar e Davis e, por sua vez, o Bassiani, ponto focal do Techno na distante nação da Georgia, tem NDRX e HVL como a encarnação de sua proposta. E é esse papel comum, globalmente compartilhado e historicamente consolidado, que será celebrado no encontro destes dois últimos bastiões da resistência dançante neste sábado.

Aqui conversamos brevemente com NDRX, uma das figuras centrais deste peculiar club de Tbilisi que se projetou mundialmente pela oposição pública e impressionante de uma multidão de frequentadores e admiradores que tomaram as ruas para proteger sua casa da ameaça iminente do poder público. E esse ímpeto é familiar a muitas outras cenas, dentro e fora do Brasil, sendo sempre necessário lembrar do quão privilegiados somos por não termos de ir às ruas para lutar pelo que temos de tão valioso:

Certamente todos acreditamos por certo tempo que a música eletrônica fosse uma forma de linguagem universal que poderia comunicar sua mensagem para qualquer um, mas você chegou a imaginar algum dia que viria de Tbilisi até o Brasil encontrar seguidores da mesma musicalidade?

Olha, eu sou obrigado a concordar com essa apreciação da música eletrônica como uma forma universal de comunicação, mas claro que eu jamais poderia imaginar vir a um lugar tão longínquo da minha casa como o Brasil para conversar com vocês através dessa “linguagem”. Nos faz pensar que a realidade sempre pode nos surpreender, por mais que sejamos sonhadores…

Após toda a atenção globalmente recebida pelo Bassiani com seu enfrentamento triunfante do governo, isso incorreu numa maior quantidade de estrangeiros visitando o club e procurando conhecê-lo melhor?

Bom, se formos pensar nas coisas positivas que aquele dia horrível nos trouxe, certamente essa foi uma delas. E é maravilhoso ter pessoas de fora nos visitando e sentindo tudo que temos a oferecer ali na nossa pista.

Mas, por outro lado, esse mesmo influxo de pessoas novas afetou a atmosfera do club ou nem tanto? Os habituées foram acolhedores?

Para ser sincero, não afetou. A energia permanece a mesma. Acho que os convidados acabam sendo atraídos e convertidos por ela, se unindo aos locais para gerar essa vibração mútua que persiste sempre ali dentro.

Por outro lado, vocês também têm showcases como estes que encontram numa iniciativa como a ODD uma consonância de propósitos que lhes permite atuar em localmente aqui também. Como é viajar pelo mundo como um componente de algo que se tornou um símbolo de resistência?

É uma sensação muito boa. Afinal podemos viajar pelo mundo todo, encontrar pessoas novas e interessantes nas pistas de dança e, claro, dialogar com elas num modo pelo qual nos compreendemos reciprocamente, a música.

Agora falando do club mesmo, como você descreveria sua vibração para nós brasileiros naquele momento especial da noite que apenas um residente como você consegue captar tão bem?

Não tem muito o que dizer ou explicar, é algo mágico que acontece pelo simples fato do Bassiani possuir os dançarinos mais leais e dedicados do mundo.

Você consegue recordar quando se apaixonou por essa musicalidade e a ocasião em que decidiu se tornar um artista dedicado a promovê-la e produzi-la? Eles se encontraram no mesmo momento feliz?

Claro! Há cerca de quinze anos eu estava estudando na Inglaterra no verão e um garoto me deu um disco de Drum & Bass. Eu ouvi faixa por faixa e me apaixonei por cada uma, sendo que depois fui ver o mesmo DJ tocando num club famoso na Georgia à época chamado Adjara Music Hall. Foi aí que pensei “Uau! Eu quero ser esse cara que consegue manipular meus sentimentos tão bem com a música”.

Eu era bem jovem, acho que tinha dezesseis, e não me deixavam entrar nesses lugares por minha idade. Mas sempre conseguia dar um jeito de ver o que queria, mesmo que fosse pulando muros ou cercas e entrando ilicitamente…

Pode nos contar mais acerca de seus outros projetos como ‘Stare At DJ’ e ’11th”? O conceito ou propósito por trás deles?

Havia um tempo em que não tinha muita coisa rolando em Tbilisi e começamos a fazer eventos secretos chamados Stare At DJ. A localização era mantida como segredo e revelada apenas através de mensagens no seu celular quando a enviássemos para você via SMS. Foram tempos muito bons e essas festas foram as mais legais na cidade em sua época. Tanto que acredito que ajudamos a cena local a se desenvolver com esse projeto.

O “Décimo-Primeiro” do nome vem do andar de um antigo edifício pós-soviético no qual muitos artistas hoje célebres possuem seus estúdios, entre eles Newa, Zitto, Rezo Glonti e muitos outros. Nós também temos uma escola ali, onde eu e meus amigos ensinamos jovens a tocar e produzir, para que a cena de Tbilisi se mantenha sempre revigorada.

E para encerrar: o que é a música na sua vida? O que ela representa para você?

Música é minha vida, sou eu quem não representa coisa alguma sem ela.

A música conecta.


Equipe de reação do portal Alataj, focada em levar conteúdo cultural ao público antenado na música eletrônica.

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