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Dez anos depois: a importância do Mannheim Sound e seu principal representante, Nick Curly

Por Bruna Calegari

Se hoje você chega no club e se assusta com a quantidade de camisolas pretas e braceletes de couro, saiba que nem sempre foi assim. Se agora tudo gira em torno do techno, pouco antes de 2010 o mundo eletrônico entrava no vórtex do chamado “deep house”. A onda repaginou line-ups, criou festas e labels mais coloridas, apresentou hits-chiclete e gerou filhos pródigos, mas também bastardos (o Brazilian Bass, por exemplo, seria impossível sem influência do som que rolou no auge do deep house). Dentro deste grande espectro destacavam-se micro-movimentos que orbitavam ao redor do house (não tanto do Deep) como o Mannheim Sound. A ideia desta matéria é trazer para a língua portuguesa um resumo de como este movimento foi responsável por influenciar na evolução da própria música eletrônica ao longo de uma década.

Faz quase dez anos que esta expressão viu a luz do dia – ou as cores brilhantes da noite – pela primeira vez. Aconteceu em 2008, quando muitas músicas com base muito semelhante começaram a surgir da cidade alemã de 300 mil habitantes. A house music cadenciada com elementos percussivos, revigorantes mas delicados, foi o enredo perfeito de uma compilação que ganhou o mundo, From Frankfurt to Mannheim (2009) criada por Reboot e Sascha Dive e lançada na gravadora de Nick Curly, a Cécille Records. Quase em 2018, é curioso lembrar como, em 2008, as compilações eram importantes! Os fãs tinham pouco acesso a informação como hoje, portanto era comum colecionar e emprestar CDs importados, que eram caríssimos. Assim, ondas podiam surgir com apenas um CD que rodava um grupo de amigos.

Falei com Nick Curly, o responsável por encabeçar o movimento do som de Mannheim (ao lado de Johnny D, Ray Okpara, Gorge entre outros) especialmente por ser o bossman de dois selos importantes em âmbito mundial: Cécille e 8Bit. “Literalmente logo que começamos os selos, a mídia especializada começou a se referir ao som da Cécille, 8Bit e Oslo Records como Mannheim Sound. De repente os selos ficaram ultra hypados e é inegável como isto abriu muitas portas para todos nós, artistas.”

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O contexto da criação do movimento de Mannheim é um ponto importante: hoje a cidade sozinha é sede de 50 selos de música eletrônica, quando o Brasil inteiro tem 120 (fonte: Resident Advisor). Devido a uma situação de constrição geográfica, mais o grande interesse da comunidade em música eletrônica, unida ao pouco acesso à informação do início dos anos 2000, seria mais simples que o movimento surgisse na Mannheim de 2008 do que em Brasília, hoje. Afinal, se hoje as maiores influências de um fã de música eletrônica vêm da internet e seus algoritmos, antes elas vinham exclusivamente dos clubes e amigos: “Mannheim me influenciou muito. Especialmente meus amigos e as primeiras festas aqui. Há quase vinte anos frequentávamos o Vibration Club, do qual me tornei residente. Ficava numa floresta entre Mannheim e Karlsruhe. Houve também o Club Milk, que foi muito importante para toda essa cena”, afirma Curly.

É obvio, mas não custa pontuar: em nenhum momento existia a pressão de criar um movimento. Grupos de amigos frequentando clubes e ouvindo música despretensiosamente geraram o som de Mannheim e não uma proposta utópica de importar um estilo de outro lugar ou empacotar um novo subproduto musical para comercializa-lo. A palavra-chave é “organicamente”, desenvolvendo um Zeitgeist, ou a confluência de fatores perfeita: “Até hoje acho engraçado que as pessoas usem este termo, porque eu só venho fazendo o que faço desde o início. O começo da minha carreira foi um momento muito interessante para mim, e talvez tenha sido o melhor momento para a música eletrônica na época. As pessoas eram livres, muito eufóricas, e curtiam muito a música.” – diz Curly, despretensiosamente negando o título que detém há mais de dez anos.

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Porém, nem tudo são flores. Em um cenário que muda rapidamente, os movimentos tendem a durar tempo proporcional ao hype da mídia e público. Como um artista que foi considerado líder de um movimento pássaro lida com as mudanças do mercado? Nick bota fé no seu taco e é otimista: “Para mim, todo movimento de renovação é positivo. A cena da música eletrônica tornou-se tão grande nos últimos anos que todos nós podemos aproveitar nossos cenários de forma positiva. Se isso acontece financeiramente ou musicalmente não importa, no fim das contas é benéfico para a cena. Hoje, por exemplo, o hype do techno está de volta: essa seria a minha primeira observação. Países como o Chile e a Argentina estão vendo um enorme aumento no techno nos últimos anos, e eu particularmente gosto”.

Vira, vira, virou. Novos hypes como o techno arrastam mais público e os formadores de opinião estão de olho em novos movimentos. Nick preferiu ver como oportunidade para encorpar seus selos, desenvolver sua linha de som e dar dois passos para fora da moda, reencontrando os fãs do som que é sua marca registrada, agora com muito mais maturidade do que quando o movimento estourou: “Quando o Mannheim Sound começou, todos nós experimentamos os mesmos níveis de sucesso. Eu acho que o que mudou é como cada pessoa decidiu seguir disso. Aprendi que ninguém pode agir como se entendesse do mercado. Eu sei que é cliché, mas você tem que estar preocupado(a) em se melhorar constantemente pois no fim do dia, o importante é fazer música e empurrar os sons em uma nova direção. Muitos artistas ficam presos em seu sucesso e desfrutam da festa, do dinheiro, das drogas, seja lá o que for. Esquecem que a música é o que o torna famoso, então você não pode ignorá-la.”

Nick Curly continua em ótima forma à frente da 8Bit e Cécille Records, e retorna ao Brasil em Março de 2018. Mais sobre o Mannheim Sound:

A música conecta as pessoas! 


Equipe de reação do portal Alataj, focada em levar conteúdo cultural ao público antenado na música eletrônica.

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