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E agora, Maringá? Qual o futuro da cena na cidade após o fechamento do Nite Club?

O ano começou mais triste para a cena nacional. Um dos clubs mais tradicionais do país anunciou o encerramento de suas atividades. O Nite Club fechou as portas, após quase 18 anos de história, com a festa Last Nite. O ato final foi no dia 14 de Janeiro e diferentemente de outras noites históricas da casa, a festa não teve a presença de um big headliner. Ao invés disso, o staff contou com o apoio de artistas regionais, que fizeram a noite acontecer dentro e fora da pista.

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O anúncio do fim das atividades no club surpreendeu muita gente, mas os motivos que levaram a tal decisão já eram conhecidos por algumas pessoas há um certo tempo. O Nite e toda cena maringaense de dance musi underground passam por um momento turbulento há algumas temporadas, oscilando muito entre altos e baixos – em 2015, por exemplo, a cidade perdeu outro club importante, a Mousik. Com a confirmação da forte crise do ano passado na economia e o aumento do dólar a situação ficou ainda mais difícil e o declínio foi eminente.

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Fundado em Outubro de 1998, o Nite sempre ocupou papel de formador de opinião na região de Maringá – terceira maior cidade do Paraná. Além disso, conseguiu reunir na pista uma variedade de tribos interessante. Ele também foi capaz de desenvolver algo raro: atribuir alto valor de entretenimento a sua promoção, mesmo quando artistas mais undergrounds passavam pela casa. Diversas gerações dançaram na pista do Nite e o ponto final dessa história representa o fim de diversos empregos diretos e um grande ponto de interrogação na cena eletrônica da cidade.

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Na procura por um entendimento mais profundo sobre a história do Nite Club, conversamos com Thaís Hilgemberg e Anna Lígia Cordeiro, duas pessoas importantes na consolidação da marca a nível nacional. Elas falaram um pouco sobre as memórias pessoais referentes ao trabalho na casa e resgataram informações importantes, exclusivas para o Alataj. Confira abaixo:

1 – Olá, Anna! Muito obrigado por nos atender. Sem dúvidsa a notícia do fechamento do Nite pegou muita gente de surpresa e representa um momento triste para a cena do Paraná. Vocês tem planos de um novo negócio na área da música eletrônica? Qual o futuro da marca Nite? Chegamos realmente ao fim?

Thaís: Olá! Agradecemos desde já o contato. O futuro ainda é um pouco nebuloso, porém não pensamos em encerrar totalmente. Os caminhos trilhados até aqui nos deram bagagem para seguir levando boa música de várias formas para aqueles que realmente se interessam por ela, por enquanto seguiremos com alguns eventos externos esporádicos em Maringá e região, até que os próximos passos sejam dados, seja no agenciamento de alguns artistas que continuamos acreditando e que acabam um pouco sem apoio das grandes agências, ou também apoiando outros núcleos, eventos e clubs. A musica não para e estamos nos preparando para o futuro.

2 – O Nite por anos foi a grande referência para a música eletrônica na cidade. Quais motivos levaram o club a fechar as portas?

Thaís: O Nite Club fazia parte de um conjunto de estruturas, não caminhava sozinho, não tinha sua independência. Um club de música eletrônica que tem sua independência, hoje em dia, já enfrenta diversas dificuldades pra se manter, no nosso caso se complicou ainda mais devido ao contexto ao qual estávamos inseridos. Pelo alto custo, a cena atual com alta demanda para eventos itinerantes, aliado a todas essas questões internas, optamos por abandonar todos os vícios e nos preparar para o futuro de forma mais saudável.

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3 – Maringá é uma cidade que possui grande abertura para outros estilos musicais, mas percebo que nos últimos anos não foi uma tarefa fácil introduzir artistas mais conceituais na cidade. Você acredita que uma curadoria mais comercial poderia ter salvado o club ou o buraco é mais embaixo?

Anninha: O que sempre esteve presente em toda história do Nite foi sua atenção ao dinamismo cultural, as coisas mudam, o público muda, o club sempre esteve à frente dessas mudanças, com uma curadoria artística impecável, digna de grandes centros e compatível com a realidade. A cena eletrônica está passando por uma mudança de geração, a cultura da noite também está passando por grandes transformações, ao menos aqui, o futuro da cena clubber fica um pouco incerto. Dentre várias mudanças, um fator primordial foi o momento econômico, além dos cachês exorbitantes, o ticket médio de consumo despencou, o que inviabilizou a continuidade desse trabalho independente do segmento musical.

4 – São 18 anos de história e milhares de empregos gerados. Quais são suas melhores lembranças das noites de Nite? Quem foram os seus artistas preferidos que já passaram pela cabine do club?

Thaís: Com tantos artistas em 18 anos de club fica difícil citar os melhores. Foram inúmeras noites inesquecíveis onde pudemos demonstrar todo nosso amor pela música e o nosso respeito por cada batida. Danny Daze, Sonny Fodera, Justin Martin, Pleasurekraft, Lou Lou Players, Gui Boratto, L_cio, HNQO, Renato Ratier, Amanda Chang,  Doctor Dru, Kaskade, Phonique são só alguns exemplos entre tantos outros que respeitamos. E é claro, todos os warm ups realizados para todos esses grandes artistas pelo nossos residentes, principalmente os de Ricardo Zapp!

5 – Ano passado Maringá teve o fechamento de um outro club, com uma boa estrutura de funcionamento também e esse ano o Nite anuncia o encerramento de suas atividades. Quão preocupante é o futuro da cena na cidade?

Anninha: Vamos continuar trabalhando, fortalecendo núcleos e coletivos que tem o mesmo amor ao que fazem. O trabalho pela cena certamente continua, pois é algo que corre em nossas veias. Certamente a preocupação ocorre, principalmente decorrente desse momento incerto. Não queremos que a cena local vire refém dessa tendência que ronda o país de lines repetitivos, com uma curadoria pautada em apenas os ditos ticket sellers, com foco apenas lucrativo. O nosso objetivo sempre foi oferecer ao público o que estava além de suas expectativas e a força motora de tudo isso sempre foi o amor à música.

6 – Vamos encerrar relembrando algumas noites especiais? Para você, quais festas foram as mais representativas e marcantes na história do Nite? Obrigado!

Thaís: Certas noites foram essenciais pra continuidade desse trabalho e determinantes pro fortalecimento da cena regional. A família Hilgemberg sempre foi visionária e reinventou o conceito da noite por aqui. Projetos ousados como NiteLive, Moog 808, XVII eras, entre outros, possibilitaram noites com artistas icônicos como Amirali, Danny Daze, NTFO, Audiojack, Daniel Bortz, Boris Brejcha; assim como importantes projetos nacionais que inovaram a cultural local, Gui Boratto, Lacozta, Gaturamo, BLANCAh, Tessuto, L_cio. Foram noites épicas, que marcaram gerações de uma maneira ímpar e única!

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Adeus, Nite! :'(
A música conecta as pessoas! 


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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