Alataj entrevista Soundman Pako

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É difícil afirmar com precisão qual é a fórmula para o sucesso, se é que realmente existe alguma. Talento, dedicação, timing e acesso a oportunidades são algumas das variáveis que compõem a equação para a tão sonhada glória no meio artístico. Mais difícil que isso, é manter uma carreira que resista à ação natural do tempo e à busca do público por inovação. Soundman Pako, um dos pioneiros da música eletrônica no Brasil, certamente sabe como operar essa equação e sustentar uma jornada que já soma mais de três décadas.

Uma das características que favorecem essa longevidade da carreira de Pako é provavelmente sua capacidade de se reinventar e de desbravar novos horizontes. De cantor/fundador da banda Abaixo de Deus, ícone da cena underground dos anos 80, a apresentador de rádio, até se tornar oficialmente DJ e produtor, ele assumiu diferentes posições na indústria musical, que se combinaram para formar a sua identidade atual.

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Desde que começou a discotecar profissionalmente, no início da década de 90, Soundma Pako já demonstrava seu talento para o comando das pistas e as conquistas que teve ao longo da carreira confirmaram tal fato. Entre elas, sua residência na Vibe entre 2003 e 2004, formação do Rolldabeetz ao lado de Fabø e, junto com ele e HNQO, criação da gravadora Playperview. Gentilmente, Pako conversou conosco sobre sua trajetória na música e também preparou uma playlist para nossa série Alataj Invites, no Spotify. Confira:

Alataj: Olá, Pako! Tudo bem? Obrigado por falar conosco. 30 anos de carreira, sem dúvidas uma bela conquista. Nessas três décadas de pista, o que exatamente te manteve motivado para seguir criando e trabalhando em alto nível?

Soundman Pako: Olá, tudo tranquilo. Então, essa resposta é fácil. Com certeza é o prazer que tenho pela música em geral. Trabalhar com música me deixa sereno, eu esqueço do mundo. Se não fosse por isso, com certeza eu já teria deixado o mercado há uns 10 anos.

Como DJ, você viu a música eletrônica nascer e se tornar o que é hoje aqui no Brasil. Na sua visão, o que há de melhor nesse atual momento da nossa cena e o que perdemos de mais importante com relação ao período onde tudo começou?

Cara, eu poderia fazer um TCC sobre essa pergunta, mas vou te responder da maneira mais direta que eu conseguir colocar. A parte boa é que hoje continuamos tendo muitos focos de núcleos alternativos pipocando por aí. A estrutura é zero como era lá no início dos anos 90, mas a qualidade musical que é (e sempre foi) o objetivo principal desses núcleos se mantém elevada. Enquanto houver o som “esquisito”, teremos sempre a chance de ouvir o novo.

Sempre haverá esperança de que nem tudo está perdido. E, respondendo à segunda parte da pergunta, acho que perdemos a essência, a origem, o comprometimento sério com a música por mais que ela sirva para nos divertir. Zygmunt Bauman traz o conceito sobre a filosofia líquida, e eu sobre a música líquida: você a pega pelas “mãos” e ela escorre pelo seus dedos. Ela é descartável, sem conteúdo, sem vida entende?

Sabemos que sua pesquisa vai muito além do house do techno. Além da eletrônica, quais outros movimentos musicais impactaram o seu digging nesses 30 anos de carreira?

Nasci em 1965 e só não vi o rock nascer, já o resto dos movimentos que surgiram depois participei pelo menos dos mais legais [risos]. Ainda sou punk na essência e levo a filosofia do “Do It Yourself” para tudo em minha vida. Vivi o Funk, Soul e a Disco, a New Wave, o Ska, o Technopop, o Industrial. Fui Rapper e ainda hoje ouço tudo isso quando o tempo me permite. Amo tocar Funk, Soul, Disco e Rap.

É notório que você possui uma relação muito intrínseca com a cena eletrônica de Curitiba. Na sua opinião, o que você ofereceu de melhor para cena da cidade? Em contrapartida, quais características do cenário local foram decisivas para o seu crescimento e amadurecimento?

Falar sobre si próprio não é legal, mas enfim. Alguns amigos e conhecidos, hoje entendidos no assunto, consideram que eu sou um dos pilares por todo esse movimento em torno da música eletrônica e do rap que estamos vivendo nos dias de hoje em Curitiba. De fato e sem demagogia, lá no início eu não imaginava hoje ser reconhecido com tal. Acho que meu mérito nisso tudo é que eu trouxe para a época sons que não rolavam em nenhum outro lugar. Músicas que eram vistas como de “gueto” que eu tocava para uma meia dúzia de pessoas dançarem. Pessoas que estavam querendo ouvir algo que não tocava nas rádios ou nos raros clubes que existiam na época.

Nesse bolo aí você também pode incluir o rap e a e-music. Eu trouxe o novo para uma geração entediada assim como eu. Eu tocava o “esquisito” [risos] e como o que eu tocava ninguém tocava, acabei criando sem querer um fã clube de pessoas esquisitas e maravilhosas que só tinham como objetivo dançar até a hora que fosse possível. Isso me obrigou a me aperfeiçoar no estilo de música que eu estava tocando, no caso, o rap e o eletrônico.

Tive que me virar nos 30 para conseguir discos desses estilos, coisa que no final dos anos 80 era quase impossível. Mas valeu muito a pena, foi aí que aperfeiçoei minha técnica e fortaleci minhas bases para chegar 30 anos depois aqui, firme, forte e uma referência para quem se preocupa em saber sobre a história e a cultura da e-music e do rap em Curitiba e, porque não dizer, no Brasil 🙂

Como você enxerga as dificuldades e vantagens de se viver de música no Brasil hoje? Quais cuidados e preparativos você considera indispensáveis para jovens DJs?

Acho que hoje praticamente só existem dificuldades, tanto para o mainstream, quanto para o underground. Não quero parecer pessimista, nem desanimar as futuras gerações mas a situação não é das mais favoráveis. Temos milhares de DJs no Brasil e a cada mês aparecem dezenas. Esse modismo todo deu uma esfriada agora porque a profissão do momento é ser Chef de Cozinha. Além disso, estamos passando por uma crise no Brasil que ainda vai levar alguns anos para ser normalizada. Estamos com poucos clubes no país e a grande maioria sempre contrata o mesmo “lineup de sucesso”.

Temos grandes, mas poucos festivais que, para se manterem em atividade, seguem a receita de bolo do “lineup de sucesso”, senão a grande massa não comparece. Estamos presos ainda a cultura de que “em time que está ganhando não se mexe”. E quem perde com isso? Todo mundo perde: os artistas, os contratantes e principalmente o público, que vai ficar dançando ao som do mesmo DJ em todo o Brasil. Temos ainda a sorte de que alguns desses festivais abrem espaços alternativos para a galera que curte o tal som “esquisito”, mas mesmo assim é muito difícil eles abrirem espaço para DJs novos, alguém que não tenha uma grande audiência nas mídias, sabe?

Então, fica difícil achar a vantagem de, hoje, se viver de música no Brasil. O seu talento, a sua pesquisa, a sua técnica, são as últimas coisas que vão contar para você ser contratado hoje em dia. Eu poderia te fazer uma lista enorme de excelentes DJs que não tocam hoje por não terem interesse em se render à essa vida “instagramável” e manter uma audiência digital. Aí, alguns vão me dizer: “ah, Pako, o cara parou no tempo”. De jeito nenhum! São DJs que eu conheço, que amam a música, mas que não se sujeitam a esse formato que virou ser DJ no Brasil hoje em dia.

Veja o exemplo do rock no país: parece que não existe, mas tem bandas ótimas, só que não é o que a grande massa quer ouvir. O que eles querem ouvir a gente sabe, infelizmente. Aconselho a essa nova geração que tem a intenção de viver de música, seja como DJ ou como banda, para pensar bem. Você vai ter que realmente gostar muito dessa arte para se manter longe dos novos moldes que formam a cultura da música eletrônica no país. Pra quem não entendeu, vou ser mais direto: ou você faz parte da máquina, ou vai ser feliz ganhando alguns trocados por aí, tipo eu [risos].

Qual norte guiou sua pesquisa para criação dessa playlist que acompanha a entrevista?

Tentei fazer um resumo de tudo que já toquei numa pista de dança ou fora dela desde o meu início em 1989. Foi difícil, faltou muita coisa legal que tive que deixar de fora por falta de espaço, mas meu início no rap e no eletrônico estão ali, juntamente com as outras coisas que vieram antes e outras que vieram depois disso. Realmente eu espero que as pessoas ouçam tudo que está ali para um aumento de massa crítica.

Esse ano o programa de rap Black Tie completa 10 anos de transmissão pela Mundo Livre FM, todas as quintas às 8h da noite. Eu e meu parceiro Lufinho somos líderes de audiência e assim continuaremos. Esse é um projeto que me faz muito feliz. Faço rádio desde a extinta rádio Estação Primeira, que veio ao ar em 1986. Tenho alguns projetos na gaveta de um programa de soul e e-music para breve no rádio. Eu e Fabø estamos produzindo muito para o Rolldabeetz e para esse segundo semestre temos muita coisa a ser lançada. Temos um EP estranho de “rock” que sairá com um pseudônimo que ainda não escolhemos. A história não pode parar de se contar a não ser que ela chegue ao fim. E, como a minha ainda não chegou, estou ainda trabalhando para aqueles que quiserem me ouvir.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

Eu já vivi de música e hoje eu sobrevivo dela [risos]. Tem gente que tem paixão por futebol, e eu tenho pela música. Mas é uma paixão verdadeira e não uma palavra feita para impressionar no release. Dependo dela para sobreviver e é o que farei até onde me for permitido, física e/ou mentalmente [risos]. Muito obrigado pelo carinho de sempre e me perdoe se fui sincero demais em algumas perguntas.

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A música conecta.


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