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Alataj entrevista Tessuto [especial Carlos Capslock 8 anos]

No próximo dia 18 de Janeiro a festa paulistana Carlos Capslock celebra seus 8 anos de história com um festão na Vila dos Galpões em São Paulo. O evento encerra mais um ciclo do núcleo criado e liderado por Tessuto. Ao lado dele estarão ANNA, Gui Boratto, Caio T e os residentes L_cio e Sebastian Voigt. Mais informações sobre o evento você confere aqui.

A Capslock é uma das principais festas do movimento de contracultura de São Paulo, que ganhou força e influenciou toda uma nova geração clubber nos últimos anos. Desde sua criação, ela tem como marca registrada o apoio a artistas nacionais e regionais, não apenas DJs, mas também profissionais visuais e performers. Essa característica ajudou a tornar Carlos Caplsock um personagem/festa com grande importância para o desenvolvimento da eletrônica nacional e, posteriormente, a trazer um ar fresh para o nosso cenário.

O atual momento é diferente se comparado ao período do começo do projeto. De 2000 pra cá, muitas outras festas surgiram em São Paulo, algumas com destaque internacional como a Capslock, a realidade das locações se transformou por completo e os custos inflacionaram. Ainda assim, a Carlos Capslock segue vive e pulsante na figura de Tessuto, que concedeu essa entrevista e gravou o mix que a acompanha de forma exclusiva para o Alataj. Confira:

Alataj: Olá, Tessuto! Tudo bem? Obrigado por nos atender. Em Janeiro rola o aniversário de 8 anos da Carlos Capslock, que já tem seu line up anunciado. Olhando para o começo dessa trajetória, qual o balanço que você faz com relação a tudo o que foi construído até aqui?

Tessuto: Hey! Tudo bem sim! Muito obrigado a vocês por ter me convidado para essa entrevista acompanhada de um podcast. Sim, dia 18 mais precisamente. Eu acho que o saldo foi muito positivo. Ajudamos a criar e moldar uma nova fase da cena independente de São Paulo e posteriormente do Brasil. Inspiramos muita gente a seguir nossos passos, houve uma inserção dos performers em diversos eventos. Eu lembro que quando a gente começou a por artistas para performar nas nossas festas foi meio que uma novidade. Normalmente você só encontrava shows de Drags em festas de Tribal House e era entre um DJ e outro, paravam o som e tocavam a música escolhida pelo artista. Também ajudamos a explorar e descobrir novos locais em áreas teoricamente abandonadas pelo estado. Uma coisa que sempre me deixa muito feliz e que sempre recebo mensagens ou até mesmo depoimentos pessoalmente sobre como a festa ajudou a mudar a vida de algumas pessoas. Já rolou todo tipo de depoimento. Do tipo “eu não tinha mais forças para viver e vocês me ajudaram a sair dessa”; “vocês me ajudaram a me libertar de preconceitos”; “vocês me ajudaram a enxergar que eu poderia ser quem eu queria de verdade”; mas em geral é sempre: ”vocês mudaram a minha vida”

Ah e teve um rapaz que sempre que me encontra diz que tinha preconceito contra homossexuais e que a festa fez ele entender o quão errado ele estava. Tudo isso é muito gratificante. Trouxemos diversos DJs legais para tocar, abrimos espaço para outros que não costumam tocar muito pois não tem uma carreira consolidada. Descobrimos novos talentos, sem nunca esquecer da galera das antigas que começou essa cena. A Capslock é a única festa independente onde você pode ver DJs como: Mau Mau, Renato Cohen, Anderson Noise, Maurício Lopes tocando, todos sem exceção.

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, pessoas no palco e noite

Como você enxerga o futuro da Capslock no calendário de festas da da cena paulistana e até nacional? Há algum plano mais sólido sendo desenhado para o futuro ou os projetos ainda estão sendo realizados a curto/médio prazo?

A Capslock sempre foi uma festa muito orgânica o que ao meu ver fez com que tivéssemos tanto sucesso e permanecermos relevante no cenário nacional e internacional por tanto tempo. No momento estamos focados nos showcases Brasil afora e no nosso selo. E é claro, em manter a festa ativa. Os últimos anos foram bem difíceis para o cenário independente. Gentrificação e posteriormente uma enxugada geral nas opções de locações, a burocracia da legalização é sufocante (para todos, clubes, festas, bares). Precisamos de uma reforma urgente nesse sistema e que sejamos reconhecidos como uma maquina cultural que alimenta toda uma cena que vem na sequência. Trazemos turismo para a cidade, geramos emprego. Chega de ser marginalizado.

Dentre os nomes que você já recebeu na Carlos Capslock, há algum que você considera mais importante ou especial? Você tem algum artista que é o seu grande sonho de consumo para a pista a pista da Capslock?

Pra nós, todos os artistas são muito especiais. Porém alguns a gente sabe que são muito mais difíceis de conseguir trazer por uma questão de custo e agenda. Alguns para nós foram memoráveis como o Pachanga Boys no aniversário de 3 anos. Eles fizeram uma única apresentação em São Paulo em toda sua carreira e ela foi na nossa festa! O DJ Hell também foi muito especial, assim como o Isolée, Ryan Elliot, Virginia, Alexander Robotnick, Andy Blake, Gui Boratto, Peak & Swift, entre muitos outros. Meu sonho de consumo eu não posso te contar porque senão alguém vai acabar trazendo antes de nós.

Desde o surgimento da festa, muita coisa mudou no que diz respeito a locações em São Paulo. Como vocês projetam o futuro da festa nesse aspecto? Qual a sua avaliação em relação aos atuais lugares disponíveis?

Eu abri duas locações nos últimos dois anos: Fabrika de Tintas na Zona Norte e Fabrika de Azeite na Zona Sul. Ambas deram errado por questão de vizinhos. Eu ainda estou a procura de um local para abrigar tudo aquilo que estávamos propondo, feira orgânica, workshops, estúdio, bar, aulas de inglês, e muito mais… ah, e é claro, local pra festa. Os lugares são muito legais mas já rolou muita coisa por lá. Seria bom ter algo novo na cidade.

A imagem pode conter: 8 pessoas, pessoas no palco, noite e área interna

A edição de 8 anos da Capslock terá 3 dos principais nomes do techno brasileiro a nível internacional na atualidade. Quão importante para o desenvolvimento da cena nacional é essa valorização do que há de melhor por aqui?

Eu acho isso essencial para nossa cena. Eu fiz questão de preparar esse line pensando nisso. Já fazia muito tempo que a gente queria fazer a ANNA e por diversas vezes não deu certo. Mas, finalmente conseguimos. O Gui Boratto já tocou com a gente e foi maravilhoso. O L_cio é nosso residente e está sempre conosco. Mas, os 3 juntos…nunca tinha imaginado antes. Com certeza vai ser um upgrade para a nossa cena.

A Carlos Capslock sempre prezou muito por isso. Até o quinto ano da festa a gente não tinha headliners internacioanis com frequência, para não dizer que não tinha, era uma vez por ano. A gente colocava 2 mil pessoas somente com DJs locais. Mas isso acabou. Diversas festas começaram a ter artistas internacionais em todas as suas edições, muitas delas desde o começo de suas histórias e ao meu ver isso prejudicou muito o desenvolvimento dessa cena, pois acostumou mal o nosso público e desvalorizou os artistas locais. Hoje em dia se você não tem um headliner, você está em tremenda desvantagem. É muito legal ter artistas de fora mas ao meu ver demos um passo para trás nos últimos anos por conta disso. Não acho que isso seja certo ou errado, mas é importante analisar os resultados das nossas ações. Além de encarecer as festas, tivemos todas essas outras consequências.

A última! Como a Carlos Capslock ajudou o Tessuto a evoluir enquanto artista e ser humano?

A Carlos Capslock (festa e personagem) me ajudou muito como profissional e cidadão de bem [risos]. Me fez libertar de diversos medos e preconceitos de comportamento que eu tinha com relação a mim mesmo. Me fez ser menos materialista, mais humano, mais colaborativo, mais tolerante, mais compreensivo.

Já profissionalmente me ajudou a conquistar espaço tanto no Brasil como na Europa. A festa influenciou muito a cena nacional e a gente colheu tudo o que plantou. Para você ter uma ideia, no ano passado o DJ Hell me mandou um e-mail dizendo que havia ouvido falar da festa através do Igor Cavalera e que gostaria de tocar conosco.  Aliás, ele vai tocar esse ano novamente. Aguardem mais notícias.

A imagem pode conter: 1 pessoa, sorrindo, multidão e atividades ao ar livre

A MÚSICA CONECTA. 


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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