Thomas Schumacher é um DJ e produtor alemão, famoso por seu trabalho no selo Electric Ballroom e colaborações com grandes nomes do cenário internacional – incluindo o brasileiro Victor Ruiz. Schumacher é o tipo de artista que não se permite estacionar no tempo e está constantemente em busca de novidades e revoluções para o seu som. Prova disso é a evolução de sua carreira em paralelo com o crescimento do techno na Europa.

Tal característica pode ser justificada em sua origem na música. Thomas começou a trabalhar com música eletrônica em 1991, em Bremem na Alemanha. Naquela época, o techno era definitivamente o som do futuro e pouco se sabia a respeito do estilo, muito menos sobre sua sustentabilidade para os anos seguintes. Thomas Schumacher e seus companheiros sabiam que estavam a frente de algo inovador e esse talvez tenha sido o carro chefe da motivação para que esse simpático artista começasse a quebrar as mais diversas barreiras.

Atualmente morando em Berlim, Thomas é um dos nomes mais admirados do techno contemporâneo- seu perfil sonoro soa fresh e até mesmo futurístico em algumas ocasiões. Com uma agenda disputada, captar a atenção de Schumacher foi algo realmente especial. O DJ topou responder 4 perguntas para nossa equipe e de quebra, entregou um mix exclusivo para o nosso Alaplay Podcast. Confira o resultado do bate-papo e do mix abaixo:

1 – Olá, Thomas! Obrigado por nos atender. Você está na música há mais de duas décadas e certamente sente as transformações causadas pelo tempo. O que você sente mais falta em relação ao período que começou? Se tornar um artista de sucesso hoje é mais fácil ou difícil?

Obrigado pelo convite para essa entrevista. Eu comecei minha carreira no inicio dos anos 90, por volta de 1991 pra ser mais exato. Naquela época não tinha uma cena global do techno. Na minha cidade natal, Bremen, havia apenas dois clubes que tocavam “o novo som”, que era uma mistura de Acid House, Chicago House e os primeiros discos de Techno. Eu ia regularmente a ambos os clubes, e adorava tudo sobre a experiência. Gostava de sair e festejar a partir de uma perspectiva de DJ e da perspectiva de um dançarino. No final, comecei a organizar meus próprios eventos junto com um amigo. Dentro de um ano, nossas festas se tornaram tão bem sucedidas que os dois proprietários do clube me pediram para se tornar o DJ residente. Mas em vez de dizer sim a eles, comecei a ter meus eventos já estabelecidos em ambos os clubes. A grande diferença entre meu começo e hoje é o profissionalismo e o globalismo. Nos primeiros dias da cena do techno, quase ninguém conseguia ganhar a vida com DJing. Na verdade, ser DJ às vezes era visto como desagradável e algumas pessoas tinham pena do “pobre DJ” – você pode imaginar? As coisas mudaram tanto e, em muitos aspectos, mudaram para melhor. Havia um espírito especial e único que unia todos nós naqueles dias. Sabíamos que fazíamos parte da revolução musical, fazíamos as coisas da forma que ninguém as tinha feito antes.

Para responder a segunda parte da sua pergunta: não acho que muita coisa mudou quando se trata de sucesso. Sempre será a mistura de talento, dedicação, carisma e sorte que decidirão sobre o sucesso.

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2 – Você foi um dos primeiros nomes internacionais a oferecer suporte ao Victor Ruiz – atualmente um grande expoente do techno brasileiro. Como você o conheceu? Há algum outro produtor brasileiro que está no seu radar atualmente?

Um amigo em comum nos apresentou em 2012 – D-Nox aka Christian Wedekind. Acho que ele sabia que o Victor estava na minha música e, enquanto Victor estava em Berlim, ele nos convidou para nos encontrarmos no meu estúdio. Tenho lembranças vivas daquele dia, Victor chegou muito humilde, quase tímido. Gostei do seu carisma e suas vibrações desde o momento em que entrou na minha vida. Quando ele tocou algumas de suas produções, fiquei surpreso! Seu estilo era tão único, cru e cheio de energia. Imediatamente eu quis lançar sua música no meu label Electric Ballroom. Avanço rápido, alguns meses depois e seu primeiro EP Draco/Serpens saiu em novembro de 2012 e se tornou um grande sucesso. Ainda toco essas faixas de vez em quando, e não importa onde estou, as pessoas ficam loucas. Para mim, este EP foi um marco na carreira de Victor, você poderia dizer que muitas cabeças estavam virando e as pessoas aqui na Europa começaram a tomar conhecimento. Victor mais tarde me disse que eu tive bastante influência nesta carreira – ele foi me ver tocar no D-EDGE em São Paulo, em 2011, e ficou tão impressionado com a música que essa noite confirmou o seu desejo de produzir techno. Quão bom é isso? Hoje o considero um dos meus melhores amigos, ele é como um irmão para mim, é ótimo tê-lo por perto. É claro que também fazemos um monte de música juntos, que é sempre divertido e inspirador. Nós trazemos o melhor de nós, basta ouvir o nosso novo EP, Soulforce. Mas isso não é tudo, nós também vamos fazer um b2b especial neste verão no festival Helene Beach, na Alemanha.

3 – As barreiras do underground e do mainstream estão cada vez mais turvas nos últimos anos. Você é o tipo de artista que se importa com tais rótulos?

Tento não me importar, e na sua maioria, isso funciona muito bem. Prefiro ouvir música com a mente aberta. Sou muito curioso por natureza e gosto de explorar o novo e desconhecido. Quanto mais você pensa em rótulos, mais você percebe que eles não fazem sentido. Quer um exemplo? Berghain! É sem sombra de dúvidas o clube mais famoso para o techno underground neste planeta, certo? Ao mesmo tempo, é também um dos clubes mais bem sucedidos comercialmente em Berlim. É um negocio próspero e atrai milhares de pessoas por semana. Eles ganham muito dinheiro. Os proprietários podem ser milionários e alguns dos DJs residentes famosos são assalariados bem pagos. Então, o que isso significa? Berghain é mainstream ou underground? É por isso que é melhor ficar longe dessas etiquetas e manter a mente aberta.

4 – De que forma estar frente a um selo de música eletrônica mudou a forma como você enxerga e lida com a música?

Eu experimentei os dois lados e há muitas razões que falam por cada um. Ser um artista que é contratado exclusivamente por um label pode ser a melhor coisa em um certo ponto da sua carreira. Por outro lado, isso tem um preço. Você não pode lançar sua música em outros labels por causa da exclusividade, você pode ter que esperar muito tempo para o lançamento das suas novas faixas. Mas o mais importante, você não tem controle sobre o que acontece. Às vezes o label pode até rejeitar suas faixas novas. Mas, novamente, também pode ser exatamente o que seria bom para você naquele momento. Particularmente, gosto de ambos. Acabei de lançar um EP na Noir Music, um label que eu respeito e admiro profundamente. Trabalhar com Noir é uma brisa totalmente inspiradora. Então, eu administro meu próprio selo Electric Ballroom, e aproveito a total liberdade criativa, não tenho que esperar para liberar minha música e também me trato com respeito. Além disso, gosto muito de trabalhar com artistas talentosos, estou sempre procurando música nova e excitante (sim, vocês podem me enviar demos). Não se esqueçam que eu só trabalho com pessoas que me levantam (e em troca, faço o mesmo), meu objetivo é criar um ambiente onde todos os envolvidos prosperem e se sintam salvos, acolhidos e respeitados. Isso traz para fora o melhor das pessoas e você pode ouvi-lo, vê-lo e senti-lo.

A música conecta as pessoas!