Review | Carta aberta ao Sónar

Por Inácio Martinelli

Não lembro quando foi a primeira vez em que ouvi falar de você. Porém, sei que desde então não tirei da cabeça o tal festival de música avançada e arte multimídia, que invadia Barcelona em junho. Sabia que um dia iríamos nos conhecer pessoalmente, mas não imaginava que o nosso primeiro encontro seria durante a sua comemoração de 25 anos. Que sorte a minha!

Um quarto de século de serviços prestados à música eletrônica. Não é para qualquer um. Como não podia deixar de ser, você preparou uma festa para ninguém botar defeito, com mais de 150 atrações. Uma verdadeira maratona que começava às 13h de um dia e só terminava às 7h do outro. Porém, quem não gostaria de percorrer esse circuito? A resposta veio em números. Cerca de 126 mil pessoas de 119 países resolveram aparecer para prestar uma merecida homenagem ao aniversariante durante os três dias (e duas noites) de evento.

Público – Divulgação

É inegável que você possui uma personalidade marcante. Arrisco-me até a dizer que você é um pouco bipolar. O Sónar Día é mais radiante, acolhedor e está sempre de bom humor. Já o Sónar Noche, possui um ego mais difícil de lidar, parece viver ocupado e pode ser desafiador se a pessoa não estiver preparada. Mas a questão é que as suas personalidades não são antagônicas. Na verdade, elas se complementam e você não seria o mesmo se não tivéssemos a oportunidade de conhecer ambas.

Tocar no seu aniversário é uma honra e a lista dos que tornaram essa data ainda mais marcante é longa. O que dizer do Damon Albarn em noite inspiradíssima com o Gorillaz? Desde a primeira música, ele se jogou na galera e lá marcou ponto em diversos momentos. E quanto ao maestro Laurent Garnier, que regeu o público em duas ocasiões diferentes? A primeira, na quinta, foi uma retrospectiva da carreira do ícone francês com todos os seus clássicos. Prato cheio para quem é fã. Já a segunda, foi um set de quatro horas fechando o SonarPub no sábado. Uma verdadeira aula de techno e de como construir um set, que segurou o público até o fim pois ninguém sabia o que esperar das próximas músicas.

Damon Albarn – Divulgação

James Murphy sabe cantar ao vivo. Confesso que sempre tive essa dúvida mas, apesar do visível cansaço após tocar três dias seguidos no Despacio, o americano comandou a usina de som do LCD Soundsystem como nunca. Já o duo BICEP levou o seu aclamado live set para uma pista lotada, com diversas músicas do excelente álbum homônimo de estreia. Uma ótima surpresa foi a ugandense Kampire, que apresentou a sua mistura de afrobeat, trap e muito bass diretamente da África; e a big band KOKOKO!, que veio do vizinho Congo para quebrar tudo nos gramados do Fira Montjuïc. Difícil era achar alguém parado.

KOKOKO! – Alba Ruperez

A sua parte mais experimental também foi marcante. Nomes como Russel Haswell, Sophie e Chino Amobi iam do noise ao dubstep e techno industrial em questão de segundos. Não é fácil de digerir. Não é simples de entender. Mas quem disse quem tem que ser? O fato de você dar espaço para esse tipo de som só mostra que a sua verdadeira preocupação é em olhar para o futuro e instigar o público. Se existe um lugar em que esses artistas podem apresentar toda a sua estranheza musical é nas suas pistas, Sónar.

Sophie – Divulgação

Não pense que eu esqueci do seu primo nerd. Aliás, ele também já faz tanto sucesso quanto você. Reunir 5900 profissionais, além de cerca de 3300 instituições e empresas para discutir sobre criatividade e tecnologia não é para qualquer um. O Sónar +D herdou os genes geeks da família e apresentou um prato cheio para quem se interessa por assuntos como inteligência artificial, big data e a nova internet, além de facilitar o encontro entre start-ups e investidores. Em que outro ~festival~ temos uma área inteiramente dedicada à realidade virtual com mais de 15 opções de storytelling para o público experimentar?

Além disso, tenho que confessar que fiquei muito impressionado com o Sonar 360º. A sua parceria com o grupo MediaPro superou qualquer expectativa. Me senti de volta aos tempos de colégio onde íamos ao planetário visualizar galáxias distantes. Porém, essa era a sua versão de um planetário, com projeções que ainda vão resso(n)ar na minha cabeça por um bom tempo. Outro destaque foi o domo com a instalação The Zero Gravity Band, onde imaginou-se como seria uma banda tocando no espaço. Nada poderia ser mais Sónar.

Sonar 360º – Divulgação

Por fim… resta apenas te agradecer. A música eletrônica precisa de você, Sónar.
Que venham os próximos 25 anos!

A MÚSICA CONECTA. 


Equipe de reação do portal Alataj, focada em levar conteúdo cultural ao público antenado na música eletrônica.

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