Review | Depeche Mode em São Paulo

 

Por Fabio Spavieri

AGAIN!

Após 24 anos, lá estava novamente em um show do Depeche Mode no Brasil. O local – Allianz Arena, é totalmente adequado e preparado para receber shows de grande porte, oferecendo lanchonetes, banheiros e piso 100% estável.

A última e única vez no país fora nos dias 04 e 05 de abril de 1994, no antigo Olympia em São Paulo, pela Exotic Tour. Turnê baseada no álbum Songs of Faith & Devotion de 1993, onde finalmente os DMs adotaram as guitarras e bateria acústica nas composições e ao vivo (já eram utilizadas discretamente em estúdio desde o álbum Black Celebration de 1986), já que o vocalista Dave Gahan mostrava um visual e comportamento ‘grunge’. Mas a base da banda sempre foi e serão os sintetizadores, desde quando Vince Clark (Erasure) – responsável por hits como Just Can’t Get Enough, era o letrista e chefe da banda.

Na época – 1994, começava a me aventurar como produtor de festas e para a minha alegria (e de alguns amigos), decidi inventar uma festa para a banda na casa noturna Columbia do Angêlo Leuzzi em São Paulo. Montamos uma festa para o sábado – 02/04, ligamos na produtora (Mercury), fizemos o convite, colocamos o DJ Magal como atração e ficamos na espera. Por volta de 2h da manhã, o então gerente Zé Maria sobe as escadas e anuncia: “Fabio, a banda chegou”. Tremi!

Bem, o resto são flashes na memória, nenhuma foto (era proibido clicar) e alguns flyers e vinis autografados. Imagina se na época houvesse Facebook, Instagram e o Live? Os shows no Olympia foram excelentes – assinados pelo fotógrafo e diretor de cinema Anton Corbijn (vide Control – o filme sobre o Joy Division), num clima soturno próprio do álbum de trabalho. Anton é ainda o responsável pelo ID, as capas, clips e tudo que cerca a imagem da banda. Nessa nova turnê – Spirit, meu amigo Gonçalo Vinha, bem que tentou armar uma festinha, mas a banda viajava para Los Angeles as 5h40. Bem, vamos falar de ontem?

SPIRIT

Gui Boratto entrou pontualmente as 20h45 para sua apresentação. Escolhido pelo próprio Martin Gore para abrir o show aqui, é sem dúvida merecedor por competência e por ser fã confesso da banda. É o brasileiro de maior destaque no universo da música eletrônica, trazendo consigo uma vasta experiência musical, 4 álbuns e remixes para Goldfrapp, Massive Attack, Pet Shop Boys, Moby, Bomb The Bass e outros.

Pontualmente as 21h45  – como britânicos que são, o Depeche Mode deu início ao show da turnê Spirit, e também 14º álbum do trio (que foi quarteto até 1994). O público esperava um show de hits, já que desde o álbum Exciter, a criatividade e produção musical – que fora o grande diferencial da banda nas mãos do ex-membro Alan Wilder e do produtor Flood (responsável por Music for the Masses, Violator e SOFD), fica a desejar. Não tem o mesmo tratamento de outrora, mas na minha opinião continua sendo agradável e mantém a essência que a banda propagou – mix de sintetizadores, instrumentos acústicos, melodias contagiantes, letras que abordam o sexo, relacionamentos, amor, fetiches e por que não, a política.

Vale ressaltar que o trio sempre convidou produtores competentes, como Tim Simenon (Bomb The Bass), Mark Bell (LFO), Ben Hillier e agora John Ford do Simian Mobile Disco. Mas para quem esperou 24 anos para revê-los e para quem nunca os vira ao vivo no país, não houve decepção, pois dentre as 20 composições do ‘espetáculo’, apenas 3 eram do Spirit e portanto menos conhecidas.

Abriram-se os canais de som com Revolution dos Beatles e em seguida, já com a banda postada em palco, soltaram Going Backwards. Dave Gahan entrou como um foguete, elétrico e já mostrou porque é um dos maiores vocalistas da atualidade. Seu timbre vocal barítono, invade todos os cantos do show. Sua presença de palco é um grande diferencial. It’s No Good e sua linha de baixo majestosa, vem logo em seguida com o refrão grudento e debochado.

Barrel of a Gun – praticamente a música tema da tragédia e ressurreição de Dave Gahan – que em 1996 sofreu uma overdose e ficou 2 minutos sem batimentos, sendo ressuscitado por paramédicos, traz uma bateria marcada, camadas tortuosas de sintetizadores e riffs desconexos de guitarra. Fico imaginando a felicidade do produtor Stuart Price (que também assina como Jaques Lu Cont, Les Rythmes Digitales, Paper Faces, Man With Guitar, Thin White Duke…) ao ouvir seu remix para A Pain That I’m Used To como a oficial da turnê – realmente o remix é muito superior a instrumentação original.

O show segue debaixo de chuva constante e fina, com Dave dançando e evocando a platéia, fazendo todo mundo cantar, bater palmas e balançar os braços. É uma comunhão musical, calcada pelo baterista Christian Eigner e o multifuncional Peter Gordeno – teclado, baixo e backing vocal. Andy Fletcher parece não fazer nada (eterno ‘clap your hands’) e até hoje ninguém entende a sua função no grupo. Dizem que é financeira, é amigo do Martin Gore desde o colégio e o homem do business. Enfim.
Martin Gore é um caso a parte, pois além de ser a alma e o cérebro do Depeche (Dave é o coração), é o compositor e letrista (hoje divide tal função com Dave Gahan, como “Cover Me”). Ele passa o show praticamente desapercebido até que entram seus riffs, backings e melodias, hoje mundialmente conhecidos, como Enjoy the Silence e Personal Jesus. Usa uma guitarra para cada canção, cada uma com sua devida afinação.

Um hino feito “Enjoy The Silence”, 24 anos depois da última passagem do Depeche Mode, com essa arena lotada e cantando numa só voz não podia passar batido por aqui 🎙🙇🏻‍♂️

Publicado por Allianz Parque em Terça-feira, 27 de março de 2018

Quando é a sua vez de tomar a frente nos vocais, preenche o palco educamente e com certa timidez, mas quando solta a voz encanta todos os presentes, principalmente quando acompanhado do piano, como foi em Insight e a clássica Strange Love. Apenas em Home as bases originais voltam à tona.

Como era de se esperar, as que levantaram os quase 30 mil presentes na sua totalidade, foram as clássicas Never Let me Down Again (Music For The Masses – 1987), Personal Jesus (Violator – 1990), Everything Counts (Construction Time Again – 1983) e a mágica Enjoy the Silence (Violator – 1990), sem dúvida a canção mais conhecida do Depeche Mode. Espero que a cada 5 anos, o grupo solte um novo álbum, faça suas turnês e continue emanando boa música para plateias do mundo, principalmente a América Latina.

A MÚSICA CONECTA

Set List | Depeche Mode | São Paulo – 27/03/2018

Revolution dos Beatles
Going Backwards
It’s No Good
Barrel of a Gun – com um trechinho de ‘The Message’ do Grandmaster Flash com Dave Gahan
A Pain That I’m Used To (‘Jacques Lu Cont remix’ version)
Useless
Precious
World in My Eyes
Cover Me
Insight – acústica com Martin Gore nos vocais
Home
In Your Room
Where’s the Revolution
Everything Counts
Stripped
Enjoy the Silence
Never Let Me Down Again
Bis:
Strangelove – no piano com Martin Gore nos vocais
Walking in My Shoes
A Question of Time
Personal Jesus

Fotos por Daniel Schauff.


Equipe de reação do portal Alataj, focada em levar conteúdo cultural ao público antenado na música eletrônica.

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