Uma e meia da manha, -17 graus. Juro que debati profundamente se deveria mesmo sair de casa sábado passado. Porem, já tinha comprado ingresso e não tinha mais nada para fazer, então fiz uso de todas as minhas forças e encarei o frio. Quando meu amigo virou na rua que era para ser a festa achei que ele tinha errado o caminho, havia apenas um monte de galpões sem sinal de festa nenhum. Já tinha ido em algumas warehouse parties aqui em NY, mas sempre rola uma atividade na frente, tem pelo menos um leve sinal de que lá dentro existe uma festa. Nada. Sorte foi que meu amigo sabia exatamente qual porta abrir e o que encontramos la dentro era tão cheio de vida e calor que parecia verão no Brasil (só que muito mais interessante.)

ReSolute e um coletivo de eventos muito famoso de NY por suas after hours secret parties. Não é incomum as festas irem até meio dia, o sistema de secret locations deixa todos animados (você só recebe o local do evento por e-mail no dia da festa, ou seja compra seu ingresso sem nem saber para onde ir.) Mesmo famoso, a informação existente sobre eles na web e praticamente nula, nem o perfil do RA tem um about e seu site próprio não mostra nada alem dos upcoming events, tickets e links para o Soundcloud. Faz parte da magia, se é que me entendem. Apesar de todo esse mistério, ou devido a esse mistério, a galera que frequenta as festas tem uma energia incrível de liberdade, amor e fome de música boa. Isso tudo combinado com a legião de fãs da The Black Madonna, headliner da noite, fez da pista um ninho de amor (as vezes ate literalmente, pura libertinagem) que cama nenhuma em Nova York viu no tão esperado dia pelos valentines.

The Black Madonna é o tipo de DJ que traz dentro de si um significado, um brilho e um elemento X a mais para a pista. Diretora criativa do icônico Smart Bar de Chicago, ela toca vinyl sets com uma energia e alegria que eu nunca vi antes. Fiquei bem perto dela durante o set e foram só sorrisos a noite inteira, uma suadeira danada (-17 graus?) de tanto que ela dançava e um setlist que foi do disco ate o techno em intervalos tao curtos que ate mesmo os connaiseurs de musica eletrônica mais conceituados ficariam impressionados. Ela agradou os all black techno lovers e o grupo de amigos sem camisa com coleiras que fizeram uma dança/ritual na pista e todo mundo coexistiu. O tema da festa foi A True Romance e apesar de perante os convidados o numero de casais ter sido bem pequeno, teve romance para dar e vender, romance pela vida, pela pista, pela musica e pelo lema da DJ que e “we still believe” (nos ainda acreditamos.)

Não há como entender The Black Madonna e o que eu descrevi acima sem ler seu manifesto:

“Dance music needs riot grrrls. Dance music needs Patti Smith. It needs DJ Sprinkles. Dance music needs some discomfort with its euphoria. Dance music needs salt in its wounds. Dance music needs women over the age of 40. Dance needs breastfeeding DJs trying to get their kids to sleep before they have to play. Dance needs cranky queers and teenagers who are really tired of this shit. Dance music needs writers and critics and academics and historians. Dance music needs poor people and people who don’t have the right shoes to get into the club. Dance music needs shirts without collars. Dance music needs people who struggled all week. Dance music needs people that had to come before midnight because they couldn’t afford full admission. Dance music does not need more of the status quo.”

Que traduz para: “Dance music precisa das “minas.” Dance music precisa da Patti Smith. Precisa da DJ Sprinkles. Dance Music precisa de um pouco de desconforto com sua euforia. Dance music precisa de sal nas suas feridas. Dance music precisa de mulheres acima dos 40. Dance music precisa de DJs que amamentam e tentar fazer seus filhos dormirem antes de saírem tocar. Dance precisa dos “queers” (termo americano pejorativo usado para definir gays, mas que foi reinserido no vocabulário com o mesmo significado porem outro tom – use com cuidado) bravos e dos adolescentes que estão cansados disso tudo. Dance music precisa de escritores e críticos e acadêmicos e historiadores. Dance music precisa de pessoas pobres e pessoas que não tem os sapatos certos para ir para a balada. Dance music precisa de camisas sem colarinhos. Dance music precisa de pessoas que batalharam e sofreram a semana inteira. Dance music precisa de pessoas que entraram antes da meia noite porque não podiam pagar o preço da entrada/Dance music não precisa mais de status quo.

E foi exatamente esse amor que embalou a véspera do Valentines Day. Não sei vocês, mas eu escolho propagar esse romance ao invés das rosas, chocolates, bichinhos de pelúcia e etc… Lets dance!!!!

A música conecta as pessoas!