Quando as coisas apertam no mundo eu costumo escutar músicas que me acalmam ou me animam (a não ser que eu realmente esteja precisando sentir tristeza, aí o The Smiths fica no repeat o dia inteiro), então essa semana escutei muito as escolhas musicais do Kaká Franco que passam mensagens de amor, fraternidade e paz. Realmente, música tem um poder absurdo em afetar nosso humor e pode nos guiar em uma jornada linda dentro de nós mesmos – quem sabe não deveríamos mostrar essa playlist para o Estado Islâmico, risos. Brincadeiras a parte, a música sem dúvidas nos ajuda a lidar com as nossas emoções, porém somente o conhecimento nos ajuda a superar nossos medos e procurar soluções para os nossos problemas.

Moro em Nova Iorque, como vocês já sabem, e pego o metrô todo dia para ir ao trabalho e para a aula. Semana passada o ISIS lançou um vídeo dando a entender que o próximo alvo era NY e o boato rolou solto que o alvo era o bendito do metrô. Veja bem, eu moro sozinha e só pego táxi a noite ou quando está chovendo muito/estou atrasada/com preguiça (acabo usando táxi muito mais do que deveria, estou tentando melhorar), dentre os diversos motivos, nunca não quis pegar o metro de dia por medo. Nunca tive medo de bombas, sendo mulher brasileira obviamente já tive medo de andar na rua sozinha e de aglomerados de pessoas, principalmente quando estas são homens, mas nunca evitei essas situações por medo de que algo explodisse e tirasse minha vida. Essa semana descobri um novo tipo de medo, senti na pele o que o Estado Islâmico quer que a gente sinta. Acabei decidindo pegar o metrô e estava bem tranquila até a hora que uma senhora muçulmana se sentou ao meu lado. A senhora em questão começou a rezar extremamente alto e todos no trem começaram a olhar, infelizmente, de maneira suspeita para ela. Ela pouco se importou e continuou praticando sua fé, dentro do seu devido direito. Acho importante enfatizar que sou contra qualquer tipo de preconceito, se você está categorizando alguém por motivos que vão além da essência da alma eu não quero me involver. Porém percebi que meus conceitos nem sempre se mantém firmes quando dão de cara com o medo. A medida que a senhora rezava, meu coração começou a bater mais rápido e a única coisa que eu eu conseguia pensar era: “É isso. Ela vai se explodir agora e eu vou morrer. Não quero morrer.” Já estava na metade da lista das pessoas que eu amava, das coisas que eu ainda não tinha feito e dito, das minhas memórias preferidas… Quando a senhora levantou para descer do trem com um sorriso no rosto. Me senti um lixo. Queria lhe dar um abraço e pedir desculpas por ter sido tão ignorante, mas já que (ainda bem) ela não podia ler meus pensamentos somente sorri de volta.

O que acontece é o seguinte: eu tenho noção da estupidez dos meus pensamentos, mas muita gente não tem. E quantas vezes já vimos isso acontecer na história do mundo? Hutus matando Tutsis porque tinham medo que se os Tutsis dominassem o país eles seriam massacrados, Alemães matando Judeus pois foram convencidos de que eles eram a causa da crise econômica e era necessário ter uma sociedade pura, Sérvios matando Bósnios porque realmente acreditavam que era necessário fazer uma limpeza étnica no país. Nós nos diferenciamos desses seres humanos, falamos deles como se eles fizessem parte de outro mundo, quando na realidade eles estavam tão cheios de medo que o nascer do ódio foi quase que automático. Ver o outro como um ser inferior é o primeiro passo para a violência em massa. Pensar, mesmo que tenha sido somente durante minha viagem até o trabalho, que eu era melhor em qualquer sentido que fosse, do que aquela senhora foi completamente absurdo. Claro que somos diferentes em muitos aspectos, até por motivos científicos, mas somos somente duas almas tentando achar nosso caminho nesse mundão, será que não podemos tornar tudo mais fácil sem propagar o ódio?

O primeiro passo para combater o medo é entender de onde ele vem. Tipo quando você era criança e seu pai te mostrou que não tinha nenhum mostro debaixo da cama sabe? Com a única diferença que dessa vez tem um monstro sim. Se você não tem medo do Estado Islâmico você realmente não anda lendo notícias, o fato essencial aqui é que ter medo desse grupo não é sinônimo de ter medo de muçulmanos e está na hora de pararmos de agir assim. É importante termos consciência de que a crise dos refugiados não foi, de maneira ALGUMA, um cavalo de Tróia mandado pelo Estado Islâmico para infiltrar a Europa com terroristas. Sem dúvidas alguns terroristas entraram dessa forma, mas generalizar todo um povo que teve que sair da sua terra natal para procurar uma vivencia na qual a probabilidade dos seus filhos serem bombardeados enquanto brincam no jardim seja menor, não só é errado como é injusto. Nem todos os muçulmanos são terroristas e nem todos os terroristas são muçulmanos, existem extremistas em todo e qualquer grupo, seja esse religioso ou não. Na realidade existem diversos acadêmicos na área de teologia, que é o estudo da religião, que já escreveram cartas para os representantes do Estado Islâmico mostrando por meio do Quran (o equivalente da bíblia para os muçulmanos) a falsidade presente no argumento de que Alá apoia atos terroristas.

#NotInMyName e #NotAllMuslims (#NãoFoiEmMeuNome e #NãoSãoTodosOsMuçulmanos em tradução livre) são as principais hashtags que passaram a ser usadas por muçulmanos ao redor do mundo após o atentado em Paris. O fato de que eles sentem a necessidade de afirmar, por meio da mídia social, sua inocência e expressar o choque e tristeza causados por um evento do qual eles não tem culpa alguma é chocante. Convencer o público da sua humanidade, só mostra como esse mesmo público pode, facilmente, se tornar Hutus, Nazistas ou Sérvios, independente do quão evoluídos nós nos consideramos ser em comparação a eles. Parece uma afirmação chocante, mas, infelizmente, não deixa de ser real. A divisão entre os muçulmanos e o resto do mundo é exatamente o que o Estado Islâmico quer, para que viver inserido no “resto do mundo” se torne tão insuportável que se juntar ao movimento deles seja convidativo.

Sei que esse tipo de publicação foge bastante do estilo do Alataj, mas como recebo liberdade de escolher que tópico quero adaptar para passar aqui, quis tentar explicar de maneira simples alguns fatos que podem nos ajudar a evitar a repetição de alguns erros. Passei esse último final de semana inteiro no Time Warp versão NY, festival alemão de techno que vem rolando já fazem quase 15 anos, e dancei com muçulmanos, judeus, um cadeirante, gays, lésbicas, gente alta, gente gorda e a lista de diversidade presente no festival não tem fim. Toda essa pluralidade na pista e ouvi de todos “que platéia incrível, são todos tão queridos!” Não tive medo da quantidade de pessoas aglomeradas no mesmo lugar. Não tive medo de conversar com todas essas pessoas. E não tive medo do taxista muçulmano que me levou para casa quando saí do festival 6 horas da manhã, muito cansada, mas cheia de amor no coração. Se a música conecta as pessoas, o conhecimento mantém elas conectadas e um não vive sem o outro.