Alguns artistas são capazes de construir um tipo de reputação rara, algo que vai além da admiração artística e envolve também postura e ideologias. O curitibano Alessandro Battu aka BATTU é um dos nomes dessa seleta lista. Seus sets são compostos por pesquisas avançadas entre o techno, dub techno e deep house. Além disso, são fortemente conectados com a cultura do vinil – cultura essa que possui uma grande importância na carreira de Battu. Há muito tempo desejávamos ter a sua discotecagem por aqui e agora esse momento finalmente chegou. Alessandro respondeu algumas perguntas e gravou um mix exclusivo para a nossa coluna. Confira abaixo:

1 – Olá, Battu! Muito obrigado por nos receber. Sua carreira é bastante conectada com a cultura do vinil, certo? Como isso exatamente começou?

Eu frequento festas de música eletrônica há mais ou menos 10 anos. Comecei escutando trance, indo nas raves aqui em Curitiba e aos poucos meu gosto foi mudando. Sempre gostei muito de ir atras de música como um hobby, pesquisar artistas e onde lançavam suas produções, então quando comecei a escutar techno e house, criei um vicio de ir atras dos labels que gostava e escutar tudo que tinham lançado. Comecei a tocar depois de muitos anos de pesquisa e de frequentar festas e acabou que as coisas que mais gostava eram lançadas apenas em vinil, comecei a comprar discos bem antes de ter toca disco, devido a inúmeras conversas com meu amigo Ale Reis. Aprendi a tocar em vinil nas sessions que fazia com meus amigos Alysson e Caue aka Talking Frquencies, sempre foi muito mais prazeroso do que tocar com CDJ. A primeira coisa que fiz quando finalmente comprei meus toca discos foi vender os CDJs que tinha. [risos]

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2 – Sem a possibilidade da discotecagem com discos, ser DJ teria a mesma importância pra você?

Não, a espera e demora, a dificuldade, a técnica e paixão por ter e tocar vinil é algo muito especial para mim, é um desafio que da um enorme prazer, algo humano, que não é descartável, é algo que te faz realmente trabalhar quando esta tocando e é isso que me deixa feliz. Sem todo esse esforço, não teria graça.

3 – Você é parte do WAN, um dos coletivos brasileiros que trabalha pelo avanço da cena relacionada a música de vanguarda no Brasil. Na sua visão, qual a importância atual desses núcleos independentes para o mercado? É possível dizer que eles estão sendo uma porta de entrada para aqueles que nunca tiveram contato com as cenas techno/house?

Quando eu, Janke e Midena criamos o WAN, não tínhamos ideia do network que nesse grupo iria nascer, grande amizades, colaborações, festas e inúmeras outras ideias foram fruto desse coletivo, que não é uma entidade, é um lugar onde pessoas com pensamentos parecidos possam se expressar. Isso é o importante, a inovação, novos laços que são criados. Então todos os núcleos são extremamente importantes para a cena nacional. É maravilhoso que exista vários deles, cada um com uma identidade, fazendo coisas diferentes, é isso que o Brasil precisa, de opção, de variedade, é meu sonho que as pessoas possam escolher em qual festa ir em um determinado dia, ”hoje temos a festa X, Y, Z e amanha a festa A, B, C e o after pode ser em E, F G, qual vamos escolher?”, os núcleos e festas independentes estão botando a cara a bater para dar essas opções com qualidade para o publico, com curadorias diferentes e extremamente focadas na musica. Uma pessoa que ainda não teve oportunidade de ir em uma festa de musica eletrônica, quando vai em um desses eventos, se sente confortável, escuta musica boa, se conecta e se apaixona ali. O papel do club é fundamental para essa estrutura, sempre vai ser, mas é muito bom ver que temos inúmeras opções boas hoje em dia.

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4 – Sobre a cena de Curitiba, prós e contras… o que você destaca atualmente?

O Curitibano é um povo bem dificil [risos], mas vejo uma mudança muito grande na cena de Curitiba. As pessoas estão exigindo mais musicalmente, o que é muito bom, lugares novos vão surgindo, line ups muito bons nos clubs e o mais importante, pessoas com o mesmo ideal estão se juntando.

5 – Essa pergunta pode soar um pouco clichê, mas ela é sempre interessante quando falamos com artistas inteligentes como você. Quais são suas principais referências fora da música eletrônica?

Com toda certeza o rap teve um grande impacto na minha vida. Eu tive a oportunidade de morar fora durante 5 anos nos EUA durante minha adolescência, em uma região que respirava a cultura hip hop. Não tinha acesso a internet então escutava muito as rádios onde tocavam coisas como Tribe Called Quest, De La Soul, Wu-Tang Clan e etc. Via o pessoal dançar break no colegio, fazer grafitti… O rap sempre estava presente nessas horas, inclusive escuto frequentemente musicas que escutava naquela epoca.

6 – Para gravar seu mix que assina a edição 103 da Troally, quais foram os artistas escolhidos e pesquisados?

Eu estava esperando alguns discos chegarem para gravar o podcast, quis colocar coisas antigas que gosto muito e os novos que tinham chego, releases de labels como Metrolux, Sistrum e Sushitech e musicas de artistas como Jeremiah R, E.R.P., Hinode e Anomaly AKA Fred-P.

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7 – Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

Musica é minha vida, é o que me deixa feliz, é o que me motiva no dia a dia e o que me faz seguir em frente independente da situação. É muito bom conhecer aquilo que você mais gosta, espero que todos possam ter esse sentimento por algo.

Música de verdade, por gente que faz a diferença!