Poucos são os artista que conseguem desempenhar com clareza as variedades de uma vasta pesquisa musical, Benjamin Ferreira é um deles. Admirado como um grande influenciador da cena eletrônica no Pará e DJ de grande técnica e repertório, Benjamin se tornou um nome respeitado e procurado por festas que prezam por uma abordagem musical rica. Sua experiência de mais de duas décadas na pista e sua personalidade enquanto seletor musical justificam tal feito.

Original de Belem do Pará, mas residindo a São Paulo há mais de 10 anos, Benjamin Ferreira tem chamado a atenção por trabalhos como a residência na Ursound e recentes apresentações em palcos como como Gop Tun, Dekmantel Festival/Red Light Radio e Jerome Club. A nosso convite, ele respondeu algumas perguntas relacionadas a sua trajetória na música e gravou um mix exclusivo, que estampa a edição 108 da Troally. Vem ver:

1 – Olá, Benjamin! Muito obrigado por nos atender. Você é um profissional engajado com cenas de outras regiões do Brasi que não as mais conhecidas pelo envolvimento com a música eletrônica, certo? Quais experiências você pode compartilhar conosco referentes ao seu trabalho na região Norte, por exemplo?

Eu que agradeço o convite! É uma longa história! Vou tentar resumir: nasci e cresci em Belém, onde a dance music sempre foi muito forte. Não necessariamente underground ou eletrônica, mas desde que me entendo por gente sempre estive rodeado pela música de pista. Comecei a me envolver com discotecagem na pré-adolescência, no fim dos anos 1980. Passei a década de 90 tocando na minha casa ou em festas de amigos até que em 1999 toquei numa rave pela primeira vez. Pouco tempo depois me juntei a alguns amigos e formamos um coletivo chamado Cotonete, ligado ao coletivo Pragatecno, fundado no Nordeste, cujo objetivo era divulgar a música eletrônica underground. Começamos a gravar CDs e fitas cassetes (sim, elas ainda existiam! [risos]), escrever fanzines, fazer programa de rádio e, claro, organizar festas. Elas eram pequenas no início, mas logo fazíamos festas pra duas, três mil pessoas, tanto dentro de clubes quanto em lugares abertos. Depois acabamos voltando para as festas menores, até que em 2006 eu mudei pra São Paulo e aqui estou desde então.

2 – Você trabalhou durante algum tempo como tradutor da DJ MAG, não é mesmo? Esse trabalho de alguma forma mudou sua visão do mercado?

Eu aprendi muito traduzindo pra DJ MAG de uma forma geral. Aprendi sobre música, sobre tecnologia e um pouco sobre mercado também. Piti Vieira cuidava da revista no Brasil e era um cara muito legal de trabalhar, sempre aberto a novas ideias. Um exemplo disso foi quando sugeri entrevistar Luke Howard, DJ do clã Horse Meat Disco, durante uma viagem que fiz a Londres em 2010. Ele topou, eu fui, conheci Luke, o entrevistei e acabei ganhando um dos amigos mais queridos que tenho hoje.

3 – Atualmente você é reconhecido como um dos principais pesquisadores da cultura disco e house no país. Além desses dois estilos, quais outros movimentos tem chamado sua atenção em momentos de pesquisa e aprofundamento musical?

Além de house e disco, o techno sempre esteve de alguma forma presente no meu som. Influências de música brasileira/latina e africana também sempre foram muito bem-vindas.

4 – Na sua opinião, o que separa um bom DJ dos demais? A principal função do artista na noite é fazer a pista dançar?

É a principal função, mas não a única. Sempre me encanta o DJ que consegue fazer o público dançar algo novo (não necessariamente cronologicamente – pode ser algo antigo que soe como novo ou surpreenda), algo seu (não necessariamente suas músicas, mas que tenha sua própria maneira de contar uma história). Pra mim também ajuda se for dinâmico, se não ficar horas e horas no mesmo estilo. Vivemos um momento de intolerância às diferenças, uma onda de conservadorismo e repressão tão forte que o simples fato de tocar algo fora do lugar comum já é uma maneira admirável de protestar.

5 – Em Fevereiro você se apresentou no palco Na Manteiga X Red Light Radio no Dekmantel São Paulo. Como foi a preparação para aquele set?

Eu priorizei vinil mas levei algumas faixas em pendrive também. Como o line up do palco NM X RLR tinha vários DJs com uma pegada mais orgânica, resolvi levar vários vinis de funk, soul e disco pra começar. Levei também algumas coisas de house e acid, que acabaram formando a segunda parte do set. Mas não foi um planejamento rígido – pra mim nenhum planejamento de set é rígido. Sempre estou aberto a mudanças, ao andamento da pista. Aliás, tive a sorte e a honra de ter na minha pista um monte de gente linda e dançante num festival fantástico. Sem dúvida foi um dos momentos mais legais da minha carreira.

6 – Comprar discos certamente é uma das suas grandes paixões, certo? Quais são selos preferidos? Qual foi o primeiro disco e qual é o mais tocado do momento?

Sim, desde criança coleciono discos. Quanto aos selos, são tantos! Motown, Stax, Prelude, Salsoul, West End, Emergency, Trax, DJ International, Strictly Rhythm, Crydamoure, Versatile, Classic, Metroplex, Planet E, Paranoid London, Sound Stream, Clone, Local Talk e Running Back, pra citar alguns. Meu primeiro disco foi um do Lipps Inc, lá pelos meus 4 anos – o álbum Designer Music, cuja faixa-título fez um sucesso estrondoso em Belém. O mais tocado no momento é “Testify”, de Jamie 3:26 & Masalo, pelo Local Talk.

7 – Dentro da abordagem musical genuinamente brasileira, quais estilos são da sua preferência?

Eu gosto muito do que costumam chamar de MPB dos anos 70 e 80, também de disco/boogie brasileira, e de ritmos regionais do Norte do Brasil, especialmente carimbó e afins.

8 – Fale um pouco sobre a sua atual residência na festa Ursound e as experiências adquiridas através da Boogie Nights.

A Ursound está indo para seu 12º. aniversário, e eu toco lá há quase seis anos. Tenho muita honra de ser um dos residentes, já que a Ursound é uma das noites mais democráticas musicalmente na cena gay de São Paulo com suas duas pistas: uma voltada ao pop/tribal, e outra – onde toco – voltada a sons mais alternativos, além de clássicos de house e disco. A Boogie Nights foi uma noite semanal onde eu e queridos amigos DJs (Magal, Renato Cohen, Camilo Rocha, Tahira e Edu Corelli) revezávamos tocando disco, boogie, funk e afins. Sem dúvida foi uma das residências mais legais que eu tive, onde eu tinha a possibilidade de tocar músicas que nem sempre consigo tocar em outros lugares.

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9 – Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa na sua vida?

Música é tudo pra mim. Sei que é um grande clichê dizer isso, mas é a mais pura verdade. Ela está absolutamente entranhada na minha vida desde o início, faz parte do meu dia-a-dia, se confunde entre a profissão e a diversão, através delas eu fiz muitos dos meus melhores amigos. Me sinto um cara muito sortudo por ter a oportunidade de tocar a música que eu amo e jamais penso em parar.

Música de verdade, por gente que faz a diferença!