Troally com Cybass

A música eletrônica no Brasil vai muito além das batidas 4×4 do house e techno e Glauber Barreto aka Cybass está aí para comprovar isso. Influenciado pelo boom da cena drum and bass de São Paulo na virada do século, Glauber desenvolveu uma relação de amor com as batidas quebras e a possibilidade de manifestar suas ideias através da produção musical.

Influenciado por artistas como Yoko Kanno, Quincy Jones, Marvin Gaye, Jackson e Love Unlimited Orchestra, Cybass encontrou na música eletrônica um lugar para chamar de casa. Cercado pelo efervescente cenário criativo de São Paulo, ele passou a lançar seus trabalhos por selos renomados como Beatwise Recordings, Lost Tribe, Jalapeno – e também de forma independente.

Assim como aconteceu lá no começo, Cybass ainda é motivado pelas batidas quebras do dnb e agora se encontrou em uma forma própria de se comunicar através delas, principalmente com suas produções que se destacam por uma generosa camada de bass, riffs e vocais. Em Novembro de 2014, Glauber apresentou um b2b com Sants no Alaplay. Agora ele retorna para entrevista e mix solo exclusivo para Troally. Confira:

Alataj: Olá, Glauber! É um prazer falar com você. O começo de sua carreira foi bastante influenciado pela enérgica cena de dnb de São Paulo no fim do século passado. O que você sente mais falta daquele período? Quão importante foi esse movimento para o começo de sua jornada na produção musical?

Porra, mano, eu sei que sou velho, mas “século passado” soa meio pesado [risos]. Não sei se sinto falta de algo daquele período, mas talvez, pelo conjunto de alguns fatores (acesso limitado, menos informação) acho que as pessoas se relacionavam de forma diferente com tudo e todos, inclusive a música. A velocidade era outra, a pressa era menor, tinha mais paixão envolvida. Hoje o hype é uma máquina feroz que não pára de substituir tendências em prol de likes.

No caso do Drum and Bass por exemplo, a paixão era tanta que a coisa virou quase uma religião pra alguns. Assim como acontece com o rap e o rock. As pessoas brigam por causa de música, ouvem as mesmas músicas há anos, olham o novo com desprezo. Acho triste. Deveria existir um meio termo [risos].

Mas sim, o Drum and Bass foi muito importante na minha formação. Primeiro que é um dos estilos de música eletrônica mais técnicos em nível de produção que existe, segundo, é um estilo que engloba um leque quase infinito de influências: Jazz, Rap, Reggae, Dub, Ska, Techno, Funk, Soul… conheci muita coisa por causa do estilo.

De que forma a atmosfera cultural de São Paulo contribuiu para sua evolução enquanto artista na última década? Hoje, você se enxerga morando em outra cidade dentro ou fora do país?

São Paulo é uma loucura, né? Como dizia um amigo: “Cuidado senão SP passa por cima de você”. Se uma coisa essa cidade influenciou meu som, foi deixá-lo mais sujo e pesado. Tive sorte de conhecer muita gente competente e talentosa por aqui. Meus amigos foram os maiores responsáveis pela minha evolução. Como eu nunca saí do país, não teria certeza em dizer. Meu som sempre teve bastante influência da cena britânica, se fosse morar em outro lugar, seria Inglaterra.

Sobre seu relacionamento com a Beatwise Recordings. Como tem sido colaborar com o selo e quão importante é a presença de uma gravadora para a carreira de um artista independente como você?

A Beatwise é a grande responsável pelo alcance que meu som tem aqui no Brasil. A gente anda meio quietinho nos últimos tempos pois estamos reformando a casa. Tem novidade boa por vir.

Dentro e fora do Brasil, quais são os artistas que estão produzindo algo realmente inovador?

Não tem como não citar a Beatwise: Cesrv, Sants, Anshu Sound. Os artistas da nofriends: gnso, fvlido, koef, noctans, smsr, and2022. Outros artistas como Retrigger, Sijeh, Gamboa, Chediak, Sansai, a galera do 40% foda/Maneiríssimo. Vixe, é muita gente. Lá na gringa tem o Eprom, Shades, Ivy Lab, Tsuruda, Noisia, Zomblaze, Doctor Jeep…

É possível dizer que outras representações artísticas, como dança e design por exemplo, influenciam a forma como você cria suas músicas?

Com certeza! Eu diria que cinema, design e games (existe uma discussão nova sobre games não serem considerados arte, mas eu discordo parcialmente) são minhas maiores influências não musicais.

Nos últimos anos você tem desenvolvido um trabalho bem interessante para trilhas de video game, certo? Conta pra gente um pouco mais sobre isso?

Não só trilha, como Sound Effects também. Cara, como eu me divirto fazendo SFX! Acho que, como todo músico/compositor/produtor musical, a história é a mesma, chega um amigo e pergunta: “Cara, por quê você não faz música pra games?”

Foram dois amigos que me fizeram essa pergunta e mostraram um mundo que eu não conhecia, o de games indie brasileiros. Eu sempre tive uma relação direta com games e com certeza fazem parte da minha formação, poder juntar os dois universos é uma coisa foda!

Tenho alguns projetos em andamento, mas nenhum deles ainda foi lançado. Acho que valem destaque o Akane, da Ludic Studios, de Manaus e o Fluffy Horde, da Turtle Juice, da Bahia. O Fluffy Horde eu estou no projeto desde 2016(!) e só deve sair no final de 2018. Inclusive, os dois jogos estarão no BIG Festival desse ano. O BIG é a maior feira de games da América Latina.

Além do Cybass, você possui outros projetos ou iniciativas dentro da música eletrônica? Como elas estão evoluindo?

Tenho alguns projetos, um deles eu não posso falar sobre [risos]. O NM||MN, um projeto experimental com meu amigo Luis Lopes, que a gente convidou alguns músicos e cantores fodas pra participarem, mas ainda faltam algumas coisas pra terminarmos. O outro é o ciba, que acabei de lançar um remix pro projeto maravilhoso do meu amigo Ricardo China, que se chama Gamboa. O álbum do ciba tá quase pronto também. É um projeto de lo-fi meio étnico, meio experimental e com linhas de graves do Cybass.

Hoje em dia, como é a configuração básica de seu estúdio? O que exatamente você usa para produzir?

Tenho um estúdio bem básico: um par de monitores Yamaha Hs50M (350 dol), headphones Sennheiser 380 Pro (200 dol), headphones Audio-Technica ATH-M50x pra segunda referência e DJing/live (150 dol), uma interface Edirol UA-25EX (não sei quantos dol), uma controladora Livid Ohm64 pra live (300 dol) e um MacBook Pro Retina 2013 (1000 dol). O restante é plug-in e 20 anos de experiência.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

Costumo dizer que música é a única coisa na vida que eu sei fazer bem.

A MÚSICA CONECTA. 


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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