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Troally com DJ Guerrinha (40% Foda/Maneirissimo)

Troally com DJ Guerrinha (40% Foda/Maneirissimo)

Colaboração com Eduardo Ramos

O cenário da música eletrônica experimental no Brasil ainda é muito jovem se comparado a outros polos da música eletrônica mundial. Mas isso não significa que não há grandes talentos por aqui, especialmente se levarmos em consideração um circuito não tão conhecido e comentado frente ao grande público, mas muito respeitado entre formadores de opinião e artistas do meio.

Dentro desse contexto, é justo destacar o trabalho do selo carioca 40% Foda/Maneirssimo. Formado por Gabriel Guerra e Lucas de Paiva, o label se tornou referência na eletrônica experimental brasileira graças a uma série de lançamentos de excelente nível artístico, capitaneado por projetos e artistas como Zopelar, Akira S, Japa Habilidoso, DJ Guerrinha, Epicentro do Bloquinho, seixlack e Repetentes 2008. Muitos dos citados são projetos liderados ou com participação dos próprios label heads, como no caso de DJ Guerrinha ou ainda Repetentes 2008. 

Como Guerrinha, Gabriel acaba de lançar seu debut album Wagner que com pouquíssimo tempo de vida, já tem dado o que falar – até mesmo o Resident Advisor colocou no radar. A nosso convite, convidamos a dupla a frente da 40% Foda/Maneirissimo para falar sobre alguns tópicos importantes diretamente ligados ao trabalho da gravadora, cena eletrônica no Rio de Janeiro, lançamentos em vinil e muito mais. De quebra, tem mix exclusivo do DJ Guerrinha para Troally:

Alataj: Olá, Gabriel! Tudo bem? É um prazer falar com você. Seu trabalho frente a 40% Foda/Maneiríssimo reflete uma proposta musical totalmente fora da curva. Como vocês chegaram nesse perfil?

Guerrinha: Bom, o selo começou em 2013 comigo e com Lucas e o intuito era basicamente de ser um lugar pra gente botar nossos lançamentos como “música eletrônica” (leia-se: qualquer coisa que envolvia sintetizadores). A gente obviamente tinha nossas preferencias musicais, mas a verdade é que sempre mativmos o leque aberto para testar coisas novas. Como eu e Lucas trabalhamos com música, seja compondo para TV/cinema/video games, seja tocando ou produzindo para outros artistas, a gente sempre esta fazendo diferentes tipos de música, então existem produções nossas que talvez usam técnicas que não são muito normais para tal estilo que uma faixa “deveria” se encaixar. Existem diversas faixas que a gente já lançou que na verdade eram trilha sonoras descartadas. Tanto eu quanto o Lucas temos essa obsessão de provar um para o outro o quão melhor nós estamos enquanto músicos e produtores. Fazer música não é uma coisa “nova” pra gente, logo acaba virando uma competição sadia entre nós para ver quem esta produzindo algo mais interessante

LUCAS: Acho que a gente sempre foi fazendo o que fazia sentido fazer pra gente. Não vou fingir que não há pelo menos uma leve tentativa de ser fora da curva, mas a ideia principal que gira em torno disso é “quem sou eu e como que eu sou diferente das outras pessoas”, mas com mais ênfase no “quem sou eu”. A ideia do 40% é meio que a sinceridade, eu tento fazer o que eu ouço. Não é um trabalho de referências da forma que as pessoas falam, tanto é que acaba sendo meio difícil falar de influências porque quem eu era quando eu tinha 13 anos, tem mais influência sobre o meu som do que o último disco maneiro que eu ouvi. Sei lá também, posso estar falando merda, mas eu acho que a forma de fazer as coisas meio que vem naturalmente.

Atualmente vocês estão baseado nos Rio de Janeiro, certo? De que forma o público da cidade absorve seus trabalhos? Sua maior audiência é dentro ou fora do Rio?

G: Não creio que temos, nem nunca tivemos um público, o que temos são (poucos) amigas e amigos que apoiam a gente. Nós também nunca tivemos uma festa fixa, o que atrapalha bastante, mas a verdade é que o Rio de Janeiro sempre foi uma cidade indulgente, as pessoas aqui acham que por estar em uma cidade grande isso já justifica a existência de cultura para elas, então não são interessadas em procurar e fazer coisas novas como são em outras metrópoles. Eu sempre enxerguei um lado positivo nisso, por estarmos aqui a gente nunca cedeu a pressão de “tentar tocar mais”, fazer dinheiro ou de provar alguma coisa pras pessoas, nunca houve essa pressão do selo ser algo alem do que já é: uma conversa entre eu e Lucas.

Ao invés da gente focar em produzir uma festa ou de quantos likes a nossa pagina de Facebook tem, a gente passa o tempo tentando entender como uma certa variação de acorde pode melhorar uma progressão harmônica ou algo do tipo. Até hoje eu abomino a palavra “carreira”. Sobre o público, eu acho que São Paulo tem gente que gosta mais da gente, mas a verdade é que as pessoas de lá tendem a gostar das narrativas mastigadinhas (aquela famosa pergunta: “o que vocês tocam? é x? é y?”) e eu creio que a nossa não é muito clara. Nós somos basicamente um fracasso ambulante, porque nossos amigos estão fazendo festa para mais de 1000 pessoas e a gente tem dificuldade de vender 10 discos aqui.

L: A sensação que a gente tem no Rio na maioria das vezes é de que nós estamos sempre tocando para os nossos amigos, então mesmo que a gente tenha um “público” aqui, é difícil a gente sentir que pessoas que nós não conhecemos estão ouvindo nossas músicas. Já as coisas no exterior parecem tomar vida própria. A maioria das pessoas que tem discos do 40% não são nossos amigos, e talvez tenha até menos gente que conheça o nome do selo lá fora do que aqui, mas lá a gente tem a sensação de que o trabalho fala mais alto do que o contexto

Lançar em vinil exige um investimento relativamente alto. Como isso se tornou sustentável pra vocês?

G: A coisa só é sustentável porque existe uma real demanda sobre esse tipo de mídia lá fora. Talvez seja difícil para as pessoas daqui compreender o porque a gente faz vinil, mas a verdade é que não tem nada a ver com a qualidade da mídia e sim com a cultura de comprar discos. Pessoas que tendem a comprar discos são pessoas interessadas em achar música. A gente não vende no Brasil porque não tem tanto dessa gente curiosa – até tem, mas é bem tímido e a demanda é sempre por discos brasileiros raros – o que não é nosso caso. Lá fora, se a gente bota o disco pra vender em lojas que tem uma clientela que pode curtir nosso som, o disco vai vender mesmo sem divulgação nenhuma. Pra gente é uma maravilha, porque a gente não quer ficar fazendo estripulia para ser escutado, a gente só quer fazer música e saber que existem pessoas que realmente se importam e gastam tempo e dinheiro pra ouvir aquilo. O Akira S já esgotou as 300 cópias, o Pessoas Que Eu Conheço tá quase, o Repetentes 2008 ainda tá tímido mas a gente sabe que daqui a dois ou três anos já vai estar tudo vendido. Cada disco paga o outro – o que justifica o demorado tempo entre lançamentos – mas vale a pena o investimento e olha que a gente é peixe pequeno, tem selos que vendem 1000 cópias de um disco e ainda reclamam que venderam pouco!

L: Você aceita um certo prejuízo quando faz vinil, especialmente no início, mas a verdade é que o negócio ainda não está 100% sustentável pra gente. O dinheiro que entra das vendas ajuda a pagar o próximo, só que até agora nós sempre acabamos completando o valor necessário com dinheiro do bolso para produzir o próximo disco. E se você parar para pensar o investimento do vinil não é assim tão alto. Eu vejo amigos aqui no Brasil pagando caro para gravar discos em estúdio, fazer clipes, fazer turnês, chamar gigueiros, etc. De uma certa forma a capacidade de produzir vinil depende um pouco de quais são as suas prioridades. Eu acho que muitas pessoas podem produzir vinil se quiserem, mas o mais complicado é você ter que dar um jeito de vendê-los depois. Tem algo sobre o quão simples é o processo de se fazer e vender vinil que me atrai. Eu sei qual é o retorno que vai dar. É diferente de você pagar 10.000 reais para gravar um disco num estúdio ou fazer um clipe (e olha que tem muita gente que diz que 10.000 é pouco pra fazer clipe). Nada garante que as pessoas vão se interessar pelo seu trabalho porque ele soa bem gravado ou porque o clipe tem uma fotografia bonita. Eu pago pra fazer o vinil e se alguém gosta e quiser ele compra, é imediata a troca, você sabe qual é o retorno que o vinil te da.

Você tem um histórico de bandas de rock um pouco mais experimental. Como foi esta transição para a cena eletrônica? Existiu algum momento que você falou: é isso? Mesmo com os seus trabalhos mais eletrônicos, você ainda tem seus projetos mais “rock”. Como funciona esta divisão?

Nunca houve uma transição de fato, eu sempre mantive os dois. Comecei a me interessar em musica eletrônica (e especificamente house) aos 15 anos pela minha irmã mais velha, como já tinha um computador na casa de minha mãe e nunca participei de “galeras” na época do colégio, pra mim era normal que ao mesmo tempo em que eu estava tocando em bandas, eu estivesse procurando coisas de selos como Nu Groove e Sound Signature. Só com o passar do tempo que percebi que a galera de banda e a galera de música eletrônica eram mundos á parte. Me lembro até hoje o dia que eu estava na casa de uma amiga e botei pra rodar DJ Sprinkles e ela falou “você sabe que isso é musica de viado, né?” (de certa forma, ela tinha razão). Até hoje em dia é meio engraçado porque eu e Lucas tocamos junto nas mesmas bandas e as pessoas que conheciam a gente do rolê de banda não sabiam que a gente tinha um selo, e as pessoas que a gente conheceu do rolê de música eletrônica não sabiam que a gente tocava em bandas. Eu tenho um carinho muito grande pelo formato, mas para ser super honesto eu não tenho mais o mesmo tesão que eu tinha de sair por ai e tocar em muquifos, então minha participação na cena de banda/rock só esta diminuindo cada vez mais, creio que em breve será nula.

Repetentes 2008 e Guerrinha: como é pra você fazer a divisão de perfil artístico de cada um desses projetos?

É confuso até pra mim. Pra ser sincero eu não tento botar muitas amarras em cada projeto, mas é claro que há suas diferenças, varia com o meu humor. Geralmente quando eu bebo muito refrigerante e tô com a taxa de açucar lá nas alturas eu fico afim de fazer uma coisa mais maluca ou de tentar simular a intensidade que é tocar em um grupo de jazz fusion, eu jogo pro Repetentes 2008. Quando eu tô um pouquinho mais tranquilo e eu quero fazer algo que me deixe em um estado mais relaxado, eu jogo como Guerrinha. Sou zero afim de entrar nessa baboseira de estilo assim-assado e a verdade é que os limites entre os projetos nem são tão bem definidos assim. Há músicas que fiz como Guerrinha que claramente se encaixariam melhor como Repetentes 2008, tem faixas de Repetentes 2008 que originalmente eram pra ter sido Guerrinha.

Novamente sobre o Rio: a cidade por muito tempo foi relegada a um “Segundo Plano” na cena eletrônica brasileira. Hoje a situação começa a mudar. Como você vê isso?

Eu acho que o Rio ainda vive no segundo plano. As festas estão lotadas mas as pessoas que estão indo nas festas não estão interessadas na musicas dos produtores ou das mixes dos DJs que fazem a festa acontecer. Percebo isso quando tem rolês menores de pessoas que dão festas grandes: eles ficam vazios, cadê aquele pessoal que tava dançando que nem louco as 4 AM da manhã do ultimo sábado? A gente basicamente é um tico-tico-no-fuba de fim de semana para pessoas que não tem nenhum compromisso com a coisa. Não quero ficar culpando ninguém, até porque ninguém é obrigado a ter compromisso com música ou ficar correndo atrás, mas não creio que é um cenário tão saudável assim. No dia que sei lá, o Domina ou a Valesuchi lançar alguma coisa e meu amigo que estuda engenharia química falar “você já ouviu o que eles botaram essa semana?” eu mudo de ideia, mas por enquanto mantenho meu pessimismo. Falo do Rio de Janeiro porque vivo aqui e sei disso, mas sei que é uma situação que diversas outras cidades ao redor do mundo passam.

Vocês acreditam que aqui no Brasil exista uma boa fatia do público interessada nesse som eletrônico que é mais experimental, longe do big room? É possível dizer que os trabalhos de vocês são mais direcionados para a audiência gringa?

G: Hoje em dia existe nichos de tudo (inclusive de big room) mas a resposta é mais complicada que essa. Por mais que as pessoas expressem interesse em coisas diferentes, a verdade é que, falando como DJ e alguém que ama dançar, clubs geralmente não são o melhor lugar para experimentar. Eu comecei a ouvir “musica para dançar” em casa, e não numa pista, então eu amo ouvir e analisar as nuances da coisa, mas grande parte das pessoas que gostam de estilos como house, techno e disco, conhecem primeiramente por frequentarem festas. É muito difícil experimentar numa pista com uma coisa tão eficiente quanto são esses ritmos porque eles são a razão primordial de você ir pra uma boate dançar. O 40% tenta fazer essas coisas de uma forma bem maluca, mas a gente sabe muito bem que aquilo não tem apelo com pistas. A gente é difícil até pra audiência gringa. Nossos discos são impossíveis de mixar e logicamente não são tocados. Então nossa audiência MUNDIAL é bem pequena. Você não sabe o quanto eu fico surpreso que um site de música eletrônica se interesse pela gente.

L: As coisas não são tão direcionadas e a gente não faz música para um lugar específico. A ideia não é bombar na Europa ou nos Estados Unidos, a ideia é simplesmente fazer e ver quem quer ouvir, se o gringo conecta está ótimo, se o Brasileiro se conecta está ótimo também. É meio piegas falar isso, mas a idéia é se conectar com indivíduos e não culturas. Sim, eu entendo, no Brasil o que chamamos de cena eletrônica experimental não aparenta ser tão forte, mas o brasileiro vive uma ilusão de que lá fora é diferente e no fundo nem é tanto. Tem muito cara bom tocando pra pouca gente por aí e o lance não é você buscar grandes públicos em determinados lugares, mas sim vários pequenos públicos no mundo inteiro.

Pra finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

É minha vida. Música altera (para pior) coisas básicas do cotidiano como minha dieta e meu sono. É meu ganha-pão, é a forma como eu fiz amigos. É o que me fez ter consciência, opinião sobre coisas. Basicamente tudo que eu tenho hoje em dia se deve a música e o meu interesse por ela. Como todo mundo, eu tenho momentos que tenho vontade de desistir, mas eu não sei fazer mais nada alem disso. Fui amaldiçoado pelo resto da vida.

A MÚSICA CONECTA. 


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n’ Lights Management.

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