Troally é a coluna de podcasts “side b” do Alataj. Ouça todos aqui! 

Johnny da Cruz é um dos responsáveis pela festa EKO e residente da noite Freak Chic do D-EDGE desde 2010. Bagagem e conhecimento não faltam quando o assunto é conduzir uma pista e seus conhecimentos sobre música foram aprofundados através de muito tempo de dedicação a arte e estudos desenvolvidos sob diferentes frentes, incluindo no conservatório Villa Lobos.

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A experiência adquirida com os instrumentos orgânicos ofereceu um plus ao perfil artístico de Johnny, que carrega consigo uma constante preocupação em imprimir algo que soe original e autêntico. Essas habilidades o levaram a algumas das principais pistas do Brasil e da Europa, incluindo o Cafe del Mar na Espanha e o Kaato Night na Alemanha – isso sem falar nos brasileiros Club Vibe, 5uinto e D-EDGE, claro.

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Nessa entrevista exclusiva, Johnny fala sobre sua nova jornada frente a EKO, importância do D-EDGE em sua caminhada, cena de São Paulo e mais. Confira:

1 – Você estudou no conservatório Villa Lobos, certo? O que de melhor conseguiu extrair do conhecimento técnico para utilizar em sua carreira na música eletrônica?

Sim, isso foi há muito tempo quando eu estava entrando na adolescência e comecei a montar minhas primeiras bandinhas de rock de garagem. Para discotecagem, ajuda um pouco em algum detalhe na seleção de músicas de acordo com a tonalidade, mas agora que estou me dedicando a produção desde o ano passado está fazendo realmente muita diferença. Tem sido um processo de estudar tudo novamente para refrescar a memória, mas sinto que faz a diferença mesmo assim, principalmente para criar harmonias já que estudei um instrumento de cordas.

2 – A experiência com outros instrumentos, como a guitarra por exemplo, deu a você a possibilidade de olhar a música de uma diferente maneira? Quais são as suas principais referências fora da música eletrônica?

Minha primeira inspiração na música foi o rock. Desde criança quando vi um show do Pink Floyd que meu pai tinha gravado numa fita de vídeo cassete em casa fiquei deslumbrado. Mais tarde, quando comecei a estudar em um conservatório você é obrigado a passar pelos mais variados estilos, e apesar de não gostar de tudo que me apresentavam por ali, a minha paixão pelo jazz foi despertada lá. Mais tarde esse seria o motivo de eu começar a me envolver com a música eletrônica, pois foi com o ouvido aberto a sonoridades próximas do Jazz que descobri o álbum From Detroit to Saint Germain do produtor francês Saint Germain e minha cabeça virou completamente do avesso e eu falei para mim mesmo ‘é isso o que eu quero’. Além do rock e do jazz, gosto bastante de funk/disco. Procurei mostrar um pouco de cada uma dessas influências no mix que gravei para o Alataj.

3 – Como tem sido comandar a EKO? Quais são os planos para o futuro da festa e gravadora?

A EKO é um projeto completamente novo que administro em parceria com meu sócio Exequiel. O ideal por traz da EKO é propor um momento de harmonia e iluminação para as pessoas em meio ao momento caótico que vivemos no mundo. Estamos partindo para nossa quinta edição em dezembro e o início está sendo fantástico, estamos muito satisfeitos como a forma que tem acontecido até agora. Tivemos o prazer de trazer um dos meus produtores preferidos para a inauguração do projeto em junho, o Lake People, e na sequência trouxemos o Dave DK que também foi incrível. O plano para a EKO é continuar apostando em sonoridades variadas ao longo da noite. Nossas festas são de longa duração na maioria das vezes, começando durante a tarde e acabando apenas na manhã do dia seguinte, então isso da flexibilidade de trabalhar sonoridades diferentes e mais adequadas para cada momento da festa. Eu particularmente acho terrível chegar em uma festa cedo, que ainda não tem muita gente e o som estar socado e barulhento. Faço questão de um belo warm up e investimos em nomes de altíssima qualidade para abrir as festas. Já a gravadora é um projeto que ainda está dando seus primeiros passos. Apostamos em artistas nacionais nos dois primeiros lançamentos e tivemos um belo feedback dos EPs da Mari Herzer e do Nicolas Pera. A ideia é fazer a festa e gravadora caminharem juntos, então ambos também se apresentaram na festa na época dos lançamentos. Esse mês sai o terceiro EP que conta com 4 faixas do produtor português Pedro Aguiar, artista que lança regularmente em grandes gravadoras como a Lost & Found comandada pelo Guy J e recentemente teve uma produção sua escolhida para a nova campanha global da Adidas. Ou seja, estamos trabalhando com gente bastante séria e profissional no que fazem.

4 – Acredito que a cena de São Paulo vive um momento de efervescência bastante especial, principalmente se levarmos em conta a variedade de estilos e públicos que estão sendo trabalhados. Na sua visão, quais são os próximos passos para o cenário artístico da cidade continuar evoluindo?

O momento que a cena de São Paulo vive é único. É emocionante ver o tanto de coisa incrível acontecendo absolutamente todos os finais de semana. Na inauguração da EKO em junho, lembro bem que haviam outras 5 grandes festas acontecendo no mesmo dia, sem contar os clubs. Ficamos um pouco preocupados por ser um projeto novo, mas a festa foi um sucesso, recebemos mil pessoas na primeira edição e ficamos sabendo que todas as outras festas estavam do mesmo jeito, cheias. Isso mostra que há espaço para todos, e para a evolução continuar, ela deve ser natural. Hoje em dia, com tantas opções e a facilidade de acesso a informação sobre tudo que acontece nas cenas de outros lugares do mundo, faz com que o padrão de qualidade esperado pelo público em SP seja altíssimo. É justamente nesse ponto que mora a evolução, na concorrência. Concorrência é algo bom, ela te faz evoluir.

5 – Gigs, novidades, lançamentos. O que vem por aí ainda em 2017?

Esse ano ainda tem muita coisa interessante chegando. Semana passada lancei uma faixa de um projeto novo que estou trabalhando chamado Treta Vadio em parceria com o DJ Gui Pozzani. Dia 09 de dezembro produziremos o showcase da gravadora alemã Get Physical em parceria com a festa Folklore dos nossos parceiros do Fractal Mood. O Roland Leesker, um dos donos do selo vai tocar com a gente nesse dia. E para o ano novo estamos organizando um projeto interessante para a cena de São Paulo, com a união de 6 grandes núcleos da cidade em pró de um festival coletivo. Além da EKO, o festival será assinado pela Tantsa, Folklore, Sonido Trópico e SOUL.SET. Se alguém está triste porque vai ter que ficar em São Paulo no ano novo pode ficar tranquilo que tem coisa grande prestes a ser anunciada. Logo na sequência já no primeiro dia de 2018 embarco para uma pequena tour de verão no nordeste.

6 – De uma maneira geral, percebemos que a figura do DJ residente, aquele que possuía grande afinidade com o público do club, tem se perdido um pouco ao longo dos últimos anos. Como você avalia esse cenário? O que te mantém motivado nos projetos e clubs que você já possuiu ou possui residência?

Acredito que essa questão tem dois lados. Pode ser que aconteça um desgaste natural,, se o club não possui um número de residentes suficientes para fazer um giro sem repetir muito os line ups fica complicado. Por outro lado, tem também a motivação do artista. Muitas vezes, a rotina pode fazer o interesse diminuir. No meu caso, minha residência no D-EDGE sempre foi mensal desde 2010, com o Projeto Voyage, o que ainda nos dá um ingrediente extra que ajuda muito, que é uma espécie de família que criamos ao longo desses 10 anos e as mesmas pessoas sempre aparecem quando tocamos lá, é bacana.

8 – Para finalizar. Nós enxergamos a música como uma forma de conexão entre as pessoas. Na sua opinião, qual o grande significado dela em nossas vidas?

A música é capaz de mudar vidas. Música é a minha vida. Não consigo explicar exatamente o significado dela sem fugir de alguns clichês como a ‘vida sem música seria um erro’ porque é exatamente isso que eu sinto. Qual seria o sentido de tudo isso se você não ter a música na sua vida? As sensações que eu já experimentei com a música ao longo do tempo vão muito além de palavras, é indescritível. É mais intenso que qualquer outra coisa, é lindo. Estudo ou tenho algum envolvimento com a música há exatamente 20 anos. São 2/3 da minha vida. Muitas pessoas cansam de suas carreiras com muito menos que isso. Para mim, só de imaginar ter que fazer outra coisa é desesperador.

A música conecta as pessoas!