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Não existem fronteiras para Cesare vs Disorder

Não existem fronteiras para Cesare vs Disorder

A música eletrônica é uma arte que comemora diariamente os benefícios da globalização. Atualmente é possível que um produtor que viva em São Paulo produza um disco inteiro com um artista de Berlim. Vivemos em uma cena que respira influência dos 4 cantos do mundo todos os dias. Agora, imagine só um artista que nasceu na Itália, estudou em Londres, morou em Berlim e atualmente vive na América do Sul. Quão grande é o background que ele pode oferecer ao seu público? Estamos falando de Cesare Marchese aka Cesare vs Disorder, o nome por trás da respeitada Serialism Records e metade do duo Azimute. Cesare vem desbravando as fronteiras da música eletrônica global, em entrevista a Troally ele falou sobre sua gravadora, vida pessoal, as novidades do projeto Azimute e o que a música eletrônica representa em sua vida. Confira abaixo essa incrível entrevista. Música de verdade por gente que faz a diferença!

1 – Olá, Césare! É um prazer falar com você. Você nasceu na Itália mas atualmente vive em São Paulo não é mesmo? De que forma esse intercâmbio cultural contribuiu para tua formação enquanto artista?

Olá! O prazer é meu! Eu nasci em Palermo, na Sicilia, mas minha mãe é polonesa. Ela conheceu o meu pai no final dos anos 70 em Palermo, enquanto fazia um intercâmbio da sua faculdade de Medicina. Acredito que o meu intercâmbio cultural já vem no meu DNA. Alguns anos depois, nos mudamos para o norte da Itália, Vercelli, devido a carreira da minha mãe. Passei minha adolescência ali, mas sempre viajando pela Europa. Naquela época ainda se usava muito os trens e descobri quase todos os países europeus ainda muito jovem, portanto fui inspirado por toda essa cultura. Resolvi sair daquela pequena cidade e terminar o meu colegial em Milão. Ali, também me formei em Sound Engineer, na SAE antes de me mudar para Londres. Foi em Londres que senti o meu “boom” como artista. Cursando uma das melhores universidades de artes (Chelsea University – London College of Arts & Design), aprimorando minhas produções musicais e minha capacidade como DJ, como já vinha fazendo na Itália, mas dessa vez com a influência de uma da cidades mais cosmopolitas do mundo. Minha carreira como DJ e produtor se solidificou em Londres, onde passei de DJ local para internacional e minhas produções foram parar em gravadoras respeitadas pela cena underground mundial. Vivi 10 anos em Londres, com altos e baixas, mas com um resultado final muito positivo. Porém, Londres é muito desgastante. Quando achei que minha carreira já estava estável o bastante, resolvi mudar para Berlim em 2010. Na época Berlim, ainda era vista como um tesouro escondido. Não eram todos os artistas que tinham coragem de se aventurar por lá. Mas foi uma das melhores decisões que já tive. Conheci, virei amigo e colaborador, de grandes nomes da cena que até então só faziam parte da minha record bag. Passei um ciclo de 5 anos ali… Até vir para lado sul do Equador.

2 – Você é dono da Serialism Records, que já lançou nomes como Mathew Jonson, Maceo Plex, Tale of Us, Cassy, Quenum, Tiefschwarz e outros grandes artistas. Como tem sido desenvolver esse trabalho de boss label junto a produtores tão importantes?

É uma grande honra para mim ter nomes desse calibre na minha label. Serialism começou com o intuito de lançar minhas musicas e do meu crew na época. Naquele momento em Londres, estava rodeado de jovens produtores de muito talento. E por alguns anos a label seguiu assim, showcasing novos artistas para a cena (alguns deles se tornaram fortes nomes na indústria). Conforme fui amadurecendo como musico e DJ, a Serialism também evoluiu. Meus contatos aumentaram e tenho o privilégio de ter nomes que criaram historia no meu roster.. E ainda tem muito mais por vir.

3 – Suas produções já foram entregues a labels de peso como BPitch Control, Get Physical, Crosstown Rebels, Vakant e muita outras. Qual a importância de fazer parte de selos tão profissionais? Há algum lançamento que você considera mais especial em sua carreira?

Primeiramente, tem o lado pessoal. Comecei a produzir musica aos 18 anos e nunca desisti. Me lembro de comprar discos pensando que um dia eu haveria minhas produções impressa. Depois de anos e anos de dedicação, você ter o seu trabalho aceito e publicado por labels que um dia você foi fã é muito gratificante. Depois, claro, vem o reconhecimento e respeito da indústria. Com labels desse nível, o seu nome chega a lugares que seria difícil de chegar com gravadoras um pouco mais undergrounds. Os meus últimos lançamentos na BPitch e na Crosstown Rebels me abriram muitas portas e me ajudaram a levar o meu nome como produtor a um nível superior, expandindo o meu publico ainda mais.

4 – Você agora colabora com Quenum no projeto Azimute. Como vocês começaram e como tem sido desenvolver esse projeto? O que o futuro reserva para vocês?

Azimute começou depois de anos de amizade e colaboração com o Quenum (co-fundador de Candeza com Luciano). Já são dois anos que trabalhamos juntos nesse projeto e como resultado lançamos discos em Crosstown Rebels do Damian Lazarus, Bedrock do John Digiweed e ainda temos um disco fechado na legendária Detroit Techno Label Trasmat do Derrick May. Acabamos de lançar um disco na Serialism – “We are the sound” – e também estamos indo para o segundo release da nossa vinyl only label Azimute Music. Fora isso, estamos tocando como Azimute em todo o mundo ao lado de nomes como Ricardo Villalobos, Ellen Alien, Matthew Johnson, Tini, MANDY, Juan Atkins, Cassy entre outros. O presente é realmente emocionante.

5 – Em sua bio, você cita gigs em grandes festivais como ADE, DEMF, WMC, Bermuda e outros. Particularmente, você se sente mais a vontade tocando para grandes plateias ou em clubs menores e mais undergrounds?

É muito diferente uma situação da outra. Quando você toca em um grande festival, a adrenalina é muito maior e o contato direto com o publico é praticamente inexistente, a reação do publico você sente como um todo, um mar de pessoas, a vibe se torna coletiva e a musica tem que agradar uma maioria. Quando eu toco para um club menor, a situação, claramente, é muito mais intimista. O meu repertório se torna mais underground e rola um interação maior entre mim e o publico. Para mim um bom DJ é aquele que entende o seu publico e é capaz de se adaptar para que a galera curta muito o momento. Provavelmente, o publico de 5 mil pessoas em um festival de 3 dias quer um som diferente do que uma sunset party na praia num domingo, cabe ao DJ saber agradar, dentro do seu gosto musical.

6 – Quando você está em casa, nos momentos de descanso, quais são seus hobbies favoritos?

Tenho muitos hobbies, alguns vão e vem, outros constantes. Adoro pintar, criar peças de arte contemporâneas e um pouco para o street art. Também adoro fotografia e literatura. Sou um cinéfilo, então passar horas vendo filmes faz parte do meu ritual de relax pós final de semana. Estou tentando criar hábitos mais saudáveis como contra-peso da minha vida noturna. Ultimamente tenho corrido e nadado mas não é sempre que tenho tempo e disposição para isso. Mas eu tento!

7 – No seu Facebook, você define seu gênero como “cosmopolita”. Talvez por ter vivido em grandes polos culturais como São Paulo, Londres e Berlim. Na sua opinião, o que há de melhor em conviver com diferentes culturas?

Na verdade eu descrevi meu gênero como cosmopolita devido a um pouco de brincadeira. Brincadeira não, mais uma metáfora. Querendo dizer que minha musica é eclética e o único limite é a minha inspiração e preferências.

8 – Para encerrar, uma pergunta bem pessoal. O que a música eletrônica representa em sua vida hoje?

A música eletrônica para mim é um estilo de vida. Graças à ela que viajo o mundo, conheço muitas pessoas intrigantes, situações fora do comum e lugares fantásticos. Me considero uma pessoa de sorte por poder viver de algo que é minha paixão. Para mim música é uma droga e é o meu melhor vício.


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n’ Lights Management.

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