Troally com Qindek

O techno é um dos gêneros da música eletrônica mais difundidos ao redor do globo e uma de suas características mais interessantes é a liberdade criativa oferecida aos artistas, que ganham a possibilidade de percorrer diferentes nuances dentro do mesmo estilo. O DJ e produtor holandês Qindek deixa isso muito evidente em seu trabalho, ao percorrer camadas bastante emotivas do gênero, combinando-as com colagens de sons industriais mais pesados e um toque pessoal. 

Denso, versátil e dançante. Essa é provavelmente a forma mais efetiva de descrever o trabalho desse artista que ao longo de seus quase 10 anos de carreira tem sido capaz de criar trabalhos com uma alta dose de emoção. Um importante divisor de águas em sua carreira foi o EP Outbreak, lançado em 2013 pela Wolfskuil Records. Desde então ele tem ganhado cada vez mais espaço no circuito internacional e hoje chega para comandar a edição 185 da Troally com um mix exclusivo. Confira:

Alataj: Olá, Thomas! Tudo bem? Obrigado por nos atender. A Holanda tem uma ampla tradição em revelar artistas emergentes e talentosos para a cena internacional. Como você se enxerga sendo parte deste movimento? A cultura eletrônica do país foi importante para o seu amadurecimento enquanto artista?

Qindek: Estou bem, obrigado! É sempre um prazer receber pessoas com a mente aberta. Sim, a Holanda é um ótimo solo para talentos. Somos pessoas muito empreendedoras, com todos os prós e contras, claro. Esse solo é ótimo para plantar sementes e dar os primeiros passos em direção ao cenário internacional. Internacionalmente, nosso estilo de marca registrada é mais eclético. Embora cada vez mais artistas holandeses estejam crescendo fora desse padrão, a maioria ainda tem esse estilo eclético.

Como artista, sempre prefiro escolher a auto-expressão, sem levar em conta o que é popular e o que funciona na pista. Durante a minha jornada como artista de live PA, cresci criando algo para uma audiência. Em determinado momento, esse sentimento de querer agradar a multidão desaparece. Só quero criar e tocar música boa nos meus próprios termos.

Acho que agora estou em processo de redefinir meu próprio sabor. Estive fora por um tempo, começando uma família, construindo uma casa, etc. Mas agora tudo está em seu devido lugar e está ficando legal. A necessidade de expressão existe, mas ainda preciso encontrar o lugar certo e o momento certo para sair da minha concha novamente.

Suas faixas tem sido lançadas por selos que não são exatamente gigantes no circuito global, mas possuem uma ótima reputação. Como tem sido estimular esse tipo de relacionamento artista/gravadora com essas marcas?

Que pergunta legal, cara. Sim, as gravadoras que escolhi para trabalhar sempre tiveram uma atmosfera mais underground. Eu me sentia mais confortável assim. Isso me trouxe muita experiência em como construir relacionamentos, gerenciar expectativas e lançar músicas. Gostei muito da maioria, mas às vezes também é frustrante, porque tempo e energia têm valores diferentes nesse lado do negócio.

É mais descontraído e os lançamentos bem pensados são mais importantes que tempo e dinheiro. É o que eu gosto sobre isso. Mas também é a razão pela qual estou onde estou. Eu esperava estar em outro lugar nesse momento da minha carreira, mas ainda não aconteceu para mim.

Em relação a sua carreira como produtor, você já se sentiu alguma vez desapontado? Como é essa questão de lidar com a aprovação dos outros para a sua arte e até mesmo com a própria aprovação?

Sim, muitas vezes. Sempre que eu sentia que um lançamento tinha um grande potencial, nada acontecia. Isso pode causar um impacto devastador em sua crença e energia, se não houver ninguém que entenda esse processo por perto. Por outro lado, há o sucesso inesperado, como “Drums Through Time”. Ainda estou vendendo esse disco no meu bandcamp. Nunca imaginei isso.

A aprovação dos outros é essencial se você quiser chegar a algum lugar com sua carreira. Com a necessidade de aprovação, vem o compromisso. Do compromisso surge o conflito, e artistas, selos e clubes não entram em conflito. Na minha juventude, eu era terrível em situações de conflito. Se eu pudesse resolver metade dos conflitos que eu tinha há 10 anos, eu estaria em outro lugar agora [risos].

Quais são suas principais referências fora da música eletrônica? Em algum momento a música brasileira ou latina já te influenciou?

Cresci com Queen, Michael Jackson e a tal da música popular “ocidental”. Quando tinha 8 anos, consegui uma mixtape chamada Turn up the Bass e desde então, era praticamente só música eletrônica para mim. 

Pesquisei muitos instrumentos e estilos. Tive 20 aulas de salsa há 10 anos e esse foi meu primeiro contato com a música cubana. Gosto muito dos ritmos e danças do estilo latino-americano, então acho que existe alguma influência. Mas em qual nível é uma pergunta difícil de responder.

Quando mais novo, acho que músicas de filmes, jogos e a cultura pop ocidental foram as que mais influenciaram.

E quanto a sua própria trajetória? Quais foram os clubs, festas, festivais ou pistas que você se recorda de terem sido fundamentais para seu crescimento como um selector?

Definitivamente Club 11, Berghain, Trouw, a cena rave underground em Berlim… Meu primeiro grande evento foi Innercity de ID&T. Marco V esquentou a pista naquela noite.

+++ Marco V, dono do hit Simulated, recebeu remix de Bas Amro. Falamos com eles!

Considerando tudo o que acabamos de conversar, hora de olhar para o futuro. Quais são os principais projetos que você estará envolvido nos próximos meses?

Quero fazer mais vídeos. Eu lancei mais de 15 projetos em vinil e muitos projetos digitais, mas acho que vídeo é a ponte para os próximos anos. Juntamente com Thijs Brouwers, estou pensando em um projeto com três vídeos. O primeiro já está pronto e espero que ainda este ano os outros também estejam. É um pouco difícil, porque ainda somos artistas independentes.

Além disso, adoraria ter um modular para viagem e improvisar algumas noites. É um hobby caro e a forma precisa estar certa. Passei pela síntese modular há 3 anos, gostaria muito de fazer uma turnê com um live show novamente em 2021, por aí. Colaborações com outros artistas também é algo que eu quero fazer mais. Sair da minha zona de conforto.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

É a minha mãe, filha(o) e melhor amiga(o).

A música conecta. 


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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