Por José Augusto Castelan

Hoje aqui no Alataj vamos falar sobre um assunto que à primeira vista parece fugir da proposta do site, mas acreditar que a música conecta as pessoas é também se conectar com tudo de bom que ela tem para oferecer, é perceber a mensagem por trás de ondas sonoras e letras que derivam de uma série de fatores. Pois bem, na última segunda (17) saiu, via Spotify, o álbum póstumo do rapper Sabotage, um ícone da cultura Hip Hop que atravessa gerações.

O lançamento vem sendo elaborado há um bom tempo, já que na época da morte de Sabotage ele estava gravando um novo álbum junto com Daniel Ganjaman e Instituto, parceiros de trabalho do rapper. A primeira faixa teve produção do duo Tropkillaz, que dá início aos trabalhos com seus sopros graves e roupagem atual. Logo após, a faixa “Superar” conta com participação do DJ Nuts e do rapper Shyheim do Wu-Tang Clan. Também participam do disco Negra Li, Daniel Ganjaman, Instituto, DBS, DJ Cia, Quincas, Rappin’ Hood, Funk Buia, Duani, Dexter, Fernandinho Beatbox, Mr Bomba, Rodrigo Brandão, Bnegão, a cantora Céu, e Sandrão. É praticamente um All Stars Team do rap nacional.

Gostaria de ressaltar aqui a importância do lançamento para a época em que vivemos e para o cenário atual do rap. Acredito que o rap no Brasil atualmente vem criando um cenário composto pelos diversos recortes sociais existentes no país, e isso se observa nos discursos predominantes a nível nacional e regional, bem como na estética sonora. Hoje você tem um cenário de rap em cada estado e uma gama de MCs espalhada por todos eles, sendo que aos poucos o paradigma a ser confrontado nas letras é cada vez mais baseado na reafirmação da identidade cultural local e no abandono do discurso americanizado, que busca um mercado comercial com referencia no cenário global. Os instrumentais também mudaram; antigamente havia uma predominância do boom bap, sendo que de alguns anos pra cá existe não só um novo boom bap, como também o trap, que veio com força e para ficar.

Com a expansão do acesso a internet, não temos mais ídolos maiores que guiam toda uma geração para uma nova era da música, temos diversos ídolos menores que se destacam em uma rede global onde hoje se ripa um beat do YouTube, grava-se a voz por cima, e está pronto o lançamento, banalizando aos poucos o trabalho do MC, do DJ, do produtor musical, etc. O público e o mercado ainda estão aprendendo a separar o joio do trigo, e após 13 anos da morte de Sabotage, que definitivamente é um desses ídolos maiores. Seu álbum póstumo relembra como deve ser a postura e a quais propósitos um artista que se pretende relevante deve atender.

Para formar melhor essa figura, vamos olhar para Mauro Mateus dos Santos, nascido no dia 3 de abril de 1973, e que hoje estaria com 43 anos de idade. Ele nasceu na zona sul de São Paulo e era conhecido como Maurinho, e ainda adolescente se envolveu com o tráfico e a criminalidade. Ganhou o apelido de Sabotage burlando as regras como ninguém e também saindo ileso de um sem fim de confusões. Depois de passagens pela FEBEM (atual Fundação Casa), de liderar o tráfico na favela do Canão e de ser indiciado por porte ilegal de arma e tráfico de drogas, tudo isso ao longo de 10 anos de sua vida, Sabotage encontrou uma saída na música. Ouvinte eclético, não se limitava ao rap ou ao samba, gostava de Barry White, Afrika Bambaataa, Leo Jaime, entre outros. Não vejo nenhum exagero em considerar Sabotage um rapper desde a infância, pois os relatos de amigos e da família dão conta de um rapaz que vivia escrevendo, anotando seus pensamentos, lapidando suas frases e ideias, porém só no final dos anos 80 é que Sabotage se arrisca em concursos de rap, chamando atenção por cantar totalmente fora dos padrões que haviam na época, e inclusive muitos relembram da música “Na City”, cantada por ele então, que impressionava a todos. Ele foi incentivado não só por pessoas envolvidas com a cultura Hip Hop, mas também por seus próprios parceiros de tráfico, que insistiam para que largasse da vida perigosa e incerta na criminalidade por uma carreira no rap, pois viam claramente seu dom para tal.

Ao longo desses anos caras como Rappin’ Hood, Sandrão, Helião, Mano Brown, Ice Blue, entre outros que foram fundamentais para o rap nacional, foram ficando amigos de Sabotage por reconhecerem o seu talento e também pela personalidade cativante do rapper. É unânime entre os que conviveram com ele que havia uma aura na volta de Sabotage, uma aura que atraía idosos, jovens, e crianças em torno dele nas comunidades, que o tinham como herói e/ou exemplo não só por gostarem de rap ou das letras dele, mas porque ele tomava o tempo de responder a todos, cumprimentar todos com um aperto de mão firme e um sorriso, dar um abraço apertado e perguntar “como vai você?”.

Em suas letras retratou com um olhar único a realidade das comunidades carentes, usando o dialeto que corre pelas vielas e carregando um orgulho muito grande de ser de onde era. Em entrevistas, os filhos relatam como o pai vivia lapidando suas letras incessantemente, letras que viraram hinos ou grandes lições para aqueles que vivem hostilizados pela sociedade e pelo meio em que vivem, para aqueles que sonham com um amanhã melhor mas são confrontados diariamente com um cenário nada esperançoso. Sua voz se somou na época a de grupos como o RZO e o Racionais MC’s, que se consagraram no cenário nacional.

Sabotage também participou do filme “O Invasor” e do filme “Carandiru”, baseado no livro de Dráuzio Varela, empreitadas onde ele não só atuou, mas auxiliou na captação de elenco, na formatação de personagens, e também na trilha sonora. Após o lançamento do disco “O Rap é Compromisso”, sua carreira deu um salto muito grande, com aparições constantes na MTV Brasil, vitória no VMB, recebimento do troféu Hutús, entre outros marcos na sua carreira.

Agora que traçamos um perfil da trajetória do Sabotage, sobreponha suas características pessoas e profissionais com a de MC’s da atualidade e enxergam-se as claras diferenças. Muitos discursos no rap hoje em dia refletem problemas e vivencias de caráter pessoal, voltadas para si mesmo, e esse egocentrismo vem perdendo espaço frente aos temas de interesse coletivo, que elevam a consciência de todos, e principalmente daqueles que tem o rap como sua trilha sonora diária. Vale lembrar que essa análise não é do todo, mas sim de uma minoria, considerada por boa parte do público como guia ou referencia para o rap, mas que estão sendo relembrados de que o rap é compromisso, não é viagem.

No disco póstumo a mensagem se reafirma e traz narrativas que estavam suspensas desde a morte de Sabotage. Todo o álbum parece retomar a narrativa que vinha sendo desenvolvida nos anos 2000 e que em 2016 se mostra extremamente atual, atemporal, e mais do que isso, necessária em um cenário que até então parecia querer afirmar valores modernos, porém vazios da consciência que o passado ajuda a construir em confronto com uma realidade que muda constantemente.

Olhando pra trás fica a tristeza de ver um homem cuja vida foi terminada de maneira violenta, deixando mulher, filhos, amigos, e fãs na eterna saudade de vê-lo e ouvi-lo novamente. Sabotage foi assassinado a queima roupa com 4 tiros no dia 24 de Janeiro de 2003, na altura do número 1800 da Avenida Abrão de Morais, próximo a sua casa e logo após ter deixado sua mulher em uma parada de ônibus. Os motivos foram aparecendo após o fato, e 7 anos depois um dos culpados foi sentenciado a 14 anos de cadeia e ainda cumpre sua pena.

A obra póstuma é colaborativa e reuniu cantores, produtores, DJs, MCs, amigos e família do falecido, todos trabalhando não só pela saudade e pela sensação de que ele partiu muito cedo, mas também para que a mensagem de Mauro Mateus dos Santos fosse divulgada até sua última palavra escrita, consolidando nacionalmente seu legado que certamente irá durar por muitas gerações. Sua mensagem é sobre sobreviver com dignidade, não ter vergonha de onde se veio, sobre respeitar todos acima de tudo, e também um lembrete para os que desconhecem a vida nas comunidades carentes, mostrando como é a realidade nessas áreas, como é difícil se formar uma pessoa digna sendo cercado de tanta ilegalidade e controvérsia, e ainda assim conseguir tirar leite de pedra, chegar aonde muitos nem pensam em chegar por se sentirem diminuídos. Quando você ouvir este álbum, lembre-se que ele faz parte de um legado que ultrapassa as fronteiras da cultura Hip Hop e verbaliza mensagens para qualquer cidadão, independente de sua origem ou gosto musical. Música de verdade, por gente que faz a diferença!