Poucos artistas são capazes de representarem com fidelidade a cara do Brasil na discotecagem. Veja bem, isso não é nada fácil, já que estamos falando de um país com inúmeras culturas regionais difundidas e dono de uma irreverência bastante particular quando o assunto é manifestação artística. Além disso, trazer uma abordagem tipicamente gringa – como a house e o disco são – para o verde amarelo exige esforço, ousadia e algumas doses de loucura. Millos Kaiser e Trepanado reúnem todos esses pontos e ainda entregam um algo a mais em suas apresentações.

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Famosos pela festa Selvagem, xará do projeto, que nasceu no Paribar, centro de São Paulo, Millos e Trepanado conseguiram um lugar ao sol não por produções que alcançaram o topo das paradas no Beatport, ou por colaborações com os nomes do momento na cena internacional. O sucesso da dupla e da festa se deve a originalidade, que começa a ser observada logo no nome. Segundo eles, tudo surgiu de uma brincadeira que buscava deixar clara a proposta que possuem de buscar no dancefloor a provocação de instintos primitivos. Deu certo. Hoje, eles são donos um reconhecimento que vai além das fronteiras brasileiras.

Com o passar dos anos, o som do duo também evoluiu. As variações genuinamente nacionais seguem sendo uma das marcas registradas do projeto, que também sempre flertou com a disco/house. O plus atualmente vem da pesquisa e garimpo por sons de outras partes do mundo, como Polônia, África e Caribe. Essas descobertas e misturas ajudam o Selvagem a seguir forte como um nome desejado na efervescente cena musical paulistana e brasileira. Às vésperas da apresentação do duo no RBMA Festival, falamos com Millos e Trepanado. Confira abaixo:

1 – Olá, pessoal! Tudo bem? Obrigado por nos atender. Uma dúvida muito comum de quem não acompanhou o trabalho de vocês desde início, é quanto a origem do duo. O Selvagem nasceu uma festa e se tornou um duo artístico ou foi ao contrário? Ou tudo junto?

Olhando em retrospecto parece que foi tudo junto, mas cronologicamente a dupla surgiu antes da festa. A primeira apresentação nossa foi em outubro de 2011, numa Voodoohop, e a primeira festa aconteceu em dezembro de 2011 no Paribar.

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2 – O som de vocês é algo tão original e autêntico, que encanta a todos que estão na pista ouvindo ou assistindo. Como foi esse processo de construção da identidade do Selvagem? O perfil sonoro do Selvagem é possível de ser definido em uma palavra ou estilo?

O processo é contínuo, apesar do escopo de quase 6 anos de trabalho, e até hoje temos dificuldades em definir nosso som. Uma palavra que gostamos é “anárquico”, que uma vez o pessoal da Red Bull Music Academy usou pra caracterizar nossa abordagem. Mas tivemos algumas fases no percurso. No começo era mais disco e house, com alguns toques de música brasileira – foi no primeiro ano que começamos a incorporar faixas de discoteca nacional nos sets, que na época causavam estranheza na galera. Depois passamos a bancar ainda mais essa história de música brasileira, ao mesmo tempo que fomos incorporando sons africanos e caribenhos, e as possibilidades do repertório só foram aumentando a partir daí (temos nossos momentos árabes e turcos por exemplo). Hoje temos privilegiado cada vez mais nossas descobertas brasileiras, mas nossa essência multicultural continua sendo o traço mais marcante – não são muitas as festas no mundo em que você ouve axé, boogie, italo-disco, new beat e deep house no mesmo set.

3 – Qual a importância do Paribar na história do Selvagem? O que vocês mais sentem falta da época em que o projeto começou?

O Paribar é parte essencial da nossa história, de forma que a nossa trajetória de certa forma se confunde com a do bar por um período. Foi onde nós forjamos essa identidade da qual falamos até agora, o lugar que propiciou essa liberdade toda, onde essa mistura de estilos musicais e de públicos foi possível – muito provavelmente a Selvagem não teria virado o que virou se não fosse a nossa residência de 4 anos na Praça Dom José Gaspar, debaixo do toldo do Paribar. Por isso, foi muito duro deixar de fazer festas todo mês lá, é como se você perdesse sua casa, mas foi uma medida necessária pra sobrevivência da festa. Seja como for, a gente sente falta das árvores da praça no horizonte, das pessoas gritando por todos os lados, da sombra do toldo… até da correria da montagem a gente sente falta.

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4 – Qual o lugar preferido de vocês para garimpar discos? Além disso, quais artistas e estilos tem chamado mais a atenção do Selvagem nesse momento?

Segredo! Recentemente a gente se vê no meio de um alinhamento cósmico em que tem muita coisa boa vindo pra nossa mão, de diferentes gêneros, mas não podemos abrir o jogo, mesmo porque estamos abrindo uma loja online de discos brasileiros que nós garimpamos, então é parte do nosso trabalho não apenas de montagem de repertório, mas também de estoque. De qualquer forma, a gente sempre recomenda a Galeria Boulevard na Rua 24 de Maio, que é onde costumamos levar amigos de fora quando querem fazer o digging – lugar onde estão as lojas do Tony Hits, do Zico e do Chico, do Celso. Sobre artistas e estilos, o que podemos dizer é que estamos sempre procurando o que ninguém mais está – gêneros subestimados, artistas ridicularizados. É o único jeito de se manter à frente desse jogo canibal que é o garimpo de discos.

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5 – O debate sobre formato de mídias é algo recorrente na cena. Qual a opinião de vocês sobre o assunto? Vocês costumam tocar algumas coisas no digital também ou dão total prioridade aos discos?

Pra gente esse debate é mais que superado. Qualquer mídia e formato de apresentação é válido, desde que os DJs demonstrem o essencial: repertório, programação, técnica e alguns truques debaixo da manga. Nosso setup preferido é com toca-discos e CDs-J, assim conseguimos tocar coisas diferentes e inéditas seja em vinil ou digital. É preciso estar atento e preparado pra qualquer situação – hoje em dia é cada vez mais difícil encontrar lugares adequados pra quem toca só com vinil (inclusive fora do país).

6 – Qual a gig mais memorável do Selvagem até hoje?

Difícil escolher, mas nossos bailes de carnaval no Rio são particularmente especiais e neste ano conseguimos nos superar em termos de produção e performance (foram 12 horas de set para 6 mil pessoas). Em São Paulo, talvez a edição do Paribar no aniversário de São Paulo (2014 ou 2015) – tem o set no nosso Soundcloud.

7 – Vocês são reconhecidos como referências quando o assunto é pesquisa de brasilidades? Na visão de vocês, a música brasileira é a mais original do mundo? Quais outras culturas musicais tem despertado o interesse de vocês para discotecagem?

Complicado afirmar que qualquer música é a mais original do mundo – tem tanta coisa maluca e genial espalhada por aí que a gente prefere não bancar uma história dessas. Entretanto, é a música brasileira que nos diferencia de outros DJs de abordagem multicultural semelhante espalhados pelo mundo, então naturalmente privilegiamos ela. Mas, atualmente, as pessoas podem ouvir coisas como dabke (estilo de música síria sintetizada e intensa que, por incrível que pareça, é trilha de casamento naquele país), kwaito (proto-house/house sul-africano), soca-disco (estilo dançante caribenho) e zouk (espécie de axé de origem franco-caribenha) nos nossos sets.

8 – Quais são suas expectativas para o Red Bull Music Academy Festival em São Paulo? Quão importante é para a cidade e o país ter eventos desse porte e curadoria?

O Brasil é carente de festivais, por isso qualquer iniciativa que se proponha a unir artistas de diferentes origens e estilos na mesma programação é mais que bem-vinda – e ter um label como o RBMA por trás disso, com a reputação que o precede, é um aval de que a cena brasileira é uma das mais interessantes e diversas no mundo hoje.

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9 – Discos, tours, novidades. O que você pode adiantar pra gente a respeito do segundo semestre de 2017?

No começo de julho nos apresentamos no Full Moon Fest em Nova York, integrando um line-up que tem Larry Heard, DJ Harvey, Jeremy Underground, Kelela e Vic Mensa, e no fim de julho partimos para uma turnê de 3 semanas na Europa, com passagem pelo Dekmantel em Amsterdam. No fim de agosto saí o primeiro release do nosso selo Selva Discos, que é a reedição remasterizada do LP Brasileira da cantora Maria Rita Stumpf, um álbum raro e incrível que está na lista de desejos de muita gente depois de ter uma música incluída na coletânea Outro Tempo, do label Music From Memory. Depois, até o fim do ano, saí o segundo lançamento do selo, um 12″ com remixes de duas músicas da Maria Rita – um feito por nós em conjunto com o Carrot Green, outro assinado pelo Joakim. Tem mais coisas engatilhadas, mas cada uma a seu tempo.

10 – Por fim, uma pergunta que vocês já devem ter escutado um milhão de vezes, mas não responderam ainda para esse que vos escreve [risos]. Por que Selvagem? Isso tem a ver com a roupagem sonora de vocês?

Há algumas versões circulando por aí, mas o nome tem a ver com a nossa proposta de provocar os instintos mais primitivos na nossa pista de dança, que é mais visceral que cerebral.

Música de verdade, por gente que faz a diferença!