Eduardo Cavassim e Sebastián Lezcano formam o duo Strange People. O projeto que possui base em Curitiba – atualmente um dos integrantes reside na Índia – é membro do núcleo Music Nerds e entrega suas faixas que vão do chill out ao techno para labels como Better On Foo, DTB Records e DP Music. A experimentação sob diferentes vertentes da dance music, sempre com a identidade que a dupla construiu, é uma característica marcante do projeto. Semana passada eles assinaram o mix 72 da Troally e hoje, você confere o bate papo que tivemos com o duo. Música de verdade, por gente que faz a diferença!

1 – Olá pessoal, tudo bem? Sabemos que vocês se conheceram no curso de produção da AIMEC e depois de alguns trabalhos, decidiram criar o Strange People. Como funciona o fluxo de trabalho de vocês? Tanto na produção, quanto nas apresentações, cada um tem suas tarefas pré-definidas ou há uma improvisação maior nesse sentido?

A única regra que tentamos arduamente respeitar é sempre terminar as músicas que já começaram a ser feitas. Mas sempre quebramos essa regra, se for ver, nós dois estamos repletos de projetos inacabados (risos). Mas por enquanto nosso objetivo é produzir, sem impor qualquer limitação. É até engraçado que mesmo estando muito longe um do outro, a evolução estética da música de cada um de nós, caminham juntas, e isso desde sempre tornou nosso trabalho mais congruente e prazeroso. Até nas músicas que fazemos fora do projeto Strange People, dá pra notar grande semelhança. A distância não existe mais, graças á internet, estamos sempre trabalhando nos projetos um do outro.

2 – Na música do Strange People, há uma busca pela fuga do que é convencional, certo? Quais são as principais referências que vocês utilizam fora da música eletrônica?

Certo, e o que buscamos não é uma estranheza difícil de engolir; buscamos fuga dos padrões já forçadamente impostos na vida das pessoas. Por exemplo, quando fazemos um loop de bateria, bem quebrado, é isso que tentamos dizer. Nossa, as referencias são muitas (risos). Adoramos musica folclórica, são carregadas de historia e tem a essência de cada povo, além de serem diferentes para cada lugarzinho do mundo, com instrumentos exóticos, e muitas vezes complexidade musical altíssima. Estamos em uma fase de reconquista da nossa brasilidade, então temos ouvido muita musica brasileira, é coisa boa que não acaba mais.

3 – Vocês são membros do coletivo Music Nerds. Falem um pouco mais a respeito do trabalho desenvolvido junto a eles e também da importância desse movimento independente para a evolução da cena como um todo.

O Music Nerds é um coletivo que nós, junto a Diego Mazzitelli, Augusto Sala, Kessy Santos e Eloiza Montanha, desenvolvemos e estamos tocando integralmente. Nós, enquanto Strange People, além de tocar e produzir, cuidamos da curadoria musical, produção de eventos e logística. Na Índia, Sebastian também cuida do desenvolvimento de  network com o apoio de Giulia Savoi, ex-nerd e atual manager do projeto solo Sebastian Lezcano. Nós, enquanto coletivo, trabalhos num eixo totalmente globalizado que a internet nos proporciona, a exemplo dos trabalhos que realizamos em festas e podcasts com artistas como Denise Wright da França, Resa e Oana da Romênia, Coriesu de Nova York, Stacie Flur da Ucrânia, entre outros. Isso nos mostra que podemos tocar lugares distantes, e ajudar de alguma forma a fomentar a valorização da arte underground ao redor do mundo, e principalmente aqui e na Índia, que é aonde realizamos nossas festas. Para nós, a disseminação de novas sonoridades e experiências sociais, artísticas e políticas, representa a principal engrenagem de um movimento cultural independente que contribui com a evolução da cena.

4 – Uma faixa que nos chamou MUITO a atenção foi a “Cara Delevingne”.  A evolução e progressão dela são bem nítidas e impactantes. Como funcionou o processo criativo dessa track?

Essa música foi uma dessas que você perde o projeto inicial, reconstrói com o que sobrou e nunca mais encontra aquela primeira versão. Mas gostamos muito dela. Na época (2014 – 2015) nós dois morávamos no Brasil, então foi basicamente nós dois, sentados no nosso estúdio improvisado (que na época era na churrasqueira da minha casa), e dispondo de um teclado midi apenas. Essa questão de se sentir limitado por não ter equipamentos não passa de bloqueio mental. Tem artistas que fazem musica de cair o queixo usando apenas um computador e um fone. Mas voltando ao que falávamos, o processo criativo dessa música foi basicamente eu e ele sentados buscando por sonoridades que nos agradavam. Algo que sempre tentamos desenvolver o máximo, é fazer com que a música soe cheia, com poucos e bons elementos. Gostamos muito dos detalhes, das texturas e de desafiar a musica eletrônica, fazer ela orgânica, superando a dureza rítmica imposta pelos softwares de produção.

5 – 2016: gigs, lançamentos, novidades. O que vem por aí?

2016 está sendo lindo, carregado de lições e novas experiências proporcionadas pelo trabalho que temos desenvolvido junto a outros coletivos e artistas. Continuamos no nosso projeto com a Wake up colab, a A L C O V A e a Redoma, evento que amamos, uma verdadeira contemplação das artes em suas mais variadas vertentes. Há duas novidades interessantes que já podemos contar para 2016. Uma delas é que iniciaremos em maio deste ano com o Music Nerds uma festa no Zeitgeist Club, onde apresentaremos o nosso conceito mais sincero musicalmente possível enquanto artistas e coletivo. Outra boa nova é a tour que o Sebastian fará na América Latina em maio também, que nos permitirá trabalharmos ainda mais juntos novamente. Já temos várias datas do Strange People, mas deixaremos para divulgar futuramente. Quanto a produções, preferimos também continuar na nebulosidade (risos), mas podemos dizer que estamos produzindo bastante, desenvolvendo projetos com labels do exterior e do Brasil e logo menos poderemos anunciar novos releases.

6 – Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa na vida de vocês?

A expressão do universo, por nós.