É interessante observar como o mercado brasileiro é criativo e se renova com a presença de artistas com as mais diversas características. Um desses novos nomes capazes de causar tal mutação é o paulista Vinicius Antônio aka VAntônio, novo integrante do casting da D AGENCY e profissional experiente no ramo de produções de vídeo e trilhas sonoras.

Vinicius é um artista preocupado com as sensações que a música pode causar no dancefloor. Por isso, apresenta seu live act desde 2016 buscando a sinestesia como principal fator. Para o produtor, cada objeto é parte de seu próprio universo e está passível a moldar sua existência. Seu primeiro release foi assinado pela D-EDGE Records e mais novidades devem pintar em breve na discografia.

Atualmente VAntônio segue uma rotina dupla, onde ministra aulas de produção no Ableton Live e prepara seu live para as pistas de todo o Brasil. Para entender melhor o momento de carreira desse talentoso artista, o convidamos para uma entrevista. Confira abaixo:

1 – Olá, Antônio! Obrigado por nos receber. Seu live act começou a ser executado em 2016, certo? Fale um pouco sobre seus trabalhos e background profissional antes desse período

Eu agradeço antes de vocês pela recepção e poder falar um pouco (prometo tentar falar pouco) dos meus trabalhos. Sim, é verdade que comecei as apresentações do meu live act no final de 2016, mas de fato o trabalho neste projeto começou em Outubro de 2013 com uma decisão um tanto quanto radical na minha vida. Estudei, me formei em ciência da computação muito novo e comecei a trabalhar desde os 17 anos nesta área. Desenvolvi uma carreira na área de tecnologia com bastante dedicação, o que me trouxe um crescimento muito rápido e até diria prematuro na área corporativa vivendo grandes projetos em empresas multinacionais. Tive a oportunidade ao longo de 13 anos ininterruptos de alcançar uma posição executiva e viver grandes projetos não só no Brasil, mas também pelo mundo. Durante o ano de 2013 iniciou um processo de urgência de mudança que culminou em Outubro/2013 em realizar um período sabático na minha vida e minha saída da empresa. Para minha família e pessoas mais próximas, parecia um tanto quanto loucura minha decisão, mas fato era: a vida que eu estava levando não era de nada ruim, mas não era mais onde eu me realizava e tudo aquilo se tornou um “peso” – por melhor que fosse o salário ou até mesmo o certo status que aquilo podia significar (que sinceramente nunca me importei) . Voltando um pouco atrás, tive uma adolescência atípica: era ultra tímido, inseguro e encontrava-me na literatura, filosofia, música e cinema – saía pouco e quando saía era para a biblioteca ou cinema. Chegava a ler 4 livros por mês. Lembro de “levar uma bronca” do meu pai: “Você não pára de ler, vai ficar louco, vai sair um pouco com os seus amigos.”.

Mas fato é, durante toda a minha vida, o que me moveu foram estas “matérias-primas”, mesmo que inconsciente: Nietzsche, Hermann Hesse, Jung, Stanley Kubrick, David Lynch, Aldous Huxley, Joy Division, New Order, Kraftwerk, Air, Aphex Twin são alguns nomes que me vêm à mente agora. Quando realizei o período sabático, estava com 30 anos e com ideias “escorrendo pelo travesseiro”. Foi a época da minha vida quando menos dormi, mais trabalhei e mais me sentia bem, mesmo sem ganhar nada financeiramente: Consegui finalmente dedicar-me ao que hoje considero 3 itens chaves da minha vida: música, fotografia e culinária. A culinária, ao contrário da música e da fotografia foi desenvolvida de forma natural durante os períodos de mundo corporativo: Lembro de retornar para casa dentro do metrô ou dirigindo ouvindo música, pensando, buscando e combinando ingredientes para elaborar o prato da janta. A música e a cozinha, por menor que fosse o tempo, era o meu refúgio e agora ter “todo o tempo do mundo” para me dedicar à isso e maturidade era o momento perfeito para finalmente materializar e dar forma às minhas ideias em projetos: Música através do VAntônio, culinária através do canal culinário EuChef. com o apoio da minha namorada (Luiza) e a fotografia (com foco em vídeo e edição) que estudei durante este período potencializando estes dois.

Este período durou 6 meses e quando o dinheiro acabou, retornei para o mundo corporativo, porém com outra cabeça: Tinham estes projetos embrionários que me motivavam seguir em frente, porém uma vida com responsabilidades financeiras que não podia (e ainda não posso) me dar ao luxo de abrir mão. Do final de 2013 até o final de 2016, dormia em média 3 horas por noite, era tecnologia, clientes e projetos durante o dia e madrugadas estudando música, editando (e aprendendo) vídeos e isto incluía também os finais de semana. Foi um período também de reclusão com relação à sair noite e qualquer tipo de balada. Qualquer tempo e energia disponíveis eram agora catalisados para os meus projetos. Hoje tenho equilibrado tudo isto melhor, estou dormindo cerca de 4 horas por noite [risos].

2 – Em sua bio, a sinestesia é citada como principal fator da construção de seu trabalho estético. Como você tem procurado abordar os diferentes sentidos nessa fase de sua carreira?

Não sou músico (apesar de estudar bastante a respeito), mas sempre escutei muita música e sempre tive uma relação muito visual com o que escutava: quando estou produzindo o fluxo criativo é muito análogo a um “designer” ou a um escultor. As minhas músicas e cada uma das suas partes e momentos na minha cabeça tem cor, forma e (pode parecer loucura) às vezes cheiro. Junto à isso tem o projeto culinário para o qual também desenvolvo as trilhas e para os quais já ocorreu o caminho inverso: Uma música originar uma receita. O processo de cozinhar, onde você escolhe os ingredientes, combina texturas, cores, experimenta e principalmente busca “tocar o próximo” é muito análogo à quem produz uma música e o resultado disso tudo é um dos atos mais nobres que encontro na natureza humana. É sinceramente uma das únicas vezes que me encontro totalmente dedicado a fazer o próximo se sentir bem, ter uma experiência sem pensar a “priori” em mim (sem nenhum egoísmo). A sinestesia me move e permeia meu trabalho desta maneira. Tenho um projeto ainda maior em fase embrionária onde tudo isto ficará ainda mais claro.

3 – O que representa para você essa recente entrada para o casting da D AGENCY? O que você pode adiantar de novidades que serão frutos dessa parceria?

A entrada além de esperada e desejada foi algo bem natural. O D-EDGE Records lançou minha primeira música, a casa me recebeu e me convidou mais de uma vez, não só para tocar nas suas noites, mas para conversar durante o dia, durante horários comerciais na semana, para me dar opiniões, me orientar e me ouvir. Encontrei lá um profissionalismo além noite e pista que meus projetos precisam e vão sempre precisar. Por mais talentosa e dedicada que uma pessoa seja, ninguém sobrevive ou cresce sozinho e estou apenas começando. Para chegar até “aqui”, estar respondendo às suas perguntas, no mínimo uma lista de várias pessoas eu deveria anexar, pessoas que sou e serei muito grato e sem elas não teriam nem dado o primeiro passo. Felizmente e naturalmente a D AGENCY foi a primeira a formalizar esta parceria.

Novidades: Além das óbvias, como um EP, futuro álbum e potencializar o projeto de ensino (MIDITerapia) pelo Brasil, tenho algumas mais “exóticas”, mas que preciso ainda de tempo para formalizar, apresentar e não assustar o pessoal [risos].

4 – Como você avalia o atual momento da cena eletrônica de São Paulo? Quais peculiaridades devem ser preservadas e o que precisa mudar imediatamente para o crescimento sustentável do mercado?

Se fosse realizar uma analogia com um ser humano, diria que somos um adolescente com grande potencial: Muitos projetos, ideias e talentos como nunca antes, porém, imaturos na execução e ainda perdidos em busca da sua identidade. Entendo isto como um processo natural de evolução e com otimismo, mas que carece de reflexão: Por exemplo, vejo às vezes às pessoas comparando a cena daqui a de Berlim, quando, na verdade precisamos começar a refletir sobre o que está ocorrendo e sendo construído aqui, nossos talentos e buscar nossa própria identidade. Berlim (me corrija – Google! se eu estiver errado), tem 278 clubs (oficialmente). Muitos destes abrem na quinta e fecham na terça ininterruptamente em um contexto ondes as pessoas podem “se dar ao luxo” de viver isso e de ter um governo que enxerga e valoriza isto como trabalho e arte. Aqui ao contrário, temos que trabalhar (com raras exceções) de segunda a sexta muitas vezes em trabalhos que não gostamos e buscar em paralelo tempo e energia para conseguirmos finalizar uma track. E o que deveríamos saber é que a mudança não virá de fora (do governo, por exemplo) e sim de cada um que pretende, de quem já é artística profissional, e também das pessoas que vivem a cena. Isto significa: se profissionalizar mais, se organizar, se comprometer, cumprir prazos e abrir mão de certas coisas para se dedicar mais.

Alguns exemplos (podem considerar conselhos, pois, funcionam bem para mim):

• Não esperar inspiração e “sentar” na cadeira para produzir mesmo que a “priori” não tenha vontade – já iniciei cheio de inspiração para produzir e nada saiu em horas e já comecei sem vontade nenhuma e em uma hora tinha uma das músicas que mais tenho apreço;
• Parar de buscar desculpas na falta de recursos, como computadores ou instrumentos – muitas das músicas que escutamos e admiramos foram feitas com um fone de ouvido, um desktop ou laptop pior do que o que você está lendo isto;
• Estudar a história e origem da música (não só eletrônica) e seu contexto social;
• Estudar tecnicamente a música, síntese sonora ou entender mais as possibilidades do seu DAW;
• Reflexão sobre a sua visão e missão como artista.

Estes são alguns itens que me vêm à mente e acredito que deveriam fazer parte, mesmo que de forma sutil, em um exercício constante de todo artista.

Você disse também em mudança imediata: Não acredito em uma mudança imediata e se ocorrer não será sustentável, mas acredito em uma mudança orgânica, melhoras pontuais – aí sim sustentável e baseada em atitudes individuais fundamentadas em profissionalismo e respeito mútuo e integradoras por todos que vivem, gozam e que sofrem a cena. Sim, sofrem – sustentar, organizar e manter um club ou uma festa, virar a noite para entregar uma track para uma label que nem play dará, custa caro financeiramente e energeticamente, além de envolver uma rede de seres humanos, desde operadores de caixa, artistas, time de limpeza, bookers, A&Rs, time de segurança, fotógrafos, managers e muitas outras pessoas. São vidas e sonhos “na roda” e deveríamos pensar muito a respeito disso e nas nossas atitudes: do backstage, passando pelos artistas até a pista antes de formarmos (o que é bem raro) ou replicarmos opiniões.

5 – Como é montado o seu setup para as apresentações no formato de live? Esse tipo de apresentação é o único em que você atua artisticamente?

Por trabalhar com tecnologia, tenho a tendência a versionar meus setups: Logo, tenho versões diferentes para controlar a evolução – estou atualmente na sétima, com cerca de 5 horas de trabalho autoral, e tenho 3 setups que me dão flexibilidade para tocar em diversas situações:

• Setup 1: Neste eu trabalho com o mínimo de recursos físicos: basicamente uma controladora MIDI, laptop e interface de áudio. Dependendo do local e espaço disponível utilizo este setup. Apesar de mais simples visualmente, é o setup que mais desafia minha criatividade e onde busco ao máximo explorar as possibilidades das minhas músicas e do meu DAW (Ableton);
• Setup 2: Neste, além dos elementos acima, incluo um sintetizador e uma drum machine, o que me dá ainda mais liberdade e facilita o trabalho de improviso, mas sem perder a essência;
• Setup 3: Neste, incluo diversos instrumentos externos (no mínimo 3 drum machines, 5 sintetizadores e uma mixer de de 14 canais) e além do meu live act no Ableton sincronizado com tudo isso, reservo geralmente no início um momento para experimentalismo total (jam) – este é o mais arrojado e arriscado – e escolho lugares e momentos com cuidado – mesmo assim quase sempre não tenho certeza se fiz a escolha certa [risos].

Com relação às outras apresentações artísticas, há um pouco mais de um ano, iniciei um segundo projeto de live act chamado HIATO em parceria com o DJ Gustavo Miranda (Voyage Inc. e residente Freak Chic D-Edge). Realizamos a nossa primeira apresentação no festival Ressonar na Chapada Diamantina (BA) este ano, uma segunda em Santos (SP) com o núcleo ABSM e temos trabalhado de forma “religiosa” neste projeto. Tem sido um projeto motivador e agregador para nós dois.

6 – Você é um adepto do Ableton Live e tem ministrado algumas aulas sobre o software, não é mesmo? Como você consegue conciliar essa rotina de ensinos com a produção musical? Isso é natural pra você?

Sim, considero o Ableton como principal instrumento de trabalho de criação e claro de performance – uma vez que sou um “nerd” de TI com pouca coordenação motora para tocar um instrumento, encontrei no Ableton meu principal aliado para criação e expressão musical. Também tenho cada vez mais me aprofundado no seu funcionamento e neste processo, naturalmente, as pessoas começaram a me procurar para tirar dúvidas, até que houveram convites para alguns workshops antes de tocar em algumas gigs. O trabalho começou sem grandes pretensões, porém tem tomado cada vez mais forma e está atualmente com o módulo WS001 (para iniciantes) totalmente estruturado. Recentemente batizado de MIDITerapia tenho como objetivo levar o ensino além São Paulo, passando pelas principais cidades do Brasil com custo acessível e também para locais de pouco acesso e com falta recursos de forma gratuita. É um projeto ambicioso, mas estou estruturando com calma. Este processo enriquece meu aprendizado, além de ampliar minha rede de contatos e identificação de novos talentos. Muitas vezes saio inspirado pelos alunos e aprendo muito também. De fato, do ponto de vista energético tem sido extremamente desgastante, mas recompensador.

7 – No mesmo formato de apresentação que o seu, quem são os principais artistas que você busca inspiração atualmente?

Sem dúvidas: Nils Frahm, Recondite, Robert Henke, David August e Kiasmos.

8 – Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que mais tem te motivado no processo criativo atualmente? Há algum novo estilo, artista ou movimento musical que você descobriu e queira compartilhar conosco?

Ironicamente minhas inspirações consumam vir de fora da música eletrônica: Muito pelo cinema e com relação à música atualmente tenho estudado e sendo inspirado muita pela música árabe, além disso tenho “garimpado” música japonesa, algumas coisas bem legais de jazz etíope, e sempre muito post-rock:

Mulatu Astatke (Jazz Etíope)

Geinoh Yamashirogumi (Japonesa)

Naseer Shamma (Árabe)

Mogwai, Sigur Rós, Jeniferever, Godspeed You! Black Emperor (Post-rock)