Gravado em menos de 60 dias durante o verão de 1973, Pérola Negra é o disco de estreia do cantor e compositor Luiz Melodia, um dos grandes símbolos da MPB brasileira no século passado. Na época, o jovem do morro de São Carlos foi descoberto pelos tropicalistas Caetano Veloso, Waly Salomão e Gal Costa. Foi uma amiga em comum de Melodia que apresentou a faixa Pérola Negra para Gal em 1972, a cantora apaixonada pela canção, decidiu incluir em seu álbum e aí a carreira de Luiz começou a mudar.

Roberto Menescal, diretor artístico da principal gravadora de MPB do Brasil (Philips/Phonogram) na época decidiu apostar em Luiz Melodia. Com 10 faixas e pouco mais de 28 minutos, o jovem de São Carlos impactou os chefões da gravadora com um trabalho 100% autoral, profundo, original e com o conceito artístico praticamente finalizado. Ao longo de suas 10 faixas, Melodia vai do samba clássico ao blues, rock e soul, com uma maturidade quase que assustadora para um artista de apenas 22 anos.

Após o lançamento do LP, o poderoso Guilherme Araújo, empresário de nomes como Caetano, Gil e Gal, passou a cuidar da carreira do artista: “Eu era um cara à parte da situação, era um menino.” comenta Melodia. Um fato curioso sobre o disco foi a inspiração utilizada pelo carioca para compô-lo. Segundo ele mesmo, mais da metade das faixas foram inspiradas em sua primeira namorada branca, uma mulher de 28 anos que mais tarde viria se tornar a namorada de Waly Salomão. “Ficamos amigos, tivemos uma relação muito rápida, depois ela parou com o Waly. Foi danado. Ela me inspirou bastante, talvez por ter sido a primeira mulher branca que eu namorei. Não sei se ela sabe que foi a musa do disco.” conclui Luiz em uma entrevista para a Folha publicada em 2013.

Apesar da voz e violão de Luiz Melodia terem encantado a Phonogram quando o álbum foi apresentado, curiosamente ele não toca nenhum instrumento no álbum. Ao invés disso, um time de músicos formado por uma espécie de “nata artística” da época foi formado: “Devido à autenticidade do meu violão, muita gente queria que eu tocasse no disco, mas não toquei. Achei que havia pessoas que fariam isso melhor do que eu”. Rubão Sabino, Antonio Perna, Rildo Hora, Regional do Canhoto, Altamiro Carrilho e Renato Piau são alguns dos nomes que colaboram em instrumentos como gaita de boca, violão, guitarra, flauta e piano.

Péricles Albuquerque foi o responsável por dirigir o álbum, que não teve a mixagem original aprovada por Melodia. Mais tarde ele viria a relevar a situação devido o sucesso de crítica do disco. “Acho que a voz poderia estar num nível diferente, alguns instrumentos não se destacam tanto em algumas músicas”, diz Luiz novamente a Folha. Apesar do sucesso da crítica especializada, Pérola Negra não teve uma grande inserção popular e portanto, não vendeu bem, algo considerado relativamente normal para a época.

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A capa, quase tão famosa quanto as músicas, foi desenhada pelo fotógrafo e amigo Rubens Maia, um velho parceiro de Melodia. Após o lançamento do álbum, Luiz passou a enxergar toda sua obra com muito mais confiança e não cedeu a pressão da gravadora para gravar novos discos na sequência. Segundo Melodia, ele não se encontrava inspirado suficiente e não via sentido em criar algo sob tal olhar. Como consequência dessa decisão, Luiz passou a ser visto como um artista difícil, algo que foi desmistificado alguns anos depois.

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Melodia seguiu, fez carreira, cantou seus sambas pelo Brasil e pelo mundo e hoje é um ícone da nossa história musical, assim claro como seu Pérola Negra, disco chave para todo apaixonado pela MPB e cultura musical da década de 70. Em Agosto desse ano, Luiz Melodia não resistiu as sessões de quimioterapia contra um câncer na medula óssea e acabou falecendo. Sua obra, essa não, jamais nos deixará e ficará eternamente marcada pela voz rouca e inconfundível desse talento raro do morro de São Carlos. Ouça Pérola Negra na íntegra abaixo:

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