Mega Funk e Brega Funk: fenômeno social das pistas

Um dos maiores legados da história do Brasil é a pluralidade cultural que aqui germinou. E veja bem, quando falo sobre isso, não entra em pauta a questão sobre os nossos gostos pessoais. É sobre olhar por uma ótica mais ampla e entender que, em um país continental, os desdobramentos culturais são dinâmicos demais. Então, é sobre aprender, entender, valorizar, por que não apreciar, mas acima de tudo, respeitar. 

Quando olhamos o Funk brasileiro é indiscutível o teor cultural, social, político, ideológico incluso nessa estética. Trata-se de uma manifesto cultural e uma crítica social que abarca consigo questões muito mais profundas do que só ser um “tipo de som”. Temos a  representatividade, o coletivismo e o senso de pertencimento e por consequência, a antítese por trás disso, entre outros fatores que eu mesma não posso falar com propriedade, já que esse nem mesmo é o meu lugar de fala, mas que, com muito respeito, traço hoje uma narrativa histórica e uma análise que derruba barreiras nesse textão que chamamos de editorial, dentro de um portal de música eletrônica. Porque, quer você goste ou não, o Funk também é cultura.

Hoje, falaremos sobre dois subgêneros provenientes dele: o Mega Funk e o Brega Funk. Você já ouviu falar sobre eles? Se você ainda não ouviu, tudo bem, mas saiba desde já que ambos são fenômenos sociais em nosso país e é por isso que a análise se faz necessária. E nada mais adequado para se estabelecer uma análise consistente do que trazer primeiro o contexto histórico para culminar na temática central. Vamos primeiro falar do ponto de conversão entre os sons, então se prepara que lá vem história. 

Como um estilo de som que tem sua cadência estabelecida pelo baixo marcado e muitas vezes por um apanhado de elementos que contribuiu com o Disco e House, por exemplo, o Funk veio de uma derivação mais dançante da Soul Music e uma mistura com as influências do R&B, Jazz e Gospel, estilos recém-nascidos nos Estados Unidos no final da década de 50 e oriundos das canções feitas pelos escravos naqueles tempos. As palavras funk e funky eram usadas pelos músicos de Jazz como uma forma de pedir aos integrantes da banda que colocassem mais força ao ritmo e aí você já sabe o resto…

A partir dos anos 70 e 80 o Funk passou a ser misturado com a música eletrônica e com o Rock. Nos anos 80, com o boom dos synths e uma maior consolidação da Dance Music, deu início a uma mistura entre o Funk e Hip Hop, movimento esse que ganhava grande força na América do Norte. A mistura dos bairros de população negra de Miami tinha um ritmo mais acelerado e essa classificação deu origem ao Miami Bass. O estilo usa a batida contínua da caixa de ritmos da Roland TR-808 e o que o diferenciava de um dos pilares do Hip Hop, o Rap, era justamente porque ele possuía um teor mais divertido, ao contrário da sua vertente-prima, que abordava os problemas sociais, críticas ao sistema, criminalidade e discriminação racial. ex miami bass

Nessa década se registrou a aproximação do Funk com a poesia do Rap, algo que faria muito sucesso no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, como sabemos. E eis a conversão: o Funk dava suas caras no final dos anos 70 aqui. Nesse período, a ditadura militar, infelizmente, efervescia e no contraponto, a arte dava seus passos em busca de mais expressão. O movimento Tropicália ganhava força, bem como o Black Rio, que pregava o orgulho de ser negro aqui. Ambos, definitivamente, foram portas de entrada para experimentações sonoras diferenciadas e experimentaram o Funk em suas estruturas. Com o passar dos anos, tanto o Hip Hop, quanto o Miami Bass chegaram ao nosso país. Com o fim da  ditadura, a arte e a música ebuliram e aí que a mágica começou a acontecer. 

Entre os nomes da época, um que pode ser considerado pioneiro aqui é o de Fernando Luís Mattos da Matta, conhecido como DJ Marlboro. Considerado o principal responsável por fazer o gênero se tornar o que é hoje. Ele quem introduziu a bateria eletrônica no Funk e em seu primeiro disco foi batizado de Funk Brasil, lançado – pasmem todos- em 1989. Esse momento consolidou o Funk e deu origem aos desdobramentos subsequentes. A primeira grande evolução veio nos anos 2000 quando o estilo deu um salto quântico e propagou pelo país. Era o momento de sair da periferia e tomar conta das casas noturnas e festas de outras classes, academias, bares e as rádios. O emblemático Furacão 2000 virou um fenômeno pelo país e meus amigos e amigas, todos nós acabamos surfando nessa onda em algum nível.  

Outro ponto marcante nessa década, foi o ingresso das mulheres como MCs fazendo o som pelo viés feminino dando voz a elas. Nomes como Tati Quebra Barraco, Valeska e Deise Tigrão começaram a abrir caminho naqueles tempos, tempos bem diferentes e começaram a fazer história para um futuro que viria a ser bem empoderado. O que veio depois, de maneira bem resumida, faz parte de uma história recente: o Funk carioca e seus polêmicos bailes, o Funk ostentação de São Paulo, Funk Pop de Anitta e Pabllo Vittar, o Funk Proibidão, que é auto explicativo, o Eletrofunk que mistura ambos estilos, o recente Funk 150BPM e claro, o Brega Funk do Nordeste e o Mega Funk de Santa Catarina.

Os dois últimos são de mundos muito distintos entre si, mas que beberam da mesma fonte para criar algo novo. Então, como poderíamos nós ignorarmos a potência do que DJ Marlboro chamou nos anos 80 de Funk Brasil? Convenhamos, não tem como. E olha que essa análise é só sobre a questão sonora, não entraremos no mérito das danças, das roupas, do lifestyle, mas tenha isso em mente.

Brega Funk: o caldo temperado de sons nordestinos e as batidas quebradas 

Antes de falarmos do Brega, vamos entender um pouco o contexto histórico. A cultura musical do eixo Norte-Nordeste, dentre as tantas características, possui uma tradição de cantar músicas românticas. Sabe como é, uma sofrênciazinha ou outra mais que bem-vinda, pela voz do Reginaldo Rossi. Você já cantou que eu sei. Som esse que embala toda a região e que já se misturou ao eletrônico para dar origem a outros estilos como o Tecnobrega. Mas o Brega Funk em questão é jovenzinho, começou mais ou menos em 2011 em Pernambuco. Seu conceito? O visual do Hip Hop, o ritmo acelerado do Tecnobrega e letras do movimento Funk Brasil. Em 2018, a Kondzilla Records, maior selo de Funk nacional, lançou Envolvimento, da MC Loma, um blend de ritmo envolvente, letra fluida e chiclete, com um teor cômico. E o estilo deu aquele salto que falei lá em cima, sabe? Pois é, propagou pelo país. Só isso, já foi força motriz suficiente para impulsionar o Funk em geral. A verdade é que pela análise histórica, fica difícil precisar quando, onde, como e por que. Essas são alguns dados que colhemos em pesquisa, mas não necessariamente que o Brega Funk já não rolava no passado. Recentemente a funkeira Tati Zaqui, de São Paulo, juntou-se ao carioca OIK e ao pernambucano Dadá Boladão para gravar a música Surtada, um Brega Funk. O sucesso foi tão grande que o single atingiu o 1o lugar entre as músicas mais escutadas no Brasil pelo Spotify. E como história recente, os desdobramentos seguem acontecendo e aquilo que vira história está acontecendo agora. Minha recomendação? Não ignore, acompanhe.

Mega Funk: o batidão com a música eletrônica 

Agora vamos fazer mais uma viagem. Desça o mapa até Santa Catarina para encontrar o Mega Funk. Aqui, a história basicamente se deu sobre os desdobramentos do Eletrofunk, uma ramificação já sulista – e eu fico pensando na influência da nossa música eletrônica. E novamente estamos falando de um estilo jovem, que estourou próximo aos anos 2010, misturando música eletrônica com Funk Carioca e muitos, muitos passinhos.

O estilo se diferencia principalmente pela forma de mixagem, enquanto a vertente-prima é mixada do começo ao fim, o Mega tem suas contagiantes batidas marcadas apenas a partir do refrão. São sets que, em geral, têm entre três e vinte minutos de duração, podendo ter vários refrões vindos de samples dos estilos musicais mais variados possíveis da música eletrônica de pista, underground ou não. E o Mega é versátil, já que permite outros gêneros na sua mistura. Esse fenômeno, ainda que regional, mas que merece atenção, já não está mais ligado à periferia. Um som que já expandiu e faz parte das classes médias, ainda que haja muita discriminação. Seu primo nordestino deu aquele empurrãozinho para ajudá-lo a crescer e imaginar esse som se propagando pelo país não me parece algo improvável.

“Eu não gosto desses sons”… tudo bem, é como falei: não viemos aqui para te fazer amar – e tudo bem se sim – mas você pode conhecer e respeitar.                                  

O nosso Funk é um estilo jovem na história da música e indiscutível  combina com a cultura do nosso país-continente. O que se iniciou como uma crítica social rendeu novas ramificações, expandiu a cultura e mostrou a realidade da periferia. Sim, o Funk tem problemas em algumas partes dentro do todo, revelou falhas profundas e muito sensíveis que merecem atenção, como a violência, a sexualização precoce e erotização infantil e muitas polêmicas por incitar, por exemplo, a violência à mulher. E isso nem mesmo é novidade na história da música. Poderíamos dizer que fatos como esse abrem espaço para o diálogo e fazem parte de uma evolução social? Passamos a saber o que acontece e esse talvez seja o convite que precisamos para desalienar. Entender, por exemplo, o tamanho do preconceito e entender como essa parte da sociedade é por vezes esquecida. Minimamente popularizar o estilo trouxe a tona essas questões para que possamos olhar para elas. Casos como os citados acima já sofrem repúdio, são moralmente errados e não poderão ser tolerados, mas não podemos radicalizar e discriminar o estilo em totalidade.

Aliás, só pra você entender: boa parte das vertentes que vieram antes desse Funk sofreram discriminação. O próprio House e Techno já foram muito mais discriminados. Basta lembrar que os movimentos de Rock nos Estados Unidos protestaram contra o Disco, o House e, bizarramente, contra as pessoas desses movimentos, o que mostra como podemos ser intolerantes às vezes, não é mesmo? O Rock também sofreu repressão quando chegou, mas parte dele reprimiu depois. Jazz e Blues? Discriminados. Tropicália? Discriminada. E assim vai…ainda bem que tudo é movimento constante. E cresce. Afinal, o Funk está cada dia mais Pop. Grandes nomes do universo musical já vem aqui beber da fonte. Major Lazer e seu co-fundador Diplo estão sempre lançando collabs com artistas daqui. O americano Sango vive nas comunidades cariocas para fazer seus samples e suas tracks de Funk. O movimento é esse e posso dizer: existem sons muito bons dentro do Funk.

O Brega começou tímido lá pelas bandas de Pernambuco e hoje é um dos cinco gêneros que mais cresceu no Spotify e a própria plataforma o coloca na categoria de fenômeno. O Mega Funk também começou tímido e já deu saltos grandes em Santa Catarina. Não há dúvidas que irá propagar já já como fez MC Loma. Se você vai gostar de Funk Brasil daqui alguns anos? Bom, eu não tenho bola de cristal para dizer. A verdade é que nem é sobre isso – ainda que eu goste de algumas produções, por exemplo. É sobre conhecimento, respeito à multicultura em um contraponto à negação da mesma, reflexão, comportamento e evolução social. Mas eu se fosse você, respeitaria o movimento e já iria treinando uns passinhos, porque vai que né…

A música conecta.