Alataj entrevista BADSISTA

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O tempo em que as desigualdades e segregações presentes no mundo da música aconteciam livremente já acabou. É tempo de ativismo em qualquer aspecto da sociedade e causas feministas, raciais, de gênero e mais são defendidas com muito afinco no meio musical por nomes como BADSISTA, alcunha artística da paulista Rafaela Andrade. Esses movimentos têm mudado o panorama geral da música eletrônica e permitido que tenhamos acesso a novos artistas e propostas musicais que tornam o cenário muito mais rico.

O projeto BADSISTA está no mercado há 6 anos, mas o contato de Rafaela com a música iniciou muito antes. Autodidata no violão e no canto, a artista também estudou teclado e fez produção musical na universidade Anhembi Morumbi, onde aprendeu a unir música e tecnologia para levar seu som até o público, formando uma carreira bastante promissora e com importantes conquistas apesar do pouco tempo de atividade.

O aspecto mais interessante da musicalidade de BADSISTA é a preservação de sua identidade de mulher periférica, LGBTQ e o uso de suas produções para dar voz a essas causas. Sua força musical cruzou as fronteiras até a Europa, de onde voltou recentemente após uma nova turnê pelo continente, e garantiu a ela um set no Boiler Room Berlim divulgado no início desse ano. Nós chamamos Rafaela para uma conversa para conhecer mais sobre esse projeto e sua identidade musical, confira:

Alataj: Oi, Rafa! É um prazer falar com você. Realmente nos anima bastante ver uma artista como você conquistando sonhos e incentivando outras pessoas a seguirem o mesmo caminho. Bom, Para quem não conhece, como você definiria seu som? Quais misturas fazem parte da identidade de BADSISTA?

BADSISTA: Olá! Eu diria que é uma grande poção de música periférica do mundo inteiro. Música feita por mãos que tem como única saída se expressar assim, um campo de respiro, pois a estrutura social a todo tempo tenta te desanimar.

E de onde todo esse caldeirão musical? Quais são suas maiores influências, tanto na música, como na vida?

Das periferias globais, de pessoas parecidas comigo ou de artistas que em algum espaço-tempo da minha vida me atingiu com uma melodia triste ou uma guitarra distorcida no meio da minha adolescência. Pitty e Amy Winehouse sintetizam isso.

Você sempre soube onde queria chegar ou essa construção de identidade e evolução na música foi acontecendo de forma mais natural?

Eu sempre experimentei tudo. Já pisei em muitos lugares porque eu gosto de fazer música, seja lá como for: com instrumento, hardware (bateria eletrônica ou algo assim), ou até no gogó e na palma da mão. Pra mim não tem tempo ruim. Nunca pude fechar minha cabeça se eu quisesse chegar a algum lugar e ser mais do que já era. Hoje em dia, depois de tanto role que já dei, fica mais fácil visualizar o COMO do fazer, então penso melhor nos meus passos. Mas antes disso, eu só tinha na cabeça que eu queria fazer a tendência e não seguir uma.

Por ser mulher num mercado predominante de homens, imagino que você já deve ter passado por algumas situações infelizes… Hoje ainda acontece algum tipo de preconceito ou o respeito é de igual para igual?

Sempre me impus muito, desde o começo. Era meu jeito de me proteger. Hoje ainda me imponho, mas também conquistei respeito de muitos, então, comigo eles apertam minha mão e dizem que é um prazer me receber. Mas, como você disse, o mercado é — de uma forma burra — predominado por homens e nenhuma mulher está protegida de passar por alguma situação ridícula oriunda da falta de noção e autocrítica de grande parte dos homens.

Nosso país tem poucas produtoras musicais, você vê algum motivo específico para isso? O que falta para a balança equilibrar?

Machismo. E a resposta para isso é a difusão do conhecimento afim de ensinar, armar e criar autonomia para as mulheres (cis ou trans) que querem nesse caminho seguir. E essa difusão pode ser feita por qualquer pessoa que estiver afim de pluralizar os holofotes do palco. Eu faço isso pois estou — de uma forma sincera — cansada de ver homens brancos oferecendo uma performance péssima e preguiçosa no melhor horário da noite.

Presença na Europa e em diversos outros países ao redor do globo já é uma realidade, não é? Como você tem lidado com esse reconhecimento global nos últimos anos?

Tenho ficado muito feliz, principalmente por ter artistas que eu gosto há tanto tempo dizendo que gostam de mim, tocando minhas músicas e tudo mais. Isso não era algo que eu esperava. Mas, quando você vem do nada, acaba querendo tudo. E faço por onde esse canal seja aberto para mais artistas periféricas brasileiras passarem, pois é muito gostoso ver como a música tem o poder de atingir qualquer pessoa no mundo e criar na pista um ritual onde todos são importantes.

Conta um pouco pra gente sobre as iniciativas que você está envolvida? Aproveita e comenta também sobre sua participação no Subtropikal.

Participo da Bandida Coletivo onde fazemos o que citei ali em cima: difundimos o conhecimento para outras mulheres e pessoas LGBTs afim de armar e dar autonomia. O conhecimento te dá a liberdade. E também, minhas condições para trabalhar com mulheres e/ou pessoas trans são diferentes, porque eu to muito afim mesmo de ver todas nós ocupando diferentes lugares e confesso que vocês deveriam estar também. Já o Subtropikal é um puta festival com uma programação que pensa de fato em difundir o que é a cena atual e quem faz a cena atual. Programação 10/10.

Para finalizar, uma pergunta clássica do nosso portal: o que a música representa em sua vida? Obrigado!

Não sei fazer outra coisa da minha vida senão música, então, pra mim, representa tudo: os lugares que pisei, as amigas e amigos que fiz e o lugar onde posso chorar e sorrir sem sentir vergonha.

A música conecta. 


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