Alataj entrevista Millos Kaiser

Diggin: em uma tradução livre do inglês, escavação. No mundo da música, termo associado as pesquisas profundas, geralmente atribuído a DJs que tem no repertório uma de suas principais armas. Se o assunto na roda de amigos é música boa e se há a busca por um digger de peso, Millos Kaiser é a resposta.

Após uma longa jornada ao lado de Augusto Olivani no Selvagem, Millos anunciou sua retirada do projeto na última semana. A separação, segundo o artista, é a sequência de um caminho natural após uma série de transformações artísticas entre os participantes. Agora, Kaiser se dedica integralmente ao seu projeto solo e visa uma presença maior nas pistas do Brasil e do exterior, assinando a partir de então com seu nome de batismo.

Vale lembrar que o legado da Selvagem frente a cena nacional já pode ser considerado histórico e tudo o que foi conquistado por Millos junto a marca não se apagará. Pronto para encarar com o peito aberto essa nova fase de sua carreira, o DJ recebeu a equipe do Alataj para um bate-papo exclusivo que vem acompanhado do Alaplay 373, primeiro set de Millos após anunciar sua retirada do projeto. Confira:

Alataj: Olá, Millos! Tudo bem? Obrigado por falar conosco. Impossível começar essa entrevista falando de outro assunto. Selvagem: começo, meio e fim… como você resume essa jornada intensa e vitoriosa ao lado do Augusto?

Eu que agradeço, Alan! Acho que resumo como você o fez na sua pergunta: intensa e vitoriosa. Tocamos muito por aí: fizemos umas 200 festas, viajamos pros EUA, pra Europa umas cinco vezes, lançamos discos, fizemos um selo. Tenho muito orgulho da trajetória da Selvagem e acho que sempre terei.

Sei que não é simples falar sobre o fim de um ciclo, mas acredito que seja importante quando o assunto é algo tão representativo quanto o Selvagem. O que exatamente te levou a optar por seguir carreira solo, se desligando até mesmo da Selva Discos?

Os motivos são artísticos e criativos apenas. Com os anos de Selvagem, fomos naturalmente moldando nossos estilos enquanto DJs e chegou uma hora em que passei a conceber com mais clareza que tipo de DJ eu queria ser, o que eu queria tocar e, tão ou mais importante que isso, o que eu não queria tocar. Foi um momento em que mergulhei fundo no digging na vida real, passei muito, muito tempo em sebos e lojas de discos atrás de músicas que ninguém conhecia e que poderiam entrar nos meus sets. Parte dessas descobertas foi parar na coletânea Onda de Amor, que assinei e foi lançada pela Soundway Records no ano passado.

Foi um processo solitário de busca de identidade e saí dele com essa vontade de tocar as “minhas” coisas, do meu jeito. Na paralela, estava um pouco cansado de produzir festas para 1000, 1500 pessoas – um formato que fomos meio empurrados a seguir por conta das circunstâncias burocráticas de São Paulo, mas que não me agrada muito nem como produtor nem como frequentador, tirando raras exceções. Em tempo: eu e Augusto continuamos amigos e ele segue sendo um dos meus DJs preferidos.

Sua pesquisa musical é formada por muita música do fim do século passado. Existe um período ou movimento específico que você pode apontar como seu preferido?

Acho que 90% dos meus sets é composto por faixas dos anos 80 e 90. São estéticas e timbres que me agradam, falam comigo, muito provavelmente porque cresci escutando envolto por esses sons – nasci em 86. Prefiro as produções e mixagens dessas épocas, menos polidas, menos formulísticas.

Você não apenas acompanhou, como tem sido parte importante deste movimento que transformou a noite de São Paulo nos últimos anos. Na sua visão, quais são os destaques dessa cena e o que ainda precisa evoluir muito?

Nos nove anos em que estou tocando e atuando na cena de São Paulo, o destaque pra mim foi a Voodoohop. Vi o coletivo virar a noite paulistana de ponta-cabeça fazendo festas em locais diferentes, propondo liberdade e som eclético na pista. Da Voodoohop nasceu Carlos Capslock, Mamba Negra, Selvagem, Calefação Tropicaos e muitas outras festas e núcleos. As produções evoluíram muito, sem dúvida, em matéria de soundsystem, luz, organização… talvez até demais [risos].

O que mais precisa evoluir agora, ao meu ver, não são as produções e produtores, mas sim o outro lado da corda: o estado pensar a noite como um ativo social e cultural da cidade, destravando o processo de produção de eventos em locais privados e públicos, com regras claras e transparentes para todos. O que não dá é pra pagar alvarás caríssimos sem lógica clara que justifique o valor cobrado.

Nos últimos anos você rodou por algumas pistas importantes da Europa, levando uma mistura sonora que é raramente encontrada por aí. Na sua percepção, como os gringos absorvem esta assinatura sonora? De uma forma geral, o público de fora consegue diferenciar ritmos latinos, africanos e brasileiros?

Rodei e vou rodar mais agora em março, numa turnê de um mês por lá. Passo por Madri, Belgrado, Londres, Montenegro, Split, Amsterdam e Lisboa. Acho que é até mais fácil tocar música brasileira (ou, pelo menos, o tipo de música brasileira que gosto de tocar) fora do que aqui. A recepção e a sede por esses sons na Europa é maior. Boa parte das pistas brasileiras ainda é bastante baseada no house e no techno gringos. E acho que, sim, hoje os europeus conseguem distinguir bem hoje em dia esses sons periféricos – periféricos para eles, né, mas enfim. Sabem que a música brasileira tem um tempero diferente. E que a gente faz reggae, house, boogie, tudo.

Dentre todas as record shops, sebos e galpões de colecionadores que você já visitou, qual lugar mais te surpreendeu?

Eu acho que a A1 em Manhattan é minha loja preferida no mundo. Tem disco do chão ao teto, você pode fazer uma pilha de tudo que não conhece e simplesmente passar horas lá escutando tudo sem ninguém te encher o saco. Muitas coleções de DJs passam por lá e, claro Nova York tem uma população muito variada, então aparece disco do mundo todo. Passei dois dias inteiros lá dentro uma vez.

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O que você pode nos contar sobre esse mix que foi gravado para o Alataj? Qual a espinha dorsal musical que você adotou para gravação?

Resolvi mostrar meu lado mais eletrônico, mais club. É um apanhado do que tenho tocado nos últimos tempos quando, por exemplo, pego uma pista lotada às 3h e a noite é mais focada em house e techno. Penso que a maioria das pessoas me associam mais a minha pesquisa de música brasileira, mas fiquei com vontade de mostrar um pouco do que tenho tocado quando está escuro e o povo está empolgado querendo uns beats – mesmo assim, claro, tem coisa brasileira no meio também.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

A música sempre foi paixão, virou hobby, profissão e se misturou com a própria vida, se transformando numa coisa só. Tenho um sentimento sagrado com ela: é como se tivesse sido abençoado e assim consigo passar por esse mundo com uma sensação muito boa de propósito e felicidade. E ainda tem as missas, os outros fiéis [risos]. Amém.

A música conecta.


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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